7 de junho de 2012

eu sou neguinha


Estar à deriva determina a falta de circunstâncias favoráveis. Vendi a cama, o fogão e as falsas verdades.  Comprei a minha carta de alforria. Salvador, 10 de fevereiro de 2011. Ah, se os meus irmãos soubessem. Ah, se não fossem os senões. Não vendi o corpo, mas o apanhei em pedaços, depois de cada amor frívolo. A pele escura te seduzia, man? Não queira saber se vai haver depois. É infinitamente imperfeita a sua escola. Eu precisei aprender a resistir, me virar, não me enganar. Suar e comer o prato frio da obediência pontual. Sorria, nós te queremos muito bem, porque nós te amamos. Amava a minha resignação, querida? Quantos sorrisos forçados meus foram necessários para você colocar a cabeça no travesseiro e depois dizer: eu sou bom. Caridade, assistencialismo, cinismo e hipocrisia. Tudo cabe tão bem. Cumpre todo o seu desejo de sempre amar ao outro, mesmo que o outro seja fruto da sua ostentação de sempre ser mais e mais. Mesmo que sejamos pouco iguais. Mesmo que só você seja vip, na cadeira do oportunismo. A sua bolsa ainda combina com o sapato? Bitch, please. Quantas bolsas-famílias faltam para  o sem-teto da Vila das Margaridas chegar até você? Vão levar a sua carteira e os seus anéis. Mas o rapaz é drogado e preto e vagabundo. Tem que morrer? Não, não, você não vai querer entender. Mas eu vou precisar dizer. Dirá que é coisa da minha cabeça, não? Mas quando o seu marido me olha como se eu fosse dona do cabaré ou uma nega de estilo, sou eu que cobiço-o? É o fardo que carrego, filha! É, eu já não tenho casa ou qualquer conhecimento sobre a sua ignorância. A luta sempre foi encoberta. E agora não tenho para onde correr, e não vou atrás da melhor maneira de pertencer, estou à mercê das minhas fragilidades, menos de vocês.


                                      

5 comentários:

  1. O processo do encontro de si mesmo se faz necessário o todo momento..se despir de crenças errôneas é o primeiro passo para a busca desse novo.
    Sua forma de escrever vai direto no emocional de quem está preso a algumas situações..esse texto me fez refletir sobre minha atual vida. É preciso ter coragem para dar um novo passo, se libertar, pois assim poderemos enxergar melhor e se despir de conceitos que foram impostos.
    Abraço,
    Sayonara.

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  2. Esse texto é mais corajoso e você se impôs mais. Eu não sei se você quer que eu continue fazendo o papel de chato e pontuando críticas como se eu fosse capaz, mas antes disso gostaria de dizer que senti o que sentiu, e isso foi bom. Mesmo não sendo negro, tenho me colocado a margem há muito tempo e acho que com esse texto vc se aproxima mais de mim. Mas enfim, como ninguém critica (nem sei se o blog é esse espaço) e eu adoraria que fizesse isso comigo rsrs, lá vai mais uma vez...

    Eu gostei do estilo. Sabe que tento fazer esse lance, essa auto-crônica poética... sei lá... classificar é idiota...

    Achei um pouco exagerado, parece pouco verossímil, parece um desabafo bem escrito, mas ainda não um poema. Falta lapidar as imagens e o discurso que acho que ficou um pouco solto. Se tem ódio nisso, indignação, não basta esbravejar ou ser direta demais, pode soar arrogante... Pedi para que fosse mais arrogante, mas precisa entrar mais dentro de você acho e fazer isso de forma delicada. Ou então totalmente displicentemente... não sei. As vezes parece discurso pronto. Carta de alforria parece exagerado. E o chororô de que carrega o fardo, de que a história é dos vencedores, e de que a pele escura seduz o cara que só olha para "você" fetichizadamente, é um pouco clichê e não choca mais, a meu ver. Se sente realmente é isso, se isso é você, então vá mais para as entranhas, seja completamente frágil e humilhada. Mas se sente forte, como o demônio que grita que sugeri a ti no outro poema, então grite, mas não palavras de ordem... fale mais sobre seus pormenores. Se o contéudo é simples e tem algumas imagens bacanas que por si só já chocam, brinque mais com as palavras, com o ritmo, com a rima ou não. Trabalhe mais o texto poeticamente. Se liberte um pouco dessa prosa. Eu gostaria desse texto ainda mais subjetivo, então não cabe B Negão, cabe algo mais melancólico, interiorizado. Se quer um texto mais político, argumente mais, construa mais imagens. Bem, eu acho isso, acho que como aprendiz de escritor penso que ficaria melhor o texto. Mas enfim, pode me mandar tomar no cu rs. Beijo grande.

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    1. Olá Bruno!
      O meu blog é um laboratório para as coisas que penso e gostaria de transformar em linguagens literárias. E alguns textos não são poesias, não são contos, e caminham para essa auto-crônica - bem pensado. Porque penso que cabe ao blog ser um caminho especulativo, para quem achou aqui uma maneira de permitir encontros com leitores ou colegas escrevinhadores.
      Então, acato as dicas sobre o formato do texto, só não concordo com a forma que diminui o meu discurso. Porque por mais "histórico" que seja a alforria e o "corpo fetichizado"(usando as suas palavras), penso que cabem, quando sinto isso, quando acho nestas imagens algumas respostas para as angústias de outrora. Então, se você sentiu o que eu senti, o texto já foi válido - daí, me parecer estranhíssimo da sua parte quase que modificá-lo por inteiro, quando desconstrói todo o argumento. Ou seja, como não é uma poesia, muito menos uma prosa bem elaborada, o texto é ruim? rs
      Me parece que seria muito mais isso...
      beijo

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    2. Ou porque carrega clichês não tem relevância?

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  3. Tem relevância poética ao meu ver sim e sua escrita é sempre bastante cuidadosa e com um ritmo forte. Mas embora seja importante e ainda latente discursos como esses, me parece que ainda falta argumentos e que ainda pode lapidar as imagens. Eu senti o que vc sentiu, pois de alguma forma sei como se sente por te conhecer e porque o texto é direto. Mas é muito direto. Falta dor. Não precisa ser bem elaborado ou delimitado num tema, mas as vezes a forma orienta e dá força. Mas falta imagens e argumentos. Quando é um texto sobre peculiaridades da sua subjetividade, fica difícil apontar essa crítica, mas como é um texto que expressa as questões de raça, classe, negritude, mesmo que circunscritas na sua subjetividade, acho que há a necessidade de apresentar argumentos melhores e imagens renovadas, pois já é um tema muito tratado. Fico feliz que tenha colocado mais coragem, mas penso que nesse caso específico, falta trabalhar mais imagens novas, ou mesmo mais a sua dor, no âmago mesmo. E acho que sim, precisa parar com a despretensão do laboratório, estudar forma, ler mais poesia e saber o que quer com isso, mesmo que faça o texto mais hibrído do mundo e saiba manter o cuidado em não arriscar e ir além. Mas vá além no trabalho textual. Beijo.

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uma palavra, bamba?