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11 de fevereiro de 2012

da perspectiva de quem vai

quando o táxi arrancou, nos despedimos em quereres conflitantes, e você segurou-se no levante do impulso do soluço, e seus olhos marejaram, e eu olhei pela janela, dentro do carro, te deixando presa num quadro concreto, de carne e osso. quando fui me vendo partir, e ir, vi como é ficar, e como é querer ir, e já fui, já estou, longe de casa, da praia, dos canais, dos meus melhores e piores anos na Santos que sempre será minha referência, meu colo amigo e briga familiar. quando a ficha caiu, quando senti um calor solar e um vento baiano nos cabelos, não segurei a emoção, porque os meus olhos presos naquela cena de você me amar e me deixar ir é a extensão do nosso cordão umbilical e a ruptura das raízes paulistas - por ora?

Bahia, 11 de fevereiro de 2012.

25 de outubro de 2011

abrir-se-vos-a

Abriu os braços para pular.
Do trigésimo e quinto andar.
Do alto do seus vinte e um anos.
Abriu os braços para descer ao chão.
Braços abertos para acolher a gravidade na queda.
Lá do alto.
Seu corpo esquálido, sua boca amarga e seus pés soltos.
Para o pulo.
Desfazer-se em carne viva no asfalto.
Os passantes ainda não a enxergavam.
Por fração de segundos, ninguém a esqueceria.
Nunca mais.
As buzinas já começavam a soar.
Entre o asfalto e o alto do Edíficio Partenon, planaria?
E depois da queda, sossego?
Veio o impulso.
Do alto do despero, não apoiou-se mais nos pés.
A atmosfera desembaraçava-se, enquanto ela caía.
Descontínuo solo.
Corpo espaçado, corpo mutilado.
Ao sol do meio-dia, SP, 29 de abril de 2008.

19 de outubro de 2011

eu literário

queria ser
micro conto
lírica
e encanto

mas não sei
só penso
atenta
não descanso

meu eu é filósofo?
eu, contradição.

18 de outubro de 2011

passa em casa, tem bolo

tem chá
tem café
tem almofadas pelo chão
tem cheiro de doce de framboesa
tem o Murilinho correndo pela sala
tem as cortinas avoadas
tem o sol marcando sombra nas plantas
tem a Lila escondida no vãozinho do ármario do corredor
tem meus abraços
tem colo da vó
tem uma gargalhada na espreita por uma história nova sua
tem a espera
com café
com chá
com o chão coberto de almofadas
com bolo recheado de doce de framboesa
com o Murilinho aos pulos
com o vento nas plantas
com a Lila de olhos arregalados por um carinho
com a vó nos observando de tão feliz
com o meu gosto pelos seus causos
com a vontade de vê-lo aqui
em casa,
vem logo, tem bolo!

22 de setembro de 2011

uma pequena vida

(para homens de natureza morta)




lorenzo na sua meia-idade,
meio vira-lata,
mais ou menos triste,
com meia barriga de chopp,
nunca conseguiu fazer algo por inteiro.

hoje é um homem metade viril,
a outra metade broxa.

14 de setembro de 2011

sem entrelinhas

Frente da cinemateca francesa - por Bryan Faustino
Palavras são bambas. 
São carniceiras ou mães possessivas.
Palavras não têm cor.
Estão livres de cotas.
Palavras escapam da lama dos mendigos.
Palavras vivem em bordéis e sacristias.
Nunca estão sozinhas.
Vendem a vida por outra palavra.
Palavras não saem pela culatra. 
Têm passado e futuro.
Palavras carregam fome.
São aprendizes de outras palavras.

Palavras se aborrecem.
São polidas, se bem atendidas.
Não têm identidade, nem raízes únicas.
Brotam do soluço dos loucos.
Palavras não têm ideologia.
Palavras ficam firmes, quando empacotadas em bibliotecas.
Não reclamam salários, nem pensão ou fundo de garantia.
Mas palavras não se adaptam.
Perdem a compostura.
Palavras dançam.

Todas as minhas palavras estão aqui
de trás pra frente
de lado,
esquerda,
direita,
para você me enxergar -
nua.


*Post escrito depois de assistir o curta-metragem A janela poética, e ouvir a diretora no debate, após a sessão do filme, perguntar para a plateia: por que você se entrega?; e lembrar as janelas das quais já me debrucei e todas aquelas espelhadas nos meus desejos, que não cessam a busca por outros saltos e novas entregas...

12 de setembro de 2011

puento ciego (II)

Sobrava ausência.
Entre sorrir e labutar, nunca tomou nenhuma decisão.
Ameaçou,
fuga.
Atravessou noites pueris.
E continuou...
para além do suicídio:
guardou-se
entre vão e abismo.

10 de setembro de 2011

puento ciego (I)

Assim, não. 
Não consigo enxergar até aí. 
Deste modo, não.  
Não aos jogos morais, meu senhor. 
Mais uma vez, digo, deste modo, não. 
Sim, há uma senha para o motim. 
E você vai ver, nunca será declarada. 
Não, deste modo, não. 
Lá, lá mesmo 
Não se vê. 
Ninguém vai ver. 
A verdade vai falhar. 
Prepare-se!

Sempre...

30 de agosto de 2011

a procura do rio Paraná

Para Deus Netuno


do contra, atravesso mar adentro


ilha por ilha


só por contravenção




histérica, e sem choro


dia a dia


só pra não não me violar




batizo-me






mas nunca ganho um cais


.
.
.


Ps 1.: Um mergulhador me contou, o rio Paraná é mais profundo que o mar.

Ps2.: Disse também uma amiga, pra aqueles que não conseguem aportar, resta amar. A-mar.

7 de agosto de 2011

sujeito oculto

Vende-se
Aluga-se
Procura-se
Se desespera.
Pede-se
Cala-se




E lá se vai outro dia do mês de agosto, longo e ao gosto do se.


Vai-se


Pendura-se 
no varal 
roupas maltrapilhas 
cheias de Omo.


Se não fosse agora o cheiro dele ausente ali.

20 de junho de 2011

(da posse do verbo ter)

Tenho escrito pra poucos. Tenho pensado tanto, que tanto faz, se é dia ou noite. Tenho descoberto palavras. Sim, querido, tenho anotado todas. Tenho sentido vergonha da paixão. Tenho feito muitas exceções. Tenho sonhado com uma casa na praia cheia de filhos e amigos. Tenho fabulado romances. Tenho poucos meses pra começar o fim na minha aldeia. Tenho abolido o passado. Tenho amado mais ainda as pessoas que me acompanham todos os dias, mesmo na distância: Santos X  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Piauí, Berlim. Tenho guardado lágrimas por trás da maquiagem. Tenho preservado o escândalo de não conseguir me controlar e entender. Tenho me aproximado de rapazes tímidos, incapazes de me seduzir só por uma noite, porque querem mais do meu sorriso. Tenho vendido esperanças a prazo. Tenho saído do útero do mar e olhado para o amanhã que nunca tarda em chegar. Tenho pisado pouco no chão. Tenho virado balão.
Tenho notado toda constelação perdida em noites bem dormidas.

21 de dezembro de 2010

in vitro

Turva como o vento inacabado, viu-se em desalento.
Era uma solidão de dar dó. Só.
As paredes frias seguravam e asseguravam o seu corpo desmoronado.
E certa tristeza infantil rondava-a.
Feita de silêncio (demasiado) pertubador, chacoalhava o pranto ensurdecedor.
Noite de imperadores. Fazia plantão a morte do medo de ficar.
Olhos fechados.
Começou a debater-se.
Era redoma acrílica.
Gritou! Susurrou.
Cores de todas as tonalidades penetravam os poros da pele, lutavam para atravessar a sua rotina, retida na retina.
Precisava sufocar a dor de fora, pincelada sem seu consetimento em dias reclusos adentro. 

Explodiu-se.

Decantou-se. Uma outra de si.

E não mais acordou para aquele prisma amalgamado, senhor de seus sonhos intranquilos.

4 de outubro de 2010

balloons




amantes soltos

Foi paixão primeiro.
Nervosismo depois.
E pernas trêmulas durante.

Não é amor.
Não é compromisso.
Não é de verdade.

Tem uma pontada de medo.
Tem um cheiro permanente disperso próximo atraente.
Tem respiração cheia de intervalos longos.

Percebi você quando não restavam mais dúvidas: há dúvida.

Pedi pra você ficar mais.
Perdemos a hora da despedida.

Desistimos da opção do talvez.

14 de julho de 2010

extremos

Lá. Do lado de lá.

Tem gente. Tem dor. Tem um senão.
Tem você. Não tem ninguém. Tem alguém.

Aqui. Assim.

Tenho um segredo esquecido.
Tenho prosa.
Tenho sentidos apurados.
Tenho rimado pouco, enfim.

23 de junho de 2010

depois

"Olha, meu bem, o céu
Vê quanta luz, quanta estrela
Quase todas mortas
Só não é chegado para nós o tempo que se apagarão
A gente tá na lanterna, do tempo que virá..."
(Tempo/ Espaço - Lulu Santos)

As horas. Os dias. As vírgulas. Os dois pontos. O tempo. As palavras.
A Literatura.
O silêncio.
A poesia.
O Amor. A solidão.
A pausa.

Foi uma pausa até aqui. Por mais de dois meses, não mais escrevi porque precisava do intervalo da conversão. Anotei no bloco de notas dos meus distantes pensamentos as descobertas que me silenciavam. Por muito, emudeci. Fiquei quieta e pintada por cores tão pacíficas quanto o meu desejo de só sentir. E imprimir em gestos de personagens e cenários os meus significados inventados, numa lógica gratuita do mistério paralelo da nossa verdade insensata.

Foi pausa.
Foi só.
Amorosamente. Sem limites, percebi uma das linhas tênues entre o ficar e o nunca mais...