5 de novembro de 2012

dos tempos revirados

[uma foto e aquele dia de artifícios em sonhos coletivos]

foi num ano novo que passou. a juventude ainda batia na nossa porta, entrava pelas frestas, ria para o gato e se estatelava solta, talvez, um pouco lívida e grávida de esperanças. 
a festa ficou presa naquele 31 de dezembro, só que resiste o gosto pela novidade do que ainda queremos viver, mesmo  menos jovens ou mais enrugados pelas inconstâncias do tempo.  
havia naquela virada uma promessa de mudança, e segui itinerante, meio torta, pouco fugaz. 
e você? 
seguiu seu instinto ou vingou-se em pouca ambição? 

(escrevo para nenhum destinatário, espero que leia)




2 de novembro de 2012

dos tempos intranquilos

fazer as malas pela quarta vez, empacotar a casa, embrulhar uma cozinha completa, - cuidado, os copos quebram! - e caixas de livros, discos, entulhos ou bilhetes avulsos perdidos, cadernos do começo até aqui, moradias de uma vida distante, são tantas adaptações, dessa viagem interminável, ah, itinerâncias de 2012.

2 de outubro de 2012

salvador não salvaDor

"o acaso está ligado a situações geográficas:
como um lugar que não existiria sem a geografia de alguém."
(Noelle Falchi)


(   )
silêncios.
(   )

a cidade toda parou, enquanto eu descobria avenidas, pontos turísticos, ruas sem saídas, restaurantes, gente pobre, gente rica, miséria e paixões.

então, chegou: você.

me convidou para ouvir as cores do som, da música sem timbres, enquanto brincávamos de transeuntes de uma cidade desabitada, sem confluências de qualquer ordem. cidade morta depois de ver o último navio aportar e partir. e mais nada. nunca mais.

e a gente ali, você e eu, eu e você, divididos pela maresia local, cola de sapato das indecisões, em tempos de mares revoltos, em tempos de buscas de soluções. 

(   )
silêncios.
(   )


12 de agosto de 2012

das ausências permitidas

Ainda flagro passos seus na calçada, por onde nos trombamos repetidas vezes, no último ano antes da sua morte. Você seguia magro elegante, sem nuances dos oitenta anos. 1,75 m. Os dois olhos tinham cores de noites quentes. Arqueava a coluna como quem precisa enraizar-se no chão. Talvez aí a demora para percebê-lo. Você guardava uma inspiração nasal para cada minuto do seu andar, aprofundava-se em modo introspectivo e voltava a caminhar com o corpo ainda suspenso no presente. E assim parecia prender a vida entre os postes, desnovelando-a, em cada minuto adiante... em direção à Praça das Orquídeas, onde pousava o melhor sol das oito da manhã - como costumava dizer. 

Eu nunca saberia sua idade, se não fosse a necessidade da bengala. Mas agora o que eu preciso lembrar para escrever aqui não é isso. Não era a velhice opaca, que impossibilitava as caminhadas sem a presença da enfermeira antes de não poder mais trafegar até a praça. Não, eu preciso escrever sobre o momento que nos conhecemos e nos reencontramos quase todos os dias, até o início da morte isola-lo aos poucos, e eu precisar vê-lo partir. 

Escrevo aqui para lembrar quando passei a entender o fim da minha solidão sem versos  fraternos por não ter conhecido o meu pai. Porque sempre precisei fazer das comemorações  do segundo domingo de agosto o dia de quem quisesse representar essa presença na minha vida. Então minha mãe, tias, tio-avô, primos das tias revezavam para ir na comemoração da escola, quando se festejava a tal data. E para me livrar da culpa por essa ausência ingrata, dizia aos coleguinhas que papai viajava muito e como a família era grande e todos queriam ter uma filha como eu, a cada ano eu ganhava um pai diferente. E havia em casa até um sorteio para ver quem realmente iria ser o meu pai do ano. Uma atitude democrática, diziam alguns, para tamanha disputa. Invenções infantis para não carregar uma tonelada de sensações hostis à orfandade paterna. 

Afinal, doía não saber o tom da voz, o tipo de cabelo e o tamanho do sorriso quando estava feliz, do meu pai verdadeiro. Até então escondi-me com pais emprestados, e resolvi absolvê-los um por um no mesmo dia em que você me visitou no hospital, depois do atropelamento, bem na sua frente, na manhã do dia 25 de maio de 2009. Eu saía da minha casa para pegar o ônibus na parada da Avenida João Dias, dez metros depois, fui arrastada pela motocicleta que vinha na contramão. O motorista não parou e sendo aquelas primeiras horas o turno pouco habitável do bairro Vale do Paraná, principalmente nas férias do Colégio Central, pensei mesmo que nenhuma ajuda chegaria tão logo, por não tê-lo visto ali, minutos antes. Foi quando ouvi ao longe, embora tão próximo, sua voz nervosa e abafada pela lentidão ao se dirigir até mim. Eu ali estatelada, com os joelhos ensanguentados, entre a dor na cabeça, o flash de realidade do granizo quente me apoiando e a sonolência dos olhos entreabertos, já preparada para um desmaio, senti sua mão no meio da minha testa e apaguei.




26 de julho de 2012

o nó do laço de fita


Todo dia eu lembrava. Lembrava das saudades. Porém, como julgamos ser melhor não falar, pensar e enfrentar, sempre lembrava que não deveria... testemunhar tamanho desamparo. E não sentir mais era um alívio. Porque eu fingia que você realmente não existia, mesmo quando eu pressentia sua ausência. Você não estava presente, eu não lembrava que sentia sua falta e a ciranda das aflições não forjadas pouco prevalecia. Eu lembrava todo dia, e esquecia logo em seguida, como quem deixa a senha bancária na última gaveta da cômoda, só acessada perante emergências (do esquecimento). Então vinha a urgência do consolo, amá-lo era um silêncio bom e calmo ao meu ventre solitário em dias mornos. Depois, já chegavam as noites de verão em boates lotadas, e eu não lembrava se amava-o ou me chocava na verdade com vaidades. Afinal, gostar é trazer em si a vaidade de ter no outro algum respaldo para as nossas poucas soluções caseiras para o som de vinil e vinho tinto que são um par perfeito para dois (o clichê dos clichês). Um desalento em aconchego. E você era o ponto final daquilo que pensei nunca mais achar, quando permiti jogar-me do décimo quinto andar. Pois, não existe meia queda no amor, tem um pulo do auge da vontade de se fazer outro/ a, com o auxílio de um pássaro faminto em pleno voo.

Assim, nenhuma convicção resguardou qualquer garantia pelo fim próximo, os rastros  por onde passamos guardam demarcações em modos poucos ortodoxos para voltarmos ao chão. Tem volta?

(...)

Para a greve das saudades ficamos sem acordos, permanecemos assegurados por uma ingrata inaptidão ao diálogo da paixão. 

(...)

Sobram lembranças.


19 de julho de 2012

santos-salvador

Vou voltar para o meu sertão


Entendo de vôos. E para isso abandonei as velhas manias de somente planar nessas ruas daqui. 


Estava cansada de amar no outono, recolher fragmentos de ilusões no inverno e só acordar no verão de dezembro. Não sou feita de estações, embora a primavera ainda seja o cartão-postal de minha euforia. Voa-se muito quando as flores realmente são flores, coloridas, plumosas, ousadas. Os acasalamentos são perfeitos assim. Procria-se, sexualiza-se o movimento, coreografias instintivas. Não existem lacunas sem desejos. 


Ainda é inverno em SP? Hoje não sei. O telhado em frente à minha janela está totalmente solar. 


Fique claro, um setembro primaveril ainda está distante, mas meu voo já está marcado. 


A Bahia é logo ali.

30 de junho de 2012

carta aberta para o escritor Fábio Mandingo

Salvador, 30 de junho de 2.012.
Querido Mandingo,


Precisei de alguns dias para me recompor depois de acabar a leitura do seu livro "Salvador negro rancor". E o mais interessante, antes mesmo de finalizar, encontrei-o no Gerônimo, e quis contar da minha admiração pela sua escrita literária, mas não consegui. Fiquei nervosa ao ter ali tão perto de mim o escritor com quem dialoguei, nos últimos dias, com quem sofri um bocado, em cada conto, junto aos seus personagens infectados por vidas periféricas e propositalmente arredias.

Por isso, agora escrevo para você.. 

Quando nos encontramos no topo das escadarias do Passo, me vi emocionada - uma fã - diante àquele que deu nomes e cenários para os inúmeros habitantes da capital baiana, renegados pelas inexistentes políticas abolicionistas, até hoje, mas que em "Capitães de areia" (Jorge Amado) são heróis (ou anti-heróis, não importa), mesmo se famintos e desgraçados, um equívoco absurdo. Além disso, com uma ironia sutil, você aponta sobre gringos que tornam bairros inteiros na cidade como suas comunidades alternativas, sem nunca pensar em respeitar a cultura local, a gente nativa, as vidas tantas vezes roubadas por aqui; e toda a história de exploração que já conhecemos. Ou seja, pude vivenciar com os seus personagens as dores que ainda assolam tantos e tantos, todos os dias, de forma cruel.

Moro em Salvador faz quase cinco meses somente, e ao ler o seu livro, percorri agoniada as suas narrativas, foi como acompanhar as gravações de um filme com as cenas que presenciei desde quando aportei por aqui. Afinal, a Bahia do Jorge Amado só contempla uma fatia ínfima personificada na identidade baiana, ideia vendida nos quatro cantos do Brasil. Assim, preciso confessar, pensei que encontraria mais das tardes em Itapoã em SSA, aquelas ditas por Vinicius de Moraes, ou a terra do preto doutor de Dorival Caymmi, não, não foi isso. 

Eu vi mesmo um cordão  negro de gente vigiada por uma alegria não-democrática, enquanto asseguravam o carnaval dos turistas e foliões, do lado de dentro do trio elétrico. Eu vi meninos raquíticos, descalços, sombrios pelo vício do crack, enquanto puxavam sacos de estopa e latas amassadas para trocar por mais uma pedra no fim do expediente da madrugada. Eu vi o cassetete do policial descer uma, duas, três vezes, no meio do São João, no bêbado inoportuno que traga um gosto pequeno de felicidade no arrasta pé da Ribeira. Eu vi muito desespero ladeira abaixo, pelos gritos dos negros soterrados nos caminho íngremes das ruas do Pelourinho ou agora sufocados pelas tintas coloridas das faixadas das casas, enquanto aguarda-se a Copa do Mundo. 


Eu vi e senti essa solidão e desespero de não ter identidade, CEP, pai, mãe, presente ou futuro, de gente que perdeu a vida antes de nascer.

E por mais contraditório que possa parecer, eu também encontrei sujeitos evocados pela persistência da construção na busca de outros percursos através da resistência negra. Tudo isso, graças à mandinga e o axé. Algo que não ensina, nem aprende, porque nasce/ torna-se capoeira, como você tão bem descreve no conto homônimo do livro. E como diz o sambista baiano Martinho da Cuíca: malandragem não é pilantragem. E a malandragem é o terceiro elemento desse resistir sempre à margem. Então mandinga, axé e malandragem são as chaves da resistência; e não é de hoje, mas desde quando precisou-se imprimir na memória, em silêncio e resguardo a dança, música e orações dos pretos vindos do outro lado do Atlântico.

Bom, tenho que dizer que ficou muito difícil terminar essa carta. Agradeço muito por ter conhecido você e toda A Família, como você e Véio costumam dizer. Pois, foi a partir de vocês que pude entender uma maneira de enfrentar as angústias de se reconhecer fruto disso tudo. Eu carrego também as desesperanças dos seus meninos de rua, e luto para continuar a briga, porque não é a rasteira que derruba, e sim a auto-estima degradada pela ideia de não se poder ser sujeito da sua própria história.

Parabéns!

ÊA!

Um abraço,

Dayane






Imagens da série "Cotidiano". Em Salvador. Por Leo Ornelas.

29 de junho de 2012

dos excessos


O ir e vir vertical é de extremo desespero. Tenho abusado deste processo osmótico ao me magnetizar  por campos de emoções pueris, clandestinas, importadas no momento máximo da desilusão. Então deixo escorrer através dos meus dedos qualquer segurança - controle hedonista. Apoio os pés num método ausente de rigor para ganhar descompostura. 


Turva, quase voo.


Encontrei para isso algumas táticas de sobrevivência: boias flutuantes para não afundar, quando preciso subdividir os desejos até que se tornem constelações desconhecidas.


Assim, navego.


Desejos não cartografados ou  não contemplados em experiências reais sempre correm o risco de se perderem nos bastidores. Por isso, antes do ápice estelar, filtro as sensações emolduradas ainda na prévia da não-ilusão, de poder ser ainda um momento de plena emoção, a mesma do otimismo dos utopistas.


Sigo.


E tal desarmonia tem uma cor, vermelha. Não, o vermelho do batom-cereja, usado para convidá-los, rapazes, à sedução pela intimidade labial; não é o vermelho que aborrece o concreto do Morro do Chapéu, quando Elias ou Ivan ganharam duas balas perdidas num acerto de contas entre Fininho e Josias do Beco; não é o mesmo do choro no aborto programado de Sara ou Jussara, na sala improvisada para cirurgias sem acompanhamento médico regular no centro velho de SP; e tampouco o vermelho escarlate da bolsa da Maria C, que passou a cobrar 200 contos por duas horas de práticas sexuais. O vermelho aqui é epitelial. 


Vago.


A minha pele denuncia a matiz avermelhada de tanta desordem, está tomada pela alergia de silenciar os gritos miúdos da inconformidade com cheiro de azedume. Entre pelos e engenhos subcutâneos, guardo poucas soluções para harmonizar tais conflitos íntimos. São táticas sangrentas, entre veias e poros, para continuar sobrevivendo à dúvida do por vir e do vir a ser. 


Sem sonho.


7 de junho de 2012

eu sou neguinha


Estar à deriva determina a falta de circunstâncias favoráveis. Vendi a cama, o fogão e as falsas verdades.  Comprei a minha carta de alforria. Salvador, 10 de fevereiro de 2011. Ah, se os meus irmãos soubessem. Ah, se não fossem os senões. Não vendi o corpo, mas o apanhei em pedaços, depois de cada amor frívolo. A pele escura te seduzia, man? Não queira saber se vai haver depois. É infinitamente imperfeita a sua escola. Eu precisei aprender a resistir, me virar, não me enganar. Suar e comer o prato frio da obediência pontual. Sorria, nós te queremos muito bem, porque nós te amamos. Amava a minha resignação, querida? Quantos sorrisos forçados meus foram necessários para você colocar a cabeça no travesseiro e depois dizer: eu sou bom. Caridade, assistencialismo, cinismo e hipocrisia. Tudo cabe tão bem. Cumpre todo o seu desejo de sempre amar ao outro, mesmo que o outro seja fruto da sua ostentação de sempre ser mais e mais. Mesmo que sejamos pouco iguais. Mesmo que só você seja vip, na cadeira do oportunismo. A sua bolsa ainda combina com o sapato? Bitch, please. Quantas bolsas-famílias faltam para  o sem-teto da Vila das Margaridas chegar até você? Vão levar a sua carteira e os seus anéis. Mas o rapaz é drogado e preto e vagabundo. Tem que morrer? Não, não, você não vai querer entender. Mas eu vou precisar dizer. Dirá que é coisa da minha cabeça, não? Mas quando o seu marido me olha como se eu fosse dona do cabaré ou uma nega de estilo, sou eu que cobiço-o? É o fardo que carrego, filha! É, eu já não tenho casa ou qualquer conhecimento sobre a sua ignorância. A luta sempre foi encoberta. E agora não tenho para onde correr, e não vou atrás da melhor maneira de pertencer, estou à mercê das minhas fragilidades, menos de vocês.


                                      

4 de junho de 2012

ainda há algum tempo

Às vezes, a despedida chega antes da partida

5 horas da manhã. Passou dos lados opostos da cama, sem você notar o quê os entrecortava. De um lado, curvou-se o mais que pode - e quis acordar antes do despertador. Do outro, tentou um abraço seu, mas você não a tocou, nem a protegeu. Ficou ali, encolhida ou suspensa pela espera de vestir-se de outro dia, outras 24horas, outras demandas, mais um passo adiante e muitas tentativas por um aceno distante.

As noites de inverno sempre demoram mais para acabar. São como relógios de parede, enguiçados, em salas de casarões coloniais. Amplas e desabitadas. Sem conforto algum, sentia-se um ponteiro burro, domesticada pela finitude daqueles lençóis dispersos, eram as margens de um rio, os limites do casal.

Então levantaria a qualquer momento, embora buscasse o momento ideal, embora esperasse o espartano som, às 5h45.

(...)

O seu ronco emanava os descompassos territorializados pelas dúvidas e lembranças, pelas conversas que tantas vezes avizinhavam o sono, mas perderam de modo súbito a possibilidade de continuar existir.

Tornaram-se amantes plastificados pela total falta de proximidade atual?

(...)

As chaves ainda estavam do lado de dentro da porta, aguardavam algumas reviravoltas. Seriam cúmplices da  fuga. Já estava tudo armado.

Você sabia.

(...)

Entre levantar-se da cama e ir, não há narração possível. Nestes minutos, desapegou-se do chão, partiu-se em mil caquinhos, pensamentos soltos e nenhuma atenção para o trivial.

(...)

E saiu, não pela última vez, mas até não conseguir voltar nunca mais. Só não sabiam quando. Amanhã, ou depois e depois.

18 de maio de 2012

das ausências

A voz doce não cansa de acenar encanto

Desci correndo pelas escadas. Todos ficaram no andar de cima, acharam que eu retornaria a qualquer momento, mas não olhei pelas costas. Tanto que já não senti mais aquela dor insuportável quando pendia para o norte. Desci degraus pares, para conseguir substituir o olhar pendular de Dona Cristina, lá da cozinha, pela minha certeza ao atravessar o quintal. No chão de barro já havia algumas amoras prontas para serem colhidas, mais adiante o pé de abacate estava coberto dos seus frutos verde-bandeira, amadurecidos também. E lá no fundo da garagem, ouvia Lucas pular do skate, desavisado, caía desajeitado sem saber manobrar seu novo brinquedo. Olhei para a fachada da casa, soltei os meu sapatos perto do portão menor, aquele por onde mamãe recebia as visitas, fui mais adiante. Sorria e corria em passos largos, firmes, clássicos. E logo fui tomada por uma dança, um solo, compassada em notas de um choro. As vizinhas começaram a olhar pela janela, curiosas, interessadas. Não entendiam de onde vinha aquela canção. O meu vestido branco-copo-de-leite, ora flor, ora líquido brando despia-me nas sutilezas de quem se veste para seu orixá às sextas-feira. Segui os espaços menos esburacados da avenida principal. Lá estava. Avoada. Um pouco cansada. Passei pela casa do Jorge. Mais adiante vi Samuel e Lia. Eles não me viram. Adentrei a vila dos pescadores. Caminhei mais cinco minutos. Cheguei no mar e finquei os meus pés já presos na areia, esgotando-me.

A tarde já arriava suas inseguranças de não anoitecer.

Carreguei-me até não conseguir vencer qualquer presságio - eu, marítima - junto ao desejo de meditar o fim de não-estar, de não-ser outrora.

17 de maio de 2012

palavras do orvalho

para Juê




Anotações de um diário clandestino:
Às vezes não dou conta.
Muitas vezes não quero ver.
Outra vezes me dou por satisfeita.

Avenidas,
Gargalhadas,
Máscaras carnavalizadas,
Marcas de um dia de fevereiro.

As encenações não estão postas
- Necessidade de realidade -

Eu, singular?
Eu e a minha fé remota. 
Eu e minha escrita particular, modulada pelo meu amadorismo, pois não sei rimar.
Crise existencial?

Às vezes, remo.
Muitas vezes, afundo.
Outras vezes, me salvo.
Anotações de conclusões literais.

Janelas solitárias. 
Mágoas.
Fantasmas.
(Marcas de um qualquer)

Há uma solitude, necessidade de poesia.

Eu?
Resguardo.
(Afinal...)

___________________


Salvador, Outono ou Inverno?, chove muito, 17 de maio de 2012.





2 de maio de 2012

imagens e letras em trânsito

para Fi, 
minha querida

Eu tenho tanta estrada em meu caminho
E muitas ilusões pra tropeçar
Quem segue a tua luz não vai sozinho
Tem sempre uma estrela pra guiar


Em cada rodoviária, vou até você e volto. Toda vez que preciso partir, quando adentro um ônibus, numa nova estação de embarque, me remeto a você por alguns segundos. E por causa disso, por causa dessa saudade que vai e volta junto às malas dos passageiros, presa à inconstância das vidas num lugar como esse, resolvi construir um diário aéreo. Em cada nova partida, vou até você e volto. Num cartão-postal. Adoro tal tipo de correspondência. Gosto de ficar redesenhando aquela imagem e todos os seus desdobramentos. Em cada um deles, suas fotografias fazem um novo viajante. Ah, se cada turista resolvesse desmontar os olhares fixos dos postais, transformaria sua viagem num novo começo. Viajar é achar um lugar nunca habitado por ninguém. Desconfio sempre das cidades que ainda não fui. É como se não existissem. Até que tenho a oportunidade de aportar por lá e o cartão-postal vira uma das referências e toda a cidade se constrói. Casas, prédios, pessoas, hábitos, comidas e perfumes. Uma mudança de espírito. E então todos fazemos parte da mesma chegada, a minha até ali - mesmo que tudo já morasse naquele cartão remetido, lá na rodoviária para você.

1 de maio de 2012

a poesia do espaço

Cheguei em você assim como quem se atrai pela luz do farol de Itapuã, depois de nadar léguas e léguas... e então avista um repouso em tal novidade praiana, um novo norte. Salvador não seria a mesma se não fosse a sua geografia. Cartografo-me em seu corpo, dimensiono toda a baianidade na nossa ginga, pra depois ganhar as ruas soteropolitanas com passos demarcados mais pela curiosidade de um viandante, menos pela agressão da ocupação de um forasteiro. Percorro toda a orla, da Barra até Piatã ou do Rio Vermelho até Flamengo, sem a pauta de um turista. Fixo-me nesses dias claros, sol a pino e algumas pancadas de chuvas, que nada lembram o outono de Santos e anunciam um inverno ameno. Tudo tem sido sem grandes pretensões, sem a necessidade austera em acolher os seus segredos - porque, sagrados. Meus pés já não são tão SP, e toda a performance atual dos meus quereres estão em SSA. Danço e despeço-me das agruras do paulista marrento, sorrio e sambo como quem sobe o morro e se percebe em paz com os seus, os nossos. É. Estou bem. Você me ensinou a geografia da unidade.


Trecho do filme "Barravento", de Glauber Rocha (1962). Os pescadores de uma comunidade da praia de Buraquinho (Itapuã, Salvador, Bahia) realizam a puxada de rede do xaréu.

16 de abril de 2012

eu, música

                                                                                                                                              Em uma hora não determinada, forjam-se Maria e Eduardo, Sebastião e Tiago, Italo e Monique, Maria e Suzana, todos se trombaram em alguma estação, de rádio FM, ou de trem, e lá havia uma música, só deles, só eles ouviram, pois, só eles guardarão na lembrança dos gestos inéditos a melodia do casal, feita na sintonia sem embaraços, desenhada na partitura construída a partir de então.



8 de abril de 2012

eu, não


Todos perguntam se eu vivi tudo. Tudinho? Nada, não teria tempo para isso, baby. Escrevo em eu's inventados, depois de percorrer avenidas íntimas ou alguma praia habitável. Aprendi que não deveria abusar dos adjetivos. Uma pena, professor! Adjetivos são a parte doce da língua. Só causam diabetes em última instância. I'm so sorry, but... ABUSAREI das adjetivações até segunda ordem, ou seja, até outra estética textual chegar e me levar para outras ideias, sensações e construções literárias. 

Escrevo para não morrer de embolia, para comprar um pão fresquinho de manhã e saber comê-lo e para esquecer as vidas deixadas nas frestas ou vãos dos desencontros. Já me desencontrei de você hoje? Não conheço os meus vizinhos. Eles só aparecem quando batem a porta atrás de si, para apagarem-se em seus cotidianos espalhados em tapetes simétricos à cor da geladeira. Nunca enfrentamos o mesmo corredor - será que nos apaixonaríamos? Teríamos filhos? Ou te odiaria como quem rasga a diplomacia e política da boa vizinhança? Não vejo o seu rosto, stranger. Os seus horários não combinam com os meus. Falta sincronicidade. Sintonia. O raio que o parta. Ou algo assim. 

Porém, não se dê ao luxo por não vê-lo, caríssimo(a). Tanto que eu escolhi não ver mais.

*

Escolhi esquecer aquele adeus, quando o fulano ou beltrano resolveu sair e não se despedir das roupas jogadas no banheiro e das louças empilhadas do último jantar. Fui embora também naquele dia. E vou embora mais um milhão de vezes, enquanto o ponto-e-vírgula  for  maior e as permissões se ocultarem. 

*

Você PERMITE-SE viver, leitor?

Você já olhou a cor dos olhos do seu vizinho? 

*

É domingo aqui. Sinto um cheiro de frango com batatas, haverá um almoço de família no 203? Acho que o meu vizinho está com visitas em casa, ouço crianças extra-habituais correndo em cima da minha cabeça. Dia dos encontros forjados? Eu não sei me fantasiar de filha, neta, prima. E fico matutando como seria a persona de todas elas. E de tais papéis sociais vão se construindo imagens, personagens, vidas para além de nós. Então adjetivos são criados, juntos com palavras substanciadas por sentimentos orgânicos.  Em resumo, cumpro a minha sentença com todos os meus eu's. Das ausências, dos desencontros, excomungo-me. E enraízo outra esquina, porque as quinas nas ruas são pontos comuns (mas pouco ocupados) - VOCÊ estará lá, me espera?

*

Eu não sei me desencontrar, sei mentir e inventar. A minha escrita é sua? A gente pode sair por aí mais tarde. Todos os cafés, praças públicas ou botecos poderão nos receber. Chegue mais. Avizinhe-se. EU estarei lá, ou não, my dear.


*


Para ouvir lendo. Experimenta!

Sheila Take a Bow

Is it wrong to want to live on your own?
No, it's not wrong - but I must know
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Is it wrong not to always be glad?
No, it's not wrong - but I must add
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Take my hand and off we stride
You're a girl and I'm a boy
Take my hand and off we stride
I'm a girl and you're a boy

Sheila take a, Sheila take a bow
Throw your homework onto the fire
Come out and find the one that you love
Come out and find the one you love

3 de abril de 2012

nossa bicicleta oceânica

releitura do texto:



Para Noelle e Pietro


                               Um casal e suas bicicletas. Uma praia.
                                                    E um registro cinematográfico.

Márcio, olho adiante e deixo a maresia, esse vento praiano, as cores do mar ao fundo nos espiando. Somos protagonistas deste seu filme, olha lá, as crianças brincam e correm de um lado para o outro. 
Outros namorados caminham soltos, mas agora somente seus olhos registram este capítulo dos encontros amorosos da humanidade inteira.
Somos um trecho de tantas histórias que já existiram, acontece em nós, e surgirá para outros casais.
O amor não para, ele não espera. 
Dentro de nosso passeio de horas vivas e que se alargam a cada segundo a frente, num progresso calmo, de onde você me vê, e porque me vê, sim, percebe meus cabelos despenteados, e meu rosto tão seu, bonito para os seus olhos, assim, Márcio, vou sendo vista por você para sempre neste filme, para todas as gerações futuras que procurarão alguma verdade na nossa união, no nosso pacto destas horas eternas.

22 de março de 2012

novos ares ou declaração de amizade ou saudade

Aos meus queridos, com carinho

Quem partiu vai em partes para toda parte e se debate com as partes trazidas, daqueles guardados na margem da despedida* 

Acordei madura de ideias. Tive vontade de escrever e-mails, cartas e posts novos no blog. A minha amiga Jan escreveu de Jundiaí: Lua Nova em Áries, tempos novos, hora de colocar a criatividade e a intuição para funcionar. Gostei! Gostei tanto que mudei a cara do meu blog. Mudei as cores e o formato. Isso de mudar os "apetrechos" sempre funciona comigo. Só nunca tive coragem de mudar a cor do cabelo. Mas quando mudo a cor das unhas e do batom sempre trazem resultado. Parece que ficamos visíveis, de alguma maneira. Os amigos notam, alguns transeuntes soltam elogios pitorescos e a vontade de viver toma um jeito especial - mesmo que seja por algumas horas.

E falando em mudanças, hoje faz um mês e dez dias que estou morando em Salvador. De repente, mudei de cidade e de paradigmas. Tenho me erguido de uma forma diferente, quando levanto do sono pela manhã. É como se Salvador sempre tivesse sido minha casa, mesmo eu nunca tendo colocado os pés nela. Ando por suas ruas e avenidas e me reconheço. Olho para o azul-sem-fim do mar e vejo um horizonte promissor. Não sei ainda qual é o meu Orixá, porém, já concebo a existência deles. Caminho pelo centro histórico, mais precisamente pelo Pelourinho e tenho a sensação de ter vivido ali em algum momento - deve ser a presença dos meus ancestrais?

Ainda não consigo descrever o que é realmente morar na Bahia. Sei dessas impressões e do quanto hoje retomei desejos ou paixões sinceras. Muitas vezes nos tornamos prisioneiros de verdades ingratas e colocar o pé na estrada faz lembrar que o mundo gira e é necessário se deslocar. Eu sempre tive essa sensação, mas algo me prendia na minha terra natal. Foram vinte e nove anos e alguns meses, um punhado de amigos e  segredos literais escondidos nas ruas e canais de Santos. Mas hoje sinto que cumpri a missão por lá. Hoje quero mesmo é ser uma cidadã do mundo. Sem lenço e sem documento, como cantou Caetano? Sei lá! Mais mesmo com uma identidade em constante transformação. 

Poxa, lógico que sinto saudades, muitas saudades, dos meus amigos e familiares. Boas conversas numa mesa de bar na Rua do Comércio, tragos de cigarro na praça do Gonzaga ou horas a fio de dias caiçaras não se constroem de qualquer jeito. Quando se é filho de migrantes, sua família passa a ser seus amigos. E os meus amigos são minha família, é fato. São meus irmãos, meus companheiros para qualquer lugar aonde eu for a partir de agora. Os nossos destinos já foram cruzados. Meus filhos vão ter muitos padrinhos. Às vezes passeio por uma praia de Salvador e ao caminhar nas areias daqui, fico parafraseando Gonçalves Dias em sua Canção do exílio ("Os pássaros que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá"). A praia daqui não me leva para o mesmo mar de lá - brinco em sentimentos saudosos. 

Ao mesmo tempo, não sou exilada da minha terra, vivo em Salvador por uma opção, por uma busca pelas minhas raízes afro-brasileiras, pelo reconhecimento dos meus entes nordestinos, por um novo jeito de ser mais brasileira, menos paulista. E aí vejo que está tudo bem. Em breve, a Maria vem me visitar, e depois vem a Raquel, e vou escrevendo cartas, mandando torpedos àqueles que estão longe - e perto -, quando preciso matar as ausências. Hoje queria preparar uma festa para receber todo mundo no final de semana, vocês viriam?

Hoje acordei com ideias mirabolantes...

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*sms para o meu amigo Nego :D

14 de março de 2012

da primeira manhã de um casal

'eu faço samba e amor até mais tarde'
(Chico Buarque)


A chaleira vermelha dava pequenos estalos. Eu preparava nosso primeiro café da manhã. Pão de sal ou cuscuz, você não sabia escolher. Enquanto a água esfumaçava a tampa de vidro do fogão, dizendo que o pó de café poderia ser coado, olhei para você e você sorriu - sentado em pouso na entrada da cozinha. Três segundos depois disse que queria mesmo pão. E a chaleira fazia o grito das primeiras horas de todas as manhãs, senão vibrasse esta tão concatenada, derramando-se pela familiaridade ao redor. E você sorriu pela terceira vez. E eu já não sabia se sorria de mim ou para mim, se queria mesmo pão com café ou leite e cuscuz. Então continuou a me espiar, a fotografar os meus gestos enquanto eu levava a água fervente até o coador branco - observava para saber se me concentrava mesmo para além de nós? Entre os minúsculos grãos de café se liquefazendo e a vontade de desistir do desjejum, fui buscando aquilo que nos trouxe até aqui. Era o quê? A praia, o samba ou as leituras no sarau no Pelourinho? Foram tantas cervejas e acarajés antes de você estar na cozinha de casa, foram flertes pouco encorajados e piadas 'bonitinhas' pela espontaneidade de me ver falar coisas pouco embaraçosas, porque eu tinha medo de mentir. O aroma cafeinado se instalava no reajunte dos azulejos, então você veio sorrateiramente, com menos risos, puxou um abraço, sem sugerir, indicou que poderíamos ir para o quarto e deitar mais alguma melodia outra vez.

O café ficaria para depois.