27 de dezembro de 2011

das setes ondas

Esse ano está indo e junto dele vai também um montão de promessas cumpridas. Cumpri os desejos jogados ao mar em 1 de janeiro de 2011. Pedi lá um tanto de coisas para Iemanjá. Pulei as sete ondas. E aos passos dados para trás, naquela primeira madrugada do ano, enquanto recuava e orava por um ano prestigiado por emoções, percebia o horizonte oceânico e sonhava, um futuro, com flores, espinhos e jardins.


E assim foi, conheci tanta gente. Ganhei novos amigos e principalmente andei lado a lado com os velhos parceiros, gente que não me abandona nunca, e eu não os largo jamais.


Vivi experiências incríveis. E trabalhei muito, na ideias e nos projetos-sem-fim.


Agora o ano está terminando mais uma vez. Está na hora de contar mais sete ondas, mais sete desejos. Mas o que eu gostaria mesmo  é poder  decolar com todos as sementes plantadas neste 2011. Dar sustância para todas elas, assim como quem devota-se às rosas polinizadoras. Porque a metáfora do jardim cabe mesmo aqui.


Do cuide do seu jardim e todo resto se desvela. Aconteceu comigo. O olhar horizonte do mar-floricultor condiz. Mar profundo e vida aprofundada em lírios e emoções gratuitas, complexas, vividas.

Obrigada, aos deuses e aos meus queridos.

10 de dezembro de 2011

sem pares (necessidade urgente VI)

"Eu pensei em deixar você
Me livrar da dor e voar"
(Entre a união e a saudade, Mombojó)


Seguia a pressa de chegar. Mas sentia-se puxada para trás. Era um pêndulo. Uma gangorra. Dos pensamentos, das lembranças do Fábio, dos cinco anos juntos, da briga, do UFC, do apartamento inabitável, da separação, da briga, ia em passos sem ritmo. E continuava. Andava para chegar logo. Do lado direito, enquanto caminhava carregada pelo desespero, o trânsito não seguia seu fluxo normal na avenida.  Os carros começavam a diminuir a velocidade, quanto mais Alê aproximava-se do Paternon. Apertava a bolsa de crochê amarela entre o braço esquerdo e a parte lateral do corpo, apoiada no ombro. E a cada passo o concreto asfalto abria-se, Alê afundava-se, mas seguia resistente, em chutes no ar, dispersando poeiras, sujeiras e odores microscópicos no caminho travado ao longo das cinco quadras da Avenida Araújo de Medeiros.

Sem olhar muito para os lados, permanecia calada, sequer balbuciava um daqueles sons quando uma tempestade de angústia nos toma. Nada disso. Só os carros ameaçavam sua mudez. As buzinas tiravam sua concentração. Afinal, o que estava acontecendo por ali? Era meio-dia e pouco, e o que justificaria aquela lentidão toda dos automóveis? Perturbada pelo barulho que começava a ampliar o tempo escandaloso de penetração em seus pensamentos traiçoeiros, afastou o objetivo que a levava correr tanto. Por alguns poucos minutos, esqueceu do Fábio, da fome, da carteira de motorista no despachante, da briga, do Fábio. Os carros não paravam de buzinar, cada vez mais. 

E passou a notar as pessoas que vinham em sua direção. Algumas falavam sozinhas. Todas com passos curtos. Alê não conseguia dar mais passos distantes. Os passantes que vinham em sua direção encenavam um cortejo? Seu objetivo era chegar no Paternon, andar mais dez metros, dobrar a esquina do Bar do Esaú e subir para o apartamento deles, no Majestic. E foi afundando os pés passo a passo. E esquecia e lembrava onde queria mesmo chegar. Então, desacelerou de uma só vez, enquanto os rostos esverdeados das pessoas se chocavam com o dela, enquanto o trânsito tornou-se insuportável com os gritos e ecos das buzinas, e logo, os de sirenes também. 

Já menos de uma quadra antes de chegar até o Paternon, não só os carros engarrafados, mas também as pessoas paralisadas pelo ambiente sufocante na Avenida Araújo de Medeiros tornaram inviável continuar dali. E foi parando. Parando. Aproximou-se de uma banca de jornal, a cinco metros do Paternon e perguntou:
- Por favor, senhor, o que está acontecendo? Está tudo parado.
- Pois é, moça... foi um acidente. Ou melhor, uma tragédia. É, uma tragédia. Uma moça caiu lá de cima do prédio novo. Imagina para quem é família dela. Coitados. Uma dor muito grande, deve ser. 
- Do Paternon?
- Isso. Isso mesmo. Disseram que era novinha. Uma moça nova. Pulou. Ou sei lá. Caiu. Se jogou.
- Ô gente. - Sem agradecer a informação, Alê virou as costas para o rapaz da banca e deu mais alguns passos em direção ao Paternon. 

Mas não enxergava mais nada. Uma pequena multidão pipocava, próximo do prédio que orientava-a.  Pensava no Fábio. E pensava na queda da pessoa suicida. Sentia o estômago doer, travar de vez. Esquecia o grande propósito, até. Mais adiante, seus olhos molhados notavam a muvuca. Duas ambulâncias, carro de polícia, trânsito parado. Então seu corpo foi criando tensão para recuar. As pernas voltaram a ficar agitadas e trêmulas. A pressão caiu. Sentou na guia da calçada, uma rua antes do Paternon. Já não poderia prosseguir. O que fazia mesmo ali? Juntou a bolsa no colo, entre as pernas, e olhava para toda aquela paralisia generalizada e enxergava todos numa mesma sintonia. A menina morta, os automóveis impacientes e todas as pessoas que vinham  daquelas bandas, ausentes de coragem, presas no vão da morte alheia. 



Este texto faz parte de uma ciranda literária com o Wilson Franco: errancias.wordpress.com.
Para acompanhar essa narrativa vale ler os seguintes links:
1) Abrir-se-vos-á
2) 
Do Majestic ao Paternon
3) Paternon
4) Do Majestic a queda
Vale a pena acompanhar... 
E a ciranda continua...

21 de novembro de 2011

somos todos andarilhos

       Ao Flavio,  
que deu luz à minha andança 
  
fez-se direção, da necessidade da pausa

Entre ir e ficar, sempre sigo e não quero voltar para o mesmo lugar. 
E o chão presente torna-se lembrança distante, porque desdobrou-se impulso aos calcanhares dos meus pés, rumo ao horizonte.

Entre ir e ficar, nunca esquecer a ebulição na transformação diária. Seja nos cabelos naturais que se descolorem pouco a pouco, quando termina mais um dia; seja ao vivenciar novas dimensões de um pensamento para alguma descoberta.

Entre ir e ficar, torna-se habitat natural qualquer lugar no mundo.
Mas faz-se necessário este lugar qualquer residir num lar, com paredes e chão sólidos.
Sem isso, aos moradores das ruas ou de suas anti-casas: viadutos, bancos de praça, roubaram-lhes a liberdade de ir e vir, partir ou ficar.

Entre ir e ficar, todos migram, nem todos com as mesmas condições, todos se deslocam, alguns mais, outros por caminhadas rastejantes, mas todos partimos, todos os dias.
E àqueles que acolhem nas mãos unidas em conchas alguma utopia, quando aposentarem os pés, (talvez) identifique nos seus passos rastros de poesia.




Para quê serve a utopia? (Por Eduardo Galeano)

17 de novembro de 2011

pausa da necessidade urgente

Fragmentos de silêncios
ou silêncios entrecortados de palavras soltas 

Quando a gente não sabe o que dizer, é melhor calar-se?

Calada fico, nessa necessidade urgente de viver e desabrigar o meu desassossego.

Ando pouco inspirada, mas longe disso ser ruim.  


Ando presa num destes estados de embriaguez atemporal... sem por quê, quando e como.

"(...) ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome 
Nos meninos que têm fome"

Ando refazendo a arquitetura do meus desejos. Acho que por isso, ando mais introspectiva do que nunca.  

Ando sobrevoando por meio de anotações fugazes das histórias que preciso construir.

Ando mudando o meu chão. Tenho refeito os trilhos que preciso seguir, não mais por um caminho de prazeres fugidios. 

Ando todos os dias um longo intervalo, entre um afazer e a constatação de uma nova ideia...

Ando me desarmando para o olhar alheio e aos meus medos...

Ando tão silenciosa, que até as teclas que acompanham as palavras escritas neste texto já me chamam atenção e dão o sinal de que preciso calar, mais uma vez.


(Me dá licença, vou logo ali...)

"Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar..."

(Citações: 1 - Esquadros, Adriana Calcanhotto. 2 - Preciso me encontrar, Cartola)

5 de novembro de 2011

necessidade urgente V (ou Paternon)

A bolsa de tricô debruçava-se no seu colo. E a coluna semi-arqueada segurava todos os problemas dos últimos dias. Não parava de lembrar da briga com o Fábio, do anúncio da separação, da multa na carteira de habilitação, da fome, do Fábio.

Sentou nas mesas da calçada, no restaurante Otelo na Avenida Araújo Medeiros, algumas quadras do burburinho do centro.

Desde segunda-feira, nada descia direito. Estava com a boca do estômago sem espaço, com uma abertura menor que a de um funil, nada passava.

Mas não podia esquecer. Precisava buscar os documentos do carro no despachante, para depois decidir como faria com a mudança e o quase fim de namoro.

Duas semanas fora da cidade e na volta, viu sua vida estatelar-se, sucumbir ao desconhecido. Sem lugar para morar, carro guinchado - por causa do imbecil do quase-ex-namorado - e todos os planos se dissolvendo, mesmo já sabendo que ele sempre foi assim - insolúvel? SporTV e UFC. Na maioria da vezes, na maioria do tempo, os programas prediletos dele. E quando estavam juntos era diferente. Mais por obrigação? Ela sabia. Testemunhou a desordem da vida dele, na sua ausência: a bagunça do apartamento, com a dor que era vê-lo jogado como se fosse um  personagem do Bukowski, sem perspectivas, preso às noites etílicas e desgraçadas. 

Então, acomodada na cadeira mais próxima da rua, chamou o garçom e pediu o cardápio. E a bolsa ali, presa entre as pernas, como quem vai sair correndo a qualquer instante. Talvez por perceber um possível incômodo da  cliente, enquanto aguardava escolher, o atendente gentilmente perguntou:
- A senhorita não quer colocar a bolsa na cadeira ao lado?
- Não, não... está tudo bem... obrigada! - respondeu em seguida, com uma voz rouca, ligeira e baixa.

Olhou a lista dos pratos do dia, no cardápio. Pediu o primeiro do lado direito da lista, salada, contra-filé, arroz, feijão e batata frita. Sem muita conversa,  fez seu pedido:
- Pode ser esse moço, esse aqui do lado direito, PF, por favor.
- Ok, senhorita. Mais alguma coisa? Vai beber algo?
- Por enquanto, nada. Obrigada. Estou bem, estou bem. Obrigada.
A voz balbuciava o pedido, desejava logo a ausência do funcionário, queria mesmo era ficar sozinha.

E com a bolsa entre as coxas, balançava os pés, cruzados embaixo da mesa. Sentia pequenas alterações da circulação do sangue, uma espécie de formigamento? Resolveu respirar fundo três vezes, na quarta vez, sentiu o tamanho da fome. Desde segunda-feira, meu Deus, desde segunda-feira, só consigo chorar - entrecortava seus pensamentos - namorar um imbecil por tanto tempo, meu Deus - e seus pensamentos fugiam e voltavam por seus olhos esbugalhados, atrás do óculos escuro, na inconstância do corpo fraco.

Entre uma resmungada e outra, em forma de soluço para si, abaixou a cabeça e enxergou dentro da bolsa o pacote amarelo, que embalava o presente do futuro-ex-namorado. Lá estava o boné com o logo do Tolima. Havia comprado na loja de conveniências do aeroporto. Sabia que ele ia gostar. Apertou a bolsa para não lembrar, para não chorar. E as pernas começaram a formigar de novo. Balançava os pés nos sapatos como quem poderia tomar impulso e desaparecer, ou como se pudesse decolar como um helicóptero ao contrário. Os cotovelos batiam na cintura, de leve, num sinal de que o corpo inteiro expandia-se na cadeira. Era quase meio-dia, o sol a pino, a saliva seca e o coração sintonizado com as batidas dos pés, um no outro, embaixo da mesa, sem ritmo, cada vez mais rápido. Foi tentando respirar, um, inspira, expira, dois, inspira, expira, do mesmo jeito que aprendeu nos exercícios de meditação. Inspirava. Expirava. Vai, Alê. Inspira e expira. Olhou mais uma vez para a bolsa, quase afundando pelo assento, via o pacote amarelo e buscava um jeito de não buscar o nome dele. Mas naquele instante já apareciam todas as letras F Á B I O. Puxou mais ar e como quem prevê o horizonte, enxergou o prédio Paternon, o mais novo empreendimento imobiliário da região, no final da Avenida Araújo Medeiros. Duas quadras do quase-ex-apartamento deles. Lá estava, Paternon e a presença do Fábio aos arredores. Foi subindo os olhos, a cabeça, o pescoço e enxergou a bandeira do Brasil, que flamejava e deslizava no ar, do 35° andar. 

Será que já estava acordado?  

Olhava para o topo do Paternon, e a bandeira abarcava o sol quente e o vento. Na mesma agitação sua, enxergava o Paternon craquelar-se, num piscar de olhos, a bandeira não flamejava mais, empalidecera. Já era meio-dia? Parecia haver uma escuridão ali. Vai chover? - achava que sim. E foi trazendo os olhos de volta para o meio das pernas, para a bolsa entreaberta - com o pacote amarelo. Sentiu um aperto daqueles igual saudade, igual a tristeza das ausências, das rupturas, das separações. Inspira e expira. Inspira. Expira. Desconexa de qualquer sensação de realidade, esmagou a bolsa no colo, e trouxe o rosto para frente, já sendo observada pelo garçom com a bandeja em sua direção:
- Moça, seu almoço está aqui. A senhorita quer mais alguma coisa?
- Não, obrigada.
Falou num tom só. E continuou, sem qualquer simpatia:
- Por favor, quanto é esse prato? Não vou comer, não. Toma aqui, pega o troco pra você. Tenho que encontrar o Fábio. Obrigada. Mas preciso ver o Fábio agora mesmo.
Disse tudo de uma vez, vomitando angústias e renúncias, medos e irrealidades.

Saiu da mesa com a bolsa aberta, e o garçom perplexo, estático com os pratos nas mãos.

Em passos largos, desdobrava-se para enfrentar aquela longa avenida em direção ao Paternon. Pernas trêmulas, precisava encontrá-lo, de qualquer maneira.

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)


Este texto nasce paralelo ao conto do Wilson Franco: "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/


4 de novembro de 2011

necessidade urgente IV

Alê, seu atual estado civil é quase-solteira. Você acabou de sair da casa do seu namorado, talvez para não voltar mais. Não aguenta mais conviver na bagunça daquele apartamento, das roupas espalhadas pelo banheiro, panelas sujas de feijão, junto com o pirex de macarrão de domingo na pia; e mais, todos os copos e canecas espalhados pela casa inteira. E tudo isso porque você esteve fora da cidade, por duas semanas, o suficiente para seu quase-ex-namorado desajeitar qualquer chance de convívio entre vocês. Porque quando estão juntos, suas regras são seguidas, e você fica lá, ou ficava, sem agressões verbais, por gostar muito dele, você explicava a ordem das coisas, numa espécie de mãe-namorada ou namorada-mãe. Uma série de negativas, Alê. E você resolveu ir embora. Ele não saberá ficar sem você, ele sabe disso. Por um tempo, algumas longas semanas, tudo vai desabar. Porque é isso, você vira as costas e ele desaba. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Estes serão seus novos companheiros. Cuecas usadas embaixo da cama, meias que fedem igual panos de chão encardidos, resto de creme dental pregado pela torneira, o desastre masculino de um quase-solteiro. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Até quando, Alê? E você aí, ainda pensando se fez a coisa certa, não é? Todo cotidiano dele preso em vacilos. Quando cairá em si - você e ele - ?

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

Alê é uma personagem que já tinha nome, mas não tinha passado nem futuro. 
Porém, por coincidência, depois de ler um texto do Wilson Franco, com um personagem de mesmo nome, Alê surgiu.
Mas sabe o que é mais interessante?
A Alê do Will está num conto dele inspirado num outro texto meu (Abrir-se-vos-á).
Aqui ó, "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/

Uma verdadeira ciranda literária!


2 de novembro de 2011

necessidade urgente III

e vou formulando os seus sentidos como quem decifra o segredo de se libertar
Alê Mathias, nem sei bem qual é o seu sexo.
com este nome você poderia ser hetero, travesti, gay, qualquer orientação sexual caberia. será?
então, vou deslizando por palavras na tentativa de me aproximar da sua existência e me sinto como quem transa pela primeira vez. é isso. você é meu personagem e eu tenho todo o seu corpo nas minhas mãos. 
só preciso aprender a despir você.
saber o seu tempo, entre colocar os pés para fora da cama até entrar debaixo do chuveiro para o primeiro banho do dia.
como você faz para cortar os pães, começa de uma ponta para outra, ou somente pelo meio? você come frutas? 

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

31 de outubro de 2011

necessidade urgente II

e agora bato os dedos nas teclas e farejo seu corpo, suas vestimentas, a cor dos seus olhos pela manhã, seu jeito de dormir em noites de ventania, sua maneira de falar ao telefone, a voz mansa para dar tchau, a ausência de simpatia, e vou te construindo como quem tece a própria vida, já tenho um nome para você, Alê Mathias.

necessidade urgente I (*)

começar pelo meio, logo, não pelas beiradas, mas pelo recheio, das camadas mais profundas, de onde não se vê os lados, ou as periferias, lá de onde o vulto entorpece a razão e significa solução, poderia ser das entranhas, ou do âmago, ou do estômago poético, do miolo, longe dos extremos, construir sua vida sem vírgulas, 
personagem da narrativa que ainda não sei habitar. 

(*)  necessidade urgente é a narrativa vivenciada do meu meio, da minha metade afogada em silêncios não banais.

25 de outubro de 2011

abrir-se-vos-a

Abriu os braços para pular.
Do trigésimo e quinto andar.
Do alto do seus vinte e um anos.
Abriu os braços para descer ao chão.
Braços abertos para acolher a gravidade na queda.
Lá do alto.
Seu corpo esquálido, sua boca amarga e seus pés soltos.
Para o pulo.
Desfazer-se em carne viva no asfalto.
Os passantes ainda não a enxergavam.
Por fração de segundos, ninguém a esqueceria.
Nunca mais.
As buzinas já começavam a soar.
Entre o asfalto e o alto do Edíficio Partenon, planaria?
E depois da queda, sossego?
Veio o impulso.
Do alto do despero, não apoiou-se mais nos pés.
A atmosfera desembaraçava-se, enquanto ela caía.
Descontínuo solo.
Corpo espaçado, corpo mutilado.
Ao sol do meio-dia, SP, 29 de abril de 2008.

19 de outubro de 2011

eu literário

queria ser
micro conto
lírica
e encanto

mas não sei
só penso
atenta
não descanso

meu eu é filósofo?
eu, contradição.

18 de outubro de 2011

passa em casa, tem bolo

tem chá
tem café
tem almofadas pelo chão
tem cheiro de doce de framboesa
tem o Murilinho correndo pela sala
tem as cortinas avoadas
tem o sol marcando sombra nas plantas
tem a Lila escondida no vãozinho do ármario do corredor
tem meus abraços
tem colo da vó
tem uma gargalhada na espreita por uma história nova sua
tem a espera
com café
com chá
com o chão coberto de almofadas
com bolo recheado de doce de framboesa
com o Murilinho aos pulos
com o vento nas plantas
com a Lila de olhos arregalados por um carinho
com a vó nos observando de tão feliz
com o meu gosto pelos seus causos
com a vontade de vê-lo aqui
em casa,
vem logo, tem bolo!

puento ciego (IV)

Dois tiros. Pá Pá.

.
.

Enquanto limpava o sangue da roupa e corria, sua sombra perseguia-o.

16 de outubro de 2011

uma nota só ou duas irmãs


ouvi o canto da Mônica Salmaso ao seu lado e no outro dia sonhei com você. 
e você também sonhou comigo. 
a cantora nos viu lá do palco, como almas irmãs de canto de líricas de vidas artísticas? 
nossos sonhos cruzaram os destinos.


será que quando sonhamos com alguém nos transportamos para perto da pessoa? 
será que pulamos ruas, canais, desviamos de tudo e por fim, nos juntamos numa realidade só?


(ornar nossos sonhos e possibilidades e depois fazer do plano real um espaço lírico como um palco)


(encontrar uma sintonia de canto e sopro, igual a Mônica e seu marido, ela orquestra-o no olhar, ele segue a voz dela, amantes do mesmo cortejo)


(viver a música e a voz e o silêncio num espaço lúdico para um público e depois se vestir de dias e dia a dia)



dee dee minha irmã menininha, os sonhos equilibram as emoções não contidas? 
no meu sonho você já era uma mulher.
e no seu? quem sou?
por acaso nos encontramos no meio da cidade entre palavras e tintas e gritos familiares e silêncios serenos, da prece que não falaremos jamais?


quando esquecermos o passado, ainda seremos uma melodia só, de sangue e sonhos.



10 de outubro de 2011

professor Carlos

Como pode alguém nos modificar tanto, em tão poucas horas, só pelo coração?

Eu já pressentia a mudança. 
E você chegou até mim e me abençoou com palavras de verdade.
Eu que sempre busquei, a verdade das palavras, a verdade do olhar, a verdade do caminho.
Um dia me pediram para deixar de ideias fixas, sobre as verdades.
Fiquei quatro anos na graduação de Filosofia, e nunca consegui entendê-las.
É bem verdade que comecei a desistir.
O tapete da traição me foi tirado.
Fiquei lá, estática, com olhos melancólicos e quase sem pulso.
E tive que aprender a fazer as malas, mudar o rumo.
Mesmo com algumas verdades no bolso.
Os homens são perversos.
As cidades são desertas.
E a vida não acaba porque você perdeu seu chão.
As crianças continuam crescendo.
Os pais não desistem de cuidar de seus filhos.
Porque o mundo ganha sentidos em novos encontros, mesmo que a gente não perceba de verdade.
E todo sonho perdido volta de fantasia nova.
Transforma chão áspero em verdade flutuante.
Depois daquele 8 de outubro, tomei minhas verdades de novo para mim.
Não a verdade do Aristóteles, Nietzsche ou de algum trapaceiro de plantão, mas a verdade da crença do suor nas mãos, cheio de construção atual.
Verdade mesmo é poder olhar nos olhos e piscar no segundo seguinte para guardar o amor.
Tem verdade na gratidão!
Obrigada.





sonâmbula virtual

tem alguém aí?


Você já dorme. Eu, não.
Meu corpo não reluta pela novidade.
Vou devagarzinho na busca de novas palavras, novas conversas e você, caiu no sono, dorme. A luta com a insônia resulta em conseguirmos fechar os olhos. E você, dorme. Enquanto minhas células seguem seus ciclos, mas na promessa de um novo frenesi, nas horas antes do meu sono noturno; você, dorme.
Contei uma teoria, antes de você dormir, contei sobre a minha lei sobre amar. Você dormiu. Não quis ou aguentou ouvir até o final. Ah, Meu Deus. Teorias que dão sono estão mortas de vida?
Eu sei, eu sei. Palavras não podem ser bambas, muito menos no amor, só nas composições dos grandes mestres sambistas. É, não posso me dar esse luxo, de palavras malemolentes. Tenho que ficar alerta. Viu? Você dorme.
Azar meu. Faço barulhos com as teclas do computador. Como quem não quer saber de nada mesmo.
Dorme aê.
Gostaria de terminar isso aqui, como quem acorda e desperta e acha uma surpresa, um outro desfecho para o destino.
Não durma mais antes de mim, por favor. Tenho pesadelos, acordada, quando durmo sem você.

25 de setembro de 2011

puento ciego (III)

Olhou para mim com olhos de cereja. Não titubeou em nenhum segundo. E continuou a me olhar, como quem ganha um presente surpresa. Não entendia se olhava mesmo. Mas olhava.
E logo uma avenida nos alargava. 
O seu olhar fixou-se, preso no meu varal de desejos imunes. 
Então passei a sentar na mesma cadeira do restaurante da Araújo Medeiros, nas mesas da calçada, onde nos percebemos pela primeira e única vez. 
Nos outros dias, aguardava ansiosa sua passagem por ali, enquanto almoçava. 
Queria pedir informações suas. Será que alguém por ali saberia da sua rotina?
Passei a pensar num anúncio no jornal da cidade. 
Nenhuma informação precisa.
Somente aquele olhar delicado como seus passos, que ficaram para trás. Porque não tive a sua rapidez, para responder e mostrar-me nos meus olhos.

22 de setembro de 2011

uma pequena vida

(para homens de natureza morta)




lorenzo na sua meia-idade,
meio vira-lata,
mais ou menos triste,
com meia barriga de chopp,
nunca conseguiu fazer algo por inteiro.

hoje é um homem metade viril,
a outra metade broxa.

19 de setembro de 2011

minha hermana

risca espaços inabitados

grava destinos sem saídas


humaniza seu corpo,

com órgãos


rastreia um grito presente

ou amores imaculados


não tem horizontes


somente telas e cores frutíferas


vivencia sua arte

parida


até que se torna uma bolha:

cansada.



17 de setembro de 2011

decupagem

No primeiro semestre deste ano, fiz uma oficina literária, ministrada pelo escritor Marcelino Freire
Foi um momento bastante especial, descobri o quanto escrever é importante para mim. Ganhei coragem para encarar a escrita e seus meandros. E de lá pra cá, ando pegando o boi pelo chifre. Escrevo e leio mais e mais, para um dia dar um rumo, um norte para o meu interesse pela Literatura. 
E no curso escrevi um texto chamado Decupagem, que tinha o tema: uma grande saudade. Daí, tal texto teve uma boa repercussão, do Marcelino e das pessoas que ouviram a minha leitura. 
Assim, ganhou um sentido tão interessante, que tive a ideia de transformá-lo num curta-metragem.
E esses dias, o destino colocou uma garota bastante sensível para essas coisas, de vida, amor e existência, no meu caminho. A Noelle é diretora do curta A janela poética, que acabou de participar do Curta Santos - Festival de curta-metragem de Santos.
Apresentei o texto e pedi para ver se via ali um filme.
Dito e feito, comprou a ideia. Em breve, acho que Decupagem vai ganhar vida cinematográfica.
Então, para os meus amigos leitores acompanharem, deixo-o aqui.
Mas além disso, publico também (logo abaixo) uma leitura dela, linda por sinal, para o futuro filme - tomara!

Decupagem


0:02/ 2:46

Meus cabelos ganham movimentos como marolas.

*

É o começo do vídeo, Márcio e eu, indo até a Biquinha. Estamos no ônibus 08: Ponta da Praia/ São Vicente – orla da praia.

*

Domingo de outono. Poderia ser mais um domingo. Ou um outono daqueles quando todos estão em queda simples, para tempos reclusos.

0:10/ 2:46

Márcio maneja a câmera e brinca com as ondas que terminam na direção do meu cachecol. O trajeto era o mesmo de todos os dias, mas estávamos desfigurados em quadros sem galeria.

*

Eu ia sentada do lado da janela.

*

Ali, naquela cena, lembrava me sentir como o desconhecido de um livro novo.

0:25/ 2:46

Todos os detalhes são capturados. Desde o mar pela janela até o zumbido do vento que corta sem direção as covinhas do meu sorriso.

*

Juntos há três meses, o programa daquele dia foi um fim de tarde para onde ele se referia como o melhor lugar da cidade. Nada mais clichê para o romantismo, íamos ver o pôr-do-sol.

*

Guardava uma ansiedade controlada. Desconfiava se era capaz de medir a verdade sobre nós.

1:15/ 2:46

Meu rosto segue paralelo à linha da orla da praia. As lentes seguem aquilo que não enxergo ao longe.

*

Estamos sentados na fileira do lado esquerdo, nos bancos mais altos. Aqueles disputados por crianças, que sabem ver dali idas e vindas de carros e transeuntes.

*
Sem volta, a cumplicidade demarcava um lugar para nós dois, dois em um.

1:58/ 2:46

Olho para você. De novo, meus cabelos em descompasso se desalinham com o branco e azul do mar ao norte. Márcio filma quase tudo.

*

A praia está vazia. E as pessoas circulam pelo calçadão. Guarda-se a calma da estação dos poetas que decidem adiar o suicídio. É impossível desejar morrer no outono.
*

Não sabia mais zelar meus gestos, todos eram para mantê-lo perto de mim. Sentia cada batida do meu coração como a cuíca de uma roda de samba. Minha devoção pelo nosso namoro era a mentira de quem não sabia nada sobre amar.

2:22/ 2:46

Volto os meus olhos para a janela, na direção do nosso destino. Márcio flagra um silêncio passivo.

*

O mundo torna-se plateia e cenário, meros figurantes.

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Estava rendida. Já não havia possibilidades para não amá-lo.

2:46/ 2:46

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Saudade do amor involuntário.

Day  Rodrigues
maio/ 2011


"saudade do amor involuntário"

a disposição é uma coisa que acontece delicada. quase me pega pelo colo, no balanço deste barco no asfalto, no dispensar de toda preocupação. tenho márcio em meus olhos, mesmo que ele tenha posto o rosto a me olhar e só. engraçadas são as coisas de agora. a tudo que é eternizado, é engraçado, parece lhe cair sobre certa seriedade. "saudade do amor involuntário", foi assim que decidi chamá-lo. agora, sentada,  já não posso decidir quase nada. pois que márcio me torna paisagem, sorriso, completude.  


há pouco pensei em dizer para que descêssemos daqui, que pulássemos pela janela, que rolássemos pela areia. precisava tocar-lhe, sentir dele o cheiro real de sua presença. ao mesmo tempo, sua observação caía doce sobre mim, como parte de tudo, como anjo sem asas, me fazendo sentar outra vez. eram essas as duas naturezas. márcio, você me vê. eu era vista. eu era sua imagem de hoje. e hoje, para mim, tem o seu balançar de braços a me seguir.


acontece que agora, quando assisto a mim, minha falta se sincronicidade me irrita. mas eu sei que ele conseguiu capturar minha forma mais pura, mais simples de mim, minha agitação, talvez. minha urgência de viver.

Noelle Falchi

"eu que não sei quase nada do mar"

Para Bri


eu nunca soube muito de barcos. 
desde muito cedo, ouvia seus apitos nas manhãs da minha infância. navios que saíam do porto, atravessavam a Ponta da Praia, onde eu morava, e partiam para lugares distantes de mim. 
meu pai sabe. é um portuário nato. trabalha no ramo há mais de trinta anos. 
eu, não. sei do zumbido. do zuuuuu. do adeus em silêncio.
eu também nunca conheci um marinheiro contador de causos. e muito menos pratiquei surf. 
mas sei do cheiro da maresia. sinto-a quando coloco os pés na rua, quando saio de casa. porque morar na praia tem dessas peculiaridades. cheiro de mar/ sal abraça-o diariamente.
a minha paisagem rotineira, quando residia num dos extremos de Santos e precisava me deslocar pela cidade, era a orla inteira. só pra mim. sentava no banco mais alto do ônibus e olhava para o infinito, como quem faz uma prece para começar a labuta. 
hoje, fiz um barquinho tatuado no braço, é vermelho escarlate. marca um momento especial, de rupturas, e fecha um ciclo. talvez, o retorno de saturno, segundo a leis dos astros. diz de mergulhos. e de um amigo vidrado em barcos de papel.
diz do meu amor e o mar.
eu que não sei nada do mar. 
nem de amar.





"Eu que não sei nada do mar", por Maria Bethânia

14 de setembro de 2011

sem entrelinhas

Frente da cinemateca francesa - por Bryan Faustino
Palavras são bambas. 
São carniceiras ou mães possessivas.
Palavras não têm cor.
Estão livres de cotas.
Palavras escapam da lama dos mendigos.
Palavras vivem em bordéis e sacristias.
Nunca estão sozinhas.
Vendem a vida por outra palavra.
Palavras não saem pela culatra. 
Têm passado e futuro.
Palavras carregam fome.
São aprendizes de outras palavras.

Palavras se aborrecem.
São polidas, se bem atendidas.
Não têm identidade, nem raízes únicas.
Brotam do soluço dos loucos.
Palavras não têm ideologia.
Palavras ficam firmes, quando empacotadas em bibliotecas.
Não reclamam salários, nem pensão ou fundo de garantia.
Mas palavras não se adaptam.
Perdem a compostura.
Palavras dançam.

Todas as minhas palavras estão aqui
de trás pra frente
de lado,
esquerda,
direita,
para você me enxergar -
nua.


*Post escrito depois de assistir o curta-metragem A janela poética, e ouvir a diretora no debate, após a sessão do filme, perguntar para a plateia: por que você se entrega?; e lembrar as janelas das quais já me debrucei e todas aquelas espelhadas nos meus desejos, que não cessam a busca por outros saltos e novas entregas...

12 de setembro de 2011

puento ciego (II)

Sobrava ausência.
Entre sorrir e labutar, nunca tomou nenhuma decisão.
Ameaçou,
fuga.
Atravessou noites pueris.
E continuou...
para além do suicídio:
guardou-se
entre vão e abismo.

10 de setembro de 2011

puento ciego (I)

Assim, não. 
Não consigo enxergar até aí. 
Deste modo, não.  
Não aos jogos morais, meu senhor. 
Mais uma vez, digo, deste modo, não. 
Sim, há uma senha para o motim. 
E você vai ver, nunca será declarada. 
Não, deste modo, não. 
Lá, lá mesmo 
Não se vê. 
Ninguém vai ver. 
A verdade vai falhar. 
Prepare-se!

Sempre...

30 de agosto de 2011

a procura do rio Paraná

Para Deus Netuno


do contra, atravesso mar adentro


ilha por ilha


só por contravenção




histérica, e sem choro


dia a dia


só pra não não me violar




batizo-me






mas nunca ganho um cais


.
.
.


Ps 1.: Um mergulhador me contou, o rio Paraná é mais profundo que o mar.

Ps2.: Disse também uma amiga, pra aqueles que não conseguem aportar, resta amar. A-mar.

15 de agosto de 2011

a minha vida pesa uma tonelada

falta bem pouco. falta pouco mesmo. será daqui quinze dias, quase. é. meu aniversário. nunca penso muito nisso. fazer mais um ano, aumentar as primaveras, como dizem os avós. nunca penso porque sempre tive juventude a mais, e problemas de menos com a idade. 


ter vinte e poucos anos não é chato. na verdade, é tão suportável quanto a (inexistente) preocupação com uma festa no final de semana. pois, pense, se você tem uma festa pra ir, num sábado à noite, a última coisa a se imaginar é o tempo que vai durar, quando sabe que vai encontrar pessoas legais, biritas e muita música.


mas hoje acordei estranha. pensei no número 29. e lembrei de toda a minha agenda, até o sábado do dia 27 de agosto. muita coisa. não cabe na palma da mão, não cabe na organização pouco sistemática do meu cérebro. porque no fundo da verdade, queria mesmo era jogar tudo pra cima e sair correndo, não como quem vira as costas, mais mesmo pra alivia-la, do peso da responsabilidade.


ontem no almoço da família, pela primeira vez, meu pai não sentou na cabeceira da mesa. sentamos, minha irmã e eu, uma em cada ponta. o pai já não faz questão daquele lugar. e aprontei o prato principal. liguei para o irmão que está distante para saber as novidades. discuti com a minha mãe as questões previdenciárias atuais e dei dicas para a vizinha, que não sabe o que fazer com a filha pequena e danada. fiquei me sentindo a conselheira de um clube.


notei: minha opinião é importante para aqueles que já foram referência de vida ou morte - até - para mim. parece que cada vez mais serei chamada de tia pelas novas gerações. e todos os meus compromissos são meus, desde cuidar da saúde até decidir se vou embora pra bem longe ou chuto o rei.


não, isso não começou ontem. mas hoje bateu diferente. deve ser o inferno astral, um problema hormonal desconhecido ou a vontade de viver mais com menos. 


tá bom, amanhã é terça-feira e já será tarde para pensar tanto.
e respiro fundo  para não esquecer de nada, nem de mim.

7 de agosto de 2011

sujeito oculto

Vende-se
Aluga-se
Procura-se
Se desespera.
Pede-se
Cala-se




E lá se vai outro dia do mês de agosto, longo e ao gosto do se.


Vai-se


Pendura-se 
no varal 
roupas maltrapilhas 
cheias de Omo.


Se não fosse agora o cheiro dele ausente ali.

17 de julho de 2011

free fra fra free

Eu poderia continuar sendo a mesma. Mais uma semana, mais uma segunda-feira qualquer. Sete horas da manhã, café, banho, leitura rápida das manchetes do jornal impresso, bom dia, padeiro, olá, como vai, moça da floricultura. Cotidiano assim e pronto, para todos os outros dias daquela primeira semana de julho. 

Mas de repente, não mais que de repente, atravessam em direção à livraria onde trabalho, no final do meu expediente, estrangeiros e vidas musicais distantes do Atlântico, a banda holandesa Fra Fra Sound. Somos apresentados pela minha amiga. Nos aproximamos, digo, Hi, my name is Dayane e só. Tento, How are you. But... Meu inglês trava. Sem diálogos, não me culpo pela ausência de comunicação. No portuguese, no english, ok ok for us. Era o que tínhamos para ontem.

Terça-feira, depois quarta... quinta-feira... e as barreiras das línguas vão se tornando menores. Vou na apresentação da banda e um susto, a identificação imediata, danço e interajo por aquele som peculiar, universal. As travas se perdem pela linguagem do movimento em torno da música. No english, no portuguese, fuck off. Se você se liberta, você dança, você expressa para o outro, que poderá entendê-lo profundamente.

Estrangeiros estão abertos, sensíveis para as novidades, minha amiga. Sim, em uma semana também virei estrangeira na minha cidade, no meu bairro. Acompanhei a comoção etérea dos artistas que aportaram perto da minha realidade. E o diferente para eles, as pessoas, os costumes, os canais, as ruas, mais o conhecido por mim, Avenida Ana Costa, Bar Torto, Bar Galeria e a Livraria Realejo, juntaram-se num espaço só.

Tudo igual, aqui, e tudo chacoalhado ao longo dos dias, para todos.

Ouvi mais das músicas da banda em mais um show. Depois, fiquei por perto só para ouvir as conversas, das quais não compreendia, mas imaginava porque meu inglês não é tão ruim. Entre uma palavra e outra, entre o vocabulário desconhecido e aquele que ressurgia da minha memória, ganhamos pequenas intimidades.

Então chegou a hora da despedida e me dei conta, mais ainda: ganhei liberdade dentro dos meus dias, dentro da cidade que conheço tão bem e por isso me sufoca tanto. Me permiti ser-estrangeira, me permiti brincar com o idioma alheio, mesmo sem certezas do que estava falando. Vesti um espírito de quem transgride as próprias condições diárias, a mesma praça, o mesmo trajeto, tornando-os distantes, líricos... (dentro de mim, dentro da minha Santos).

O mar já não era só horizonte, a serra não só um caminho de partidas...

Viajei sem passaporte, encontrei novas direções para os próximos meses.

Thanks, Fra Fra Sound. Saudades!

20 de junho de 2011

(da posse do verbo ter)

Tenho escrito pra poucos. Tenho pensado tanto, que tanto faz, se é dia ou noite. Tenho descoberto palavras. Sim, querido, tenho anotado todas. Tenho sentido vergonha da paixão. Tenho feito muitas exceções. Tenho sonhado com uma casa na praia cheia de filhos e amigos. Tenho fabulado romances. Tenho poucos meses pra começar o fim na minha aldeia. Tenho abolido o passado. Tenho amado mais ainda as pessoas que me acompanham todos os dias, mesmo na distância: Santos X  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Piauí, Berlim. Tenho guardado lágrimas por trás da maquiagem. Tenho preservado o escândalo de não conseguir me controlar e entender. Tenho me aproximado de rapazes tímidos, incapazes de me seduzir só por uma noite, porque querem mais do meu sorriso. Tenho vendido esperanças a prazo. Tenho saído do útero do mar e olhado para o amanhã que nunca tarda em chegar. Tenho pisado pouco no chão. Tenho virado balão.
Tenho notado toda constelação perdida em noites bem dormidas.

16 de junho de 2011

desanuviada

Tiro mais café e deixo dissolver toda minha enxaqueca no fundo do copo.
Mais três cigarros, uma tragada, uma fungada.
Xícaras guardam borras de café que mais parecem segredos improdutivos.
Ao acordar leio o meu horóscopo. E leio a borra do café. Só que tudo isso não compromete a minha rotina.
O meu humor é bom se consigo dizer 'bom dia, dia', mesmo em silêncio.
O inverno está chegando.
Tenho confessado todas as minhas mentiras. Mentirinhas só pra mim.

Tiro mais café e deixo dissolver todo o meu nervosismo. Sinto dor no estômago.
Outro cigarro. Não sinto mais cheiro, doutor.
Decido também por uma breja em copos tipo requeijão, cheio de boêmia. 
Quando está perto do meu aniversário, acho que está na hora de fazer um mapa astral. Mas nunca fiz. Tenho medo de saber tudo.
Ando mal humorada pra cacete. Deve ser a falta do que falar.
O inverno é daqui cinco dias.
Quero escrever um livro de mentiras bem contadas.

.

Só café, cigarro, cerveja e literatura me salvam pros próximos anos...

9 de abril de 2011

recado para B.

"Pode-se matar tudo, menos a nostalgia, que levamos na cor dos nossos olhos (...)"
(Cortázar, em Jogo da Amarelinha)

De um cartão postal, da amiga do B., direto de Paris, me remeti ao que muito não fazia: mandar cartas ou deixar bilhetes escondidos. Está aí um gesto que sempre apreciei. Só que de uns tempos pra cá, fui deixando isso de lado, assim mesmo, no gerúndio. Mas confesso que sinto falta da doação sem cobrar nada. Porque é isso, sentimentos em guardanapos ou papéis cortados da última folha do caderno têm custo zero, a existência daquele que recebe vale para quem dá.

B. recebeu o postal da amiga e de lá pra cá, só penso em enviar uma carta ou cartão. Preguiçosa de carteirinha, quase presidenta do clube dos "deixa a vida me levar", fico sujeita a abandonar a ideia de mandar um: alô, alô, estou em Santos, é outono, meu amigo, já até comecei a tirar alguns casacos do armário pra lavar, quase faz frio; e você, como está? Em meia dúzia de palavras um encontro à distância, breve surpresa para quem está longe.

Então, comecei a pensar que mais de uma pessoa poderia receber o meu cartão, carta ou qualquer agrado em grafia minha. Ôxe, se sofro pra passar por todas as etapas (rascunhar o afeto, ir aos Correios etc) e mandar uma só carta para uma pessoa, imagina duas, três. Lembro que hoje não vai dar tempo e me afundo na pré-disposição. Segunda-feira, farei com certeza, juro pra mim.  Só não me dou por satisfeita, com a embromação.

Olho para o lado, vejo o cartão da amiga do B., penso na Ci, lá em Berlim, na minha prima do Piauí. Tá bom, hoje é sábado, sem falta, depois de amanhã. Prometo, de novo, sem jurar.

Paro de pensar no que estou adiando, pego um post-it. Colo na geladeira, escrevo assim: B., hoje, fazemos um ano de casa. Eu te amo!

E venço a primeira fase de palavras não remetidas.

Ps.: B. é o Bryan, para quem conhece.
Bryan é um dos grandes responsáveis pelas minhas palavras neste blog e outras que andam surgindo por aí.
Pois, todos os dias, me ensina algo diferente, que me enche os olhos de poesia.