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7 de março de 2012

cartas marítimas IV

São Paulo, 23 de fevereiro de 2022.

Ana,

precisei dessas semanas de ausência, desses dias perto do Pedro, longe de todas as parafernálias que nos convocam e assombram o tempo inteiro em São Paulo - por isso, a demora para responder suas cartas. Envio os originais do meu futuro livro: Náufragos e líricos - sim, foi assim que resolvi chamá-lo. É um livro de contos. E todas as histórias e personagens estão mergulhadas na ida sem volta, no quase, no limiar, e depois apogeu da entrega, e da luta para não sucumbirem à morte anunciada, quando descobrem a inutilidade de tudo isso, mesmo não sabendo/ podendo fazer diferente. São personagens apaixonantes, mas muito ingênuas. Tive dó, muita vezes, de alguns deles.  

Não gostei muito das suas últimas cartas. Na verdade, fiquei bastante preocupada com você. Pois não consegui entender tanta fúria. Ou melhor, eu entendo sim, mas dói ver alguém rasgar os pulsos e cartografar em sua própria pele tamanho desespero. Afinal, mesmo quando sabemos de tudo isso (amores naufragados), ainda é necessário escolher uma esperança - uma possibilidade de rearranjar a dor num outro prumo, naquele que não ameace tamanho desgosto. Você é uma poetisa, minha amiga, e tem a promessa de re-significar os olhares. Quando leio e releio seus livros, lembro o quanto sou feliz pela nossa amizade, o quanto sou grata por tudo que já dividimos até aqui. Então não posso permitir essa sua briga com a idade, com o corpo. Perde-se a rigidez dos músculos, e ganha-se disposições para melhor contemplar as horas.

Pedro e eu queremos você muito bem. Venha para o Brasil nos visitar, que tal?

Minha querida, dediquei o livro ao Pedro e a você. Estou ansiosa pela sua leitura, penso que vai ter algumas surpresas. Depois da cirurgia, fiquei bastante sensível à impossibilidade de caminhar. Porque andar sempre foi uma necessidade minha de ir e vir, de partir e voltar quando eu quisesse. E nestes meses que precisei resguardar os pés e conter-me com o cotidiano às janelas do apartamento na praia, me senti limitada sem a presença da cidade e seu arcabouço de gente e concreto. A varanda de Santos emoldurava o sossego que não vemos em outras geografias, seja as praianas ou mais bucólicas. Mas também engessa os sentimentos e a vontade de desejar outros mares e horizontes, tamanha tranquilidade. 


E aí nasceu Náufragos e líricos e assim me vi disposta a pensar num outro livro, um romance. Quero escrever a história de um casal separado pela tragédia de uma menina suicida; eles não veem a morte da garota, mas vivenciam seus próprios dramas ao estarem, em momentos diferentes no local do acidente. Vamos ver o que consigo, os meus dedos estão frenéticos por estes tempos. Devo escrevê-lo em breve.

Vou aguardar sua resposta. Olha, tudo o que eu realmente gostaria de dizer para você, neste seu momento de angústias e renúncias está nestas narrativas do livro de pessoas tão femininas e estremecidas pela perda e resignação constante.

Saudades.

Um beijo e abraço,

Maria Paula


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Maria Paula corresponde-se com Ana, personagem de A janela poética, da autora Noelle Falchi em:



Tais cartas nasceram daqui:

Cartas marítimas I

9 de janeiro de 2012

cartas marítimas I

Santos, 23 de janeiro de 2022.

Minha querida Ana,

Escrever cartas tem acompanhado meu sossego.

Aqui na praia a rotina anda em marcha lenta. As pessoas realmente esquecem do cansaço às 19h30, enquanto fazem caminhadas no calçadão ou colocam suas cadeiras de plástico próximo da faixa de areia para jogar conversa fora com algum amigo. São hábitos bastante diferentes dos nossos. Mas não reclamo, não. Isso de poder ter uma rotina mais calma está me fazendo bem. A recuperação da cirurgia das minhas pernas vai bem com isso, com essa lerdeza das horas perto do mar. 

Os médicos estão confiantes que voltarei a andar sem muletas tão logo. Enquanto isso, escrevo cartas e tento dar continuidade ao livro de contos, que havia começado antes de ser operada - tudo da varanda, do vigésimo andar, de frente para a orla da praia. Não sei se mencionei algo sobre este livro para você, minha amiga. Será um livro curto, com treze contos, todos entrelaçados com a mesma temática. Não vou contar o que é exatamente porque quero enviar os originais a você. Gostaria que você e  Sabrina lessem.

Além disso, Pedro e eu temos conversado bastante por telefone. Não tem jeito, com ele preciso do mínimo de contato real, mesmo que seja vê-lo em imaginação ao ouvi-lo. Porque ao falar com ele, acho que me recupero mais rápido, fico empolgada para terminar o livro também. No próximo final de semana, já estará de férias e poderá ficar comigo até o fim da minha estadia em Santos.

Ah, estou louca para conhecer a casa de vocês. Soube que aí tem bastante damasco, não é? Tenho uma receita de torta de damasco deliciosa. Aliás, este é o doce preferido do Pedro. Quero aprontar uma dessas quando for visitá-las.

Bom, fico por aqui, não quero me estender mais. Até porque, se você notar, essa carta está ausente de emoções. E a praia é só a praia. A cirurgia foi bem, obrigada. Pedro e eu estamos ótimos, nunca nos cuidamos tanto. E o livro flui como quem nada em rio raso, sem grandes correntezas. E você sabe, não sou assim. Preciso sempre de um frisson, para ganhar os dias toda corada de vontades novas e sensações pré-fabricadas, antes por uma novidade, depois pela minha capacidade de ser abduzida para um estado de euforia. Enquanto  não me recupero por completo deste deserto emocional, prefiro terminar essa carta aqui. Sei que você entenderá. Mas não deixe de mandar notícias. Segundo os médicos, é muito importante para um enfermo ter os entes queridos bem perto, mesmo só em palavras.

Amo você,

Maria Paula.