8 de abril de 2012

eu, não


Todos perguntam se eu vivi tudo. Tudinho? Nada, não teria tempo para isso, baby. Escrevo em eu's inventados, depois de percorrer avenidas íntimas ou alguma praia habitável. Aprendi que não deveria abusar dos adjetivos. Uma pena, professor! Adjetivos são a parte doce da língua. Só causam diabetes em última instância. I'm so sorry, but... ABUSAREI das adjetivações até segunda ordem, ou seja, até outra estética textual chegar e me levar para outras ideias, sensações e construções literárias. 

Escrevo para não morrer de embolia, para comprar um pão fresquinho de manhã e saber comê-lo e para esquecer as vidas deixadas nas frestas ou vãos dos desencontros. Já me desencontrei de você hoje? Não conheço os meus vizinhos. Eles só aparecem quando batem a porta atrás de si, para apagarem-se em seus cotidianos espalhados em tapetes simétricos à cor da geladeira. Nunca enfrentamos o mesmo corredor - será que nos apaixonaríamos? Teríamos filhos? Ou te odiaria como quem rasga a diplomacia e política da boa vizinhança? Não vejo o seu rosto, stranger. Os seus horários não combinam com os meus. Falta sincronicidade. Sintonia. O raio que o parta. Ou algo assim. 

Porém, não se dê ao luxo por não vê-lo, caríssimo(a). Tanto que eu escolhi não ver mais.

*

Escolhi esquecer aquele adeus, quando o fulano ou beltrano resolveu sair e não se despedir das roupas jogadas no banheiro e das louças empilhadas do último jantar. Fui embora também naquele dia. E vou embora mais um milhão de vezes, enquanto o ponto-e-vírgula  for  maior e as permissões se ocultarem. 

*

Você PERMITE-SE viver, leitor?

Você já olhou a cor dos olhos do seu vizinho? 

*

É domingo aqui. Sinto um cheiro de frango com batatas, haverá um almoço de família no 203? Acho que o meu vizinho está com visitas em casa, ouço crianças extra-habituais correndo em cima da minha cabeça. Dia dos encontros forjados? Eu não sei me fantasiar de filha, neta, prima. E fico matutando como seria a persona de todas elas. E de tais papéis sociais vão se construindo imagens, personagens, vidas para além de nós. Então adjetivos são criados, juntos com palavras substanciadas por sentimentos orgânicos.  Em resumo, cumpro a minha sentença com todos os meus eu's. Das ausências, dos desencontros, excomungo-me. E enraízo outra esquina, porque as quinas nas ruas são pontos comuns (mas pouco ocupados) - VOCÊ estará lá, me espera?

*

Eu não sei me desencontrar, sei mentir e inventar. A minha escrita é sua? A gente pode sair por aí mais tarde. Todos os cafés, praças públicas ou botecos poderão nos receber. Chegue mais. Avizinhe-se. EU estarei lá, ou não, my dear.


*


Para ouvir lendo. Experimenta!

Sheila Take a Bow

Is it wrong to want to live on your own?
No, it's not wrong - but I must know
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Is it wrong not to always be glad?
No, it's not wrong - but I must add
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Take my hand and off we stride
You're a girl and I'm a boy
Take my hand and off we stride
I'm a girl and you're a boy

Sheila take a, Sheila take a bow
Throw your homework onto the fire
Come out and find the one that you love
Come out and find the one you love

9 comentários:

  1. trecho 1, antes da curva 1: não, não vivi tudo. talvez uma comunicação de alma levou teu texto a se lembrar de mim. ou melhor. vc, no teu texto, se lembrar de mim. por conta da minha personalidade, timidez, pudor O MUNDO me pergunta se vivi tudo. não, não vivi. e provavelmente não viverei. e do que vivi. de quase tudo me arrependo. trechos a serem comentados em outros quilometros... após eu me recuperar do trecho 1, antes da curva 1.

    ResponderExcluir
  2. Abusado... assim que eu gosto. Senti parte do que sentiu... Por isso esperei pra ler, pra estar mais limpo... esses dias não estava. Senti a força de ser poeta que vc sentiu e a solidão decorrente disso. És um demonio e um santo ao mesmo tempo. Faço-lhe uma reverência.

    ResponderExcluir
  3. É quarta-feira aqui e sinto um cheiro de papéis e café de escritório.
    Como é bom ver as palavras trazendo a vida e colorindo-a!

    ResponderExcluir
  4. Adorei poeta. Saudade dos seus adjetivos ;)

    ResponderExcluir
  5. Sei que gostaria de uma breja para conversar sobre este texto contigo. depois de uma tsunami pessoal me perdi nas curvas. rs, ainda lendo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou planejando uma visita, logo mais! :D

      Excluir
  6. odo seu estilo, todo, ainda que eu esteja desavisado [me permita desavisos] é a própria, a inteira, indivisa construção de sua própria narrativa - duas vezes potencializada pelo seu ser. veja como você escreve em pronomes e se permite, substancialmente, adjetivar seu "eu" [pronomes e nomes] dando mais que uma substanciação ou subjetivação, dá um significado primaz ao proprio ser que o escreve; seus adjetivos [inicialmente na oração] são para você e mais ainda para os outros. você se permite adjetivar porque não é possível adjetivar o seu ser no do outro. é apenas o seu ser, apenas o seu que importa [para mim, o seu eu é a própria validade do meu ser]. palavras bambas não vacilam em provocar o bailar suave dos outros eu's. meu ser, ou você, quando fala de ti em minha direção [bela oradora] só gera confusão pacifica, pois me indica, comporta o meu questionar, um novo questionar. O meu vizinho do 203 é apenas um vulto espectral de sons e sensações vazias. o almoço é apenas uma vaidade casual que me ocorre quando penso na familia, no rango propriamente dito, no exato momento que eu como ovo frito com feijão de ontem.
    Quando você me vem com essas verbalizações adjetivadas, substancializadas, pronomizadas e etc., unicamente a mim mesmo é a quem me refiro. talvez, nem seja necessário ler mais de uma vez o seu texto, li apenas por descarrego de consciencia, 2x, 3x, e enquanto escrevo essas palavras também. mas o que interessa, sou eu que leio. foi eu que li! não é você que lê para mim, apesar de você ter escrito [escrevido - eh melhor rsrsrs], tudo que estava disposto, agora está disposto na minha consciência. e olha que coisa interessante: quando me asseguro da minha independência identificada, apenas me identifico com suas palavras que agora já são minhas. louco esse bagulho de ler os textos loucos que outros loucos escrevem [louca no seu caso]. poesia e barulho são quase a mesma coisa, e loucura, rima, simetria textual, verborragia abastada para provocar o ser alheio é quase perversidade princesa. melhorar o seu estilo é pouca coisa minha gata, você tem é que entender que seu ser é para o meu agora como um pedaço indissociavel de pensamento, palavra, verbo, substantivo, adjetivo, conjunção, vicios de linguagem, perguntas já respondidas, respostas nunca questionadas, e pronomes, muitos pronomes - eu e você. nós ou "nois" nem me importa mais agora. você é um eu que apareceu para ser, melhor, eu sou um você que é, que foi, que será...
    gostei de ler aquele pedaço de "papel", tele-dramatizado por meio de uma tela de computador e cabo de internet, uai, sempre tem alguem a bater papo nesse facebook, e tento até hoje entender o que você quis dizer. um coisa eu tenho certeza, estilo você tem. tem muito estilo. ah, seu ser se potencila, ou potencializará, se eu ler o que você é, e mais, você ser o meu eu na hora que eu sou.
    escreva minha princesa, escreva, você tem muito estilo...

    ResponderExcluir
  7. Salve Nêga,
    as fantasias de casa cheia de familiares dialogadas com a a vida solitária e individualizada dos condomínios lotados de gentes e vazios personificados na segurança privada das baias aprisionantes me leva a pensação de que cada vez mais o lugar mais seguro da liberdade ainda seja o terreiro, a rua, portanto, saiamos doas quartos e salas e venhamos brincar nos quintais...

    Guilherme Salgado

    ResponderExcluir

uma palavra, bamba?