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18 de maio de 2012

das ausências

A voz doce não cansa de acenar encanto

Desci correndo pelas escadas. Todos ficaram no andar de cima, acharam que eu retornaria a qualquer momento, mas não olhei pelas costas. Tanto que já não senti mais aquela dor insuportável quando pendia para o norte. Desci degraus pares, para conseguir substituir o olhar pendular de Dona Cristina, lá da cozinha, pela minha certeza ao atravessar o quintal. No chão de barro já havia algumas amoras prontas para serem colhidas, mais adiante o pé de abacate estava coberto dos seus frutos verde-bandeira, amadurecidos também. E lá no fundo da garagem, ouvia Lucas pular do skate, desavisado, caía desajeitado sem saber manobrar seu novo brinquedo. Olhei para a fachada da casa, soltei os meu sapatos perto do portão menor, aquele por onde mamãe recebia as visitas, fui mais adiante. Sorria e corria em passos largos, firmes, clássicos. E logo fui tomada por uma dança, um solo, compassada em notas de um choro. As vizinhas começaram a olhar pela janela, curiosas, interessadas. Não entendiam de onde vinha aquela canção. O meu vestido branco-copo-de-leite, ora flor, ora líquido brando despia-me nas sutilezas de quem se veste para seu orixá às sextas-feira. Segui os espaços menos esburacados da avenida principal. Lá estava. Avoada. Um pouco cansada. Passei pela casa do Jorge. Mais adiante vi Samuel e Lia. Eles não me viram. Adentrei a vila dos pescadores. Caminhei mais cinco minutos. Cheguei no mar e finquei os meus pés já presos na areia, esgotando-me.

A tarde já arriava suas inseguranças de não anoitecer.

Carreguei-me até não conseguir vencer qualquer presságio - eu, marítima - junto ao desejo de meditar o fim de não-estar, de não-ser outrora.

2 de maio de 2012

imagens e letras em trânsito

para Fi, 
minha querida

Eu tenho tanta estrada em meu caminho
E muitas ilusões pra tropeçar
Quem segue a tua luz não vai sozinho
Tem sempre uma estrela pra guiar


Em cada rodoviária, vou até você e volto. Toda vez que preciso partir, quando adentro um ônibus, numa nova estação de embarque, me remeto a você por alguns segundos. E por causa disso, por causa dessa saudade que vai e volta junto às malas dos passageiros, presa à inconstância das vidas num lugar como esse, resolvi construir um diário aéreo. Em cada nova partida, vou até você e volto. Num cartão-postal. Adoro tal tipo de correspondência. Gosto de ficar redesenhando aquela imagem e todos os seus desdobramentos. Em cada um deles, suas fotografias fazem um novo viajante. Ah, se cada turista resolvesse desmontar os olhares fixos dos postais, transformaria sua viagem num novo começo. Viajar é achar um lugar nunca habitado por ninguém. Desconfio sempre das cidades que ainda não fui. É como se não existissem. Até que tenho a oportunidade de aportar por lá e o cartão-postal vira uma das referências e toda a cidade se constrói. Casas, prédios, pessoas, hábitos, comidas e perfumes. Uma mudança de espírito. E então todos fazemos parte da mesma chegada, a minha até ali - mesmo que tudo já morasse naquele cartão remetido, lá na rodoviária para você.

1 de maio de 2012

a poesia do espaço

Cheguei em você assim como quem se atrai pela luz do farol de Itapuã, depois de nadar léguas e léguas... e então avista um repouso em tal novidade praiana, um novo norte. Salvador não seria a mesma se não fosse a sua geografia. Cartografo-me em seu corpo, dimensiono toda a baianidade na nossa ginga, pra depois ganhar as ruas soteropolitanas com passos demarcados mais pela curiosidade de um viandante, menos pela agressão da ocupação de um forasteiro. Percorro toda a orla, da Barra até Piatã ou do Rio Vermelho até Flamengo, sem a pauta de um turista. Fixo-me nesses dias claros, sol a pino e algumas pancadas de chuvas, que nada lembram o outono de Santos e anunciam um inverno ameno. Tudo tem sido sem grandes pretensões, sem a necessidade austera em acolher os seus segredos - porque, sagrados. Meus pés já não são tão SP, e toda a performance atual dos meus quereres estão em SSA. Danço e despeço-me das agruras do paulista marrento, sorrio e sambo como quem sobe o morro e se percebe em paz com os seus, os nossos. É. Estou bem. Você me ensinou a geografia da unidade.


Trecho do filme "Barravento", de Glauber Rocha (1962). Os pescadores de uma comunidade da praia de Buraquinho (Itapuã, Salvador, Bahia) realizam a puxada de rede do xaréu.

22 de março de 2012

novos ares ou declaração de amizade ou saudade

Aos meus queridos, com carinho

Quem partiu vai em partes para toda parte e se debate com as partes trazidas, daqueles guardados na margem da despedida* 

Acordei madura de ideias. Tive vontade de escrever e-mails, cartas e posts novos no blog. A minha amiga Jan escreveu de Jundiaí: Lua Nova em Áries, tempos novos, hora de colocar a criatividade e a intuição para funcionar. Gostei! Gostei tanto que mudei a cara do meu blog. Mudei as cores e o formato. Isso de mudar os "apetrechos" sempre funciona comigo. Só nunca tive coragem de mudar a cor do cabelo. Mas quando mudo a cor das unhas e do batom sempre trazem resultado. Parece que ficamos visíveis, de alguma maneira. Os amigos notam, alguns transeuntes soltam elogios pitorescos e a vontade de viver toma um jeito especial - mesmo que seja por algumas horas.

E falando em mudanças, hoje faz um mês e dez dias que estou morando em Salvador. De repente, mudei de cidade e de paradigmas. Tenho me erguido de uma forma diferente, quando levanto do sono pela manhã. É como se Salvador sempre tivesse sido minha casa, mesmo eu nunca tendo colocado os pés nela. Ando por suas ruas e avenidas e me reconheço. Olho para o azul-sem-fim do mar e vejo um horizonte promissor. Não sei ainda qual é o meu Orixá, porém, já concebo a existência deles. Caminho pelo centro histórico, mais precisamente pelo Pelourinho e tenho a sensação de ter vivido ali em algum momento - deve ser a presença dos meus ancestrais?

Ainda não consigo descrever o que é realmente morar na Bahia. Sei dessas impressões e do quanto hoje retomei desejos ou paixões sinceras. Muitas vezes nos tornamos prisioneiros de verdades ingratas e colocar o pé na estrada faz lembrar que o mundo gira e é necessário se deslocar. Eu sempre tive essa sensação, mas algo me prendia na minha terra natal. Foram vinte e nove anos e alguns meses, um punhado de amigos e  segredos literais escondidos nas ruas e canais de Santos. Mas hoje sinto que cumpri a missão por lá. Hoje quero mesmo é ser uma cidadã do mundo. Sem lenço e sem documento, como cantou Caetano? Sei lá! Mais mesmo com uma identidade em constante transformação. 

Poxa, lógico que sinto saudades, muitas saudades, dos meus amigos e familiares. Boas conversas numa mesa de bar na Rua do Comércio, tragos de cigarro na praça do Gonzaga ou horas a fio de dias caiçaras não se constroem de qualquer jeito. Quando se é filho de migrantes, sua família passa a ser seus amigos. E os meus amigos são minha família, é fato. São meus irmãos, meus companheiros para qualquer lugar aonde eu for a partir de agora. Os nossos destinos já foram cruzados. Meus filhos vão ter muitos padrinhos. Às vezes passeio por uma praia de Salvador e ao caminhar nas areias daqui, fico parafraseando Gonçalves Dias em sua Canção do exílio ("Os pássaros que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá"). A praia daqui não me leva para o mesmo mar de lá - brinco em sentimentos saudosos. 

Ao mesmo tempo, não sou exilada da minha terra, vivo em Salvador por uma opção, por uma busca pelas minhas raízes afro-brasileiras, pelo reconhecimento dos meus entes nordestinos, por um novo jeito de ser mais brasileira, menos paulista. E aí vejo que está tudo bem. Em breve, a Maria vem me visitar, e depois vem a Raquel, e vou escrevendo cartas, mandando torpedos àqueles que estão longe - e perto -, quando preciso matar as ausências. Hoje queria preparar uma festa para receber todo mundo no final de semana, vocês viriam?

Hoje acordei com ideias mirabolantes...

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*sms para o meu amigo Nego :D

14 de março de 2012

da primeira manhã de um casal

'eu faço samba e amor até mais tarde'
(Chico Buarque)


A chaleira vermelha dava pequenos estalos. Eu preparava nosso primeiro café da manhã. Pão de sal ou cuscuz, você não sabia escolher. Enquanto a água esfumaçava a tampa de vidro do fogão, dizendo que o pó de café poderia ser coado, olhei para você e você sorriu - sentado em pouso na entrada da cozinha. Três segundos depois disse que queria mesmo pão. E a chaleira fazia o grito das primeiras horas de todas as manhãs, senão vibrasse esta tão concatenada, derramando-se pela familiaridade ao redor. E você sorriu pela terceira vez. E eu já não sabia se sorria de mim ou para mim, se queria mesmo pão com café ou leite e cuscuz. Então continuou a me espiar, a fotografar os meus gestos enquanto eu levava a água fervente até o coador branco - observava para saber se me concentrava mesmo para além de nós? Entre os minúsculos grãos de café se liquefazendo e a vontade de desistir do desjejum, fui buscando aquilo que nos trouxe até aqui. Era o quê? A praia, o samba ou as leituras no sarau no Pelourinho? Foram tantas cervejas e acarajés antes de você estar na cozinha de casa, foram flertes pouco encorajados e piadas 'bonitinhas' pela espontaneidade de me ver falar coisas pouco embaraçosas, porque eu tinha medo de mentir. O aroma cafeinado se instalava no reajunte dos azulejos, então você veio sorrateiramente, com menos risos, puxou um abraço, sem sugerir, indicou que poderíamos ir para o quarto e deitar mais alguma melodia outra vez.

O café ficaria para depois.

6 de março de 2012

meus dias inquietantes na Bahia

Papel em branco, poderia ser o título deste post. Porém, decidi por algo escancarado: meus dias inquietantes na Bahia. É. Hoje faz quase um mês. O que parece muito mais. Às vezes tenho a impressão de ter passado um ano, já. Porque a Bahia me abraçou, me engoliu, igual aquelas paixões avassaladoras. E o que é mais interessante é o gosto da mudança - é fazer-se estrangeiro, mesmo falando português, mesmo tudo isso sendo Brasil. O diferente aqui é poder respirar a forte presença de ancestralidade africana, de cultos populares ainda respeitados por muitos. No domingo fui numa roda de capoeira angolana, e quase entrei em transe, com a roda e seus corpos dançarinos em golpes leves, deslizantes em chão de pedra e  dotados de espírito sagaz. Estávamos em plena praça pública e todos paravam para olhar, aquele jogo, cantado, suado, ao som da percussão, das vozes e do berimbau. Ali entendi o meu presente, e todo meu estado de euforia. A Bahia me abraçou, depois deu um sacode e pediu para eu ficar. Tornei-me um papel em branco, assim. Se todo escritor vive a liberdade e a solidão ao começar suas histórias, confesso: Salvador é uma festa e eu preciso me escrever nela/ dela/ com ela... e deixar escapar o silêncio do começo, até o fim.



11 de fevereiro de 2012

da perspectiva de quem vai

quando o táxi arrancou, nos despedimos em quereres conflitantes, e você segurou-se no levante do impulso do soluço, e seus olhos marejaram, e eu olhei pela janela, dentro do carro, te deixando presa num quadro concreto, de carne e osso. quando fui me vendo partir, e ir, vi como é ficar, e como é querer ir, e já fui, já estou, longe de casa, da praia, dos canais, dos meus melhores e piores anos na Santos que sempre será minha referência, meu colo amigo e briga familiar. quando a ficha caiu, quando senti um calor solar e um vento baiano nos cabelos, não segurei a emoção, porque os meus olhos presos naquela cena de você me amar e me deixar ir é a extensão do nosso cordão umbilical e a ruptura das raízes paulistas - por ora?

Bahia, 11 de fevereiro de 2012.

27 de dezembro de 2011

das setes ondas

Esse ano está indo e junto dele vai também um montão de promessas cumpridas. Cumpri os desejos jogados ao mar em 1 de janeiro de 2011. Pedi lá um tanto de coisas para Iemanjá. Pulei as sete ondas. E aos passos dados para trás, naquela primeira madrugada do ano, enquanto recuava e orava por um ano prestigiado por emoções, percebia o horizonte oceânico e sonhava, um futuro, com flores, espinhos e jardins.


E assim foi, conheci tanta gente. Ganhei novos amigos e principalmente andei lado a lado com os velhos parceiros, gente que não me abandona nunca, e eu não os largo jamais.


Vivi experiências incríveis. E trabalhei muito, na ideias e nos projetos-sem-fim.


Agora o ano está terminando mais uma vez. Está na hora de contar mais sete ondas, mais sete desejos. Mas o que eu gostaria mesmo  é poder  decolar com todos as sementes plantadas neste 2011. Dar sustância para todas elas, assim como quem devota-se às rosas polinizadoras. Porque a metáfora do jardim cabe mesmo aqui.


Do cuide do seu jardim e todo resto se desvela. Aconteceu comigo. O olhar horizonte do mar-floricultor condiz. Mar profundo e vida aprofundada em lírios e emoções gratuitas, complexas, vividas.

Obrigada, aos deuses e aos meus queridos.

16 de outubro de 2011

uma nota só ou duas irmãs


ouvi o canto da Mônica Salmaso ao seu lado e no outro dia sonhei com você. 
e você também sonhou comigo. 
a cantora nos viu lá do palco, como almas irmãs de canto de líricas de vidas artísticas? 
nossos sonhos cruzaram os destinos.


será que quando sonhamos com alguém nos transportamos para perto da pessoa? 
será que pulamos ruas, canais, desviamos de tudo e por fim, nos juntamos numa realidade só?


(ornar nossos sonhos e possibilidades e depois fazer do plano real um espaço lírico como um palco)


(encontrar uma sintonia de canto e sopro, igual a Mônica e seu marido, ela orquestra-o no olhar, ele segue a voz dela, amantes do mesmo cortejo)


(viver a música e a voz e o silêncio num espaço lúdico para um público e depois se vestir de dias e dia a dia)



dee dee minha irmã menininha, os sonhos equilibram as emoções não contidas? 
no meu sonho você já era uma mulher.
e no seu? quem sou?
por acaso nos encontramos no meio da cidade entre palavras e tintas e gritos familiares e silêncios serenos, da prece que não falaremos jamais?


quando esquecermos o passado, ainda seremos uma melodia só, de sangue e sonhos.



10 de outubro de 2011

professor Carlos

Como pode alguém nos modificar tanto, em tão poucas horas, só pelo coração?

Eu já pressentia a mudança. 
E você chegou até mim e me abençoou com palavras de verdade.
Eu que sempre busquei, a verdade das palavras, a verdade do olhar, a verdade do caminho.
Um dia me pediram para deixar de ideias fixas, sobre as verdades.
Fiquei quatro anos na graduação de Filosofia, e nunca consegui entendê-las.
É bem verdade que comecei a desistir.
O tapete da traição me foi tirado.
Fiquei lá, estática, com olhos melancólicos e quase sem pulso.
E tive que aprender a fazer as malas, mudar o rumo.
Mesmo com algumas verdades no bolso.
Os homens são perversos.
As cidades são desertas.
E a vida não acaba porque você perdeu seu chão.
As crianças continuam crescendo.
Os pais não desistem de cuidar de seus filhos.
Porque o mundo ganha sentidos em novos encontros, mesmo que a gente não perceba de verdade.
E todo sonho perdido volta de fantasia nova.
Transforma chão áspero em verdade flutuante.
Depois daquele 8 de outubro, tomei minhas verdades de novo para mim.
Não a verdade do Aristóteles, Nietzsche ou de algum trapaceiro de plantão, mas a verdade da crença do suor nas mãos, cheio de construção atual.
Verdade mesmo é poder olhar nos olhos e piscar no segundo seguinte para guardar o amor.
Tem verdade na gratidão!
Obrigada.





17 de setembro de 2011

"eu que não sei quase nada do mar"

Para Bri


eu nunca soube muito de barcos. 
desde muito cedo, ouvia seus apitos nas manhãs da minha infância. navios que saíam do porto, atravessavam a Ponta da Praia, onde eu morava, e partiam para lugares distantes de mim. 
meu pai sabe. é um portuário nato. trabalha no ramo há mais de trinta anos. 
eu, não. sei do zumbido. do zuuuuu. do adeus em silêncio.
eu também nunca conheci um marinheiro contador de causos. e muito menos pratiquei surf. 
mas sei do cheiro da maresia. sinto-a quando coloco os pés na rua, quando saio de casa. porque morar na praia tem dessas peculiaridades. cheiro de mar/ sal abraça-o diariamente.
a minha paisagem rotineira, quando residia num dos extremos de Santos e precisava me deslocar pela cidade, era a orla inteira. só pra mim. sentava no banco mais alto do ônibus e olhava para o infinito, como quem faz uma prece para começar a labuta. 
hoje, fiz um barquinho tatuado no braço, é vermelho escarlate. marca um momento especial, de rupturas, e fecha um ciclo. talvez, o retorno de saturno, segundo a leis dos astros. diz de mergulhos. e de um amigo vidrado em barcos de papel.
diz do meu amor e o mar.
eu que não sei nada do mar. 
nem de amar.





"Eu que não sei nada do mar", por Maria Bethânia

15 de agosto de 2011

a minha vida pesa uma tonelada

falta bem pouco. falta pouco mesmo. será daqui quinze dias, quase. é. meu aniversário. nunca penso muito nisso. fazer mais um ano, aumentar as primaveras, como dizem os avós. nunca penso porque sempre tive juventude a mais, e problemas de menos com a idade. 


ter vinte e poucos anos não é chato. na verdade, é tão suportável quanto a (inexistente) preocupação com uma festa no final de semana. pois, pense, se você tem uma festa pra ir, num sábado à noite, a última coisa a se imaginar é o tempo que vai durar, quando sabe que vai encontrar pessoas legais, biritas e muita música.


mas hoje acordei estranha. pensei no número 29. e lembrei de toda a minha agenda, até o sábado do dia 27 de agosto. muita coisa. não cabe na palma da mão, não cabe na organização pouco sistemática do meu cérebro. porque no fundo da verdade, queria mesmo era jogar tudo pra cima e sair correndo, não como quem vira as costas, mais mesmo pra alivia-la, do peso da responsabilidade.


ontem no almoço da família, pela primeira vez, meu pai não sentou na cabeceira da mesa. sentamos, minha irmã e eu, uma em cada ponta. o pai já não faz questão daquele lugar. e aprontei o prato principal. liguei para o irmão que está distante para saber as novidades. discuti com a minha mãe as questões previdenciárias atuais e dei dicas para a vizinha, que não sabe o que fazer com a filha pequena e danada. fiquei me sentindo a conselheira de um clube.


notei: minha opinião é importante para aqueles que já foram referência de vida ou morte - até - para mim. parece que cada vez mais serei chamada de tia pelas novas gerações. e todos os meus compromissos são meus, desde cuidar da saúde até decidir se vou embora pra bem longe ou chuto o rei.


não, isso não começou ontem. mas hoje bateu diferente. deve ser o inferno astral, um problema hormonal desconhecido ou a vontade de viver mais com menos. 


tá bom, amanhã é terça-feira e já será tarde para pensar tanto.
e respiro fundo  para não esquecer de nada, nem de mim.

17 de julho de 2011

free fra fra free

Eu poderia continuar sendo a mesma. Mais uma semana, mais uma segunda-feira qualquer. Sete horas da manhã, café, banho, leitura rápida das manchetes do jornal impresso, bom dia, padeiro, olá, como vai, moça da floricultura. Cotidiano assim e pronto, para todos os outros dias daquela primeira semana de julho. 

Mas de repente, não mais que de repente, atravessam em direção à livraria onde trabalho, no final do meu expediente, estrangeiros e vidas musicais distantes do Atlântico, a banda holandesa Fra Fra Sound. Somos apresentados pela minha amiga. Nos aproximamos, digo, Hi, my name is Dayane e só. Tento, How are you. But... Meu inglês trava. Sem diálogos, não me culpo pela ausência de comunicação. No portuguese, no english, ok ok for us. Era o que tínhamos para ontem.

Terça-feira, depois quarta... quinta-feira... e as barreiras das línguas vão se tornando menores. Vou na apresentação da banda e um susto, a identificação imediata, danço e interajo por aquele som peculiar, universal. As travas se perdem pela linguagem do movimento em torno da música. No english, no portuguese, fuck off. Se você se liberta, você dança, você expressa para o outro, que poderá entendê-lo profundamente.

Estrangeiros estão abertos, sensíveis para as novidades, minha amiga. Sim, em uma semana também virei estrangeira na minha cidade, no meu bairro. Acompanhei a comoção etérea dos artistas que aportaram perto da minha realidade. E o diferente para eles, as pessoas, os costumes, os canais, as ruas, mais o conhecido por mim, Avenida Ana Costa, Bar Torto, Bar Galeria e a Livraria Realejo, juntaram-se num espaço só.

Tudo igual, aqui, e tudo chacoalhado ao longo dos dias, para todos.

Ouvi mais das músicas da banda em mais um show. Depois, fiquei por perto só para ouvir as conversas, das quais não compreendia, mas imaginava porque meu inglês não é tão ruim. Entre uma palavra e outra, entre o vocabulário desconhecido e aquele que ressurgia da minha memória, ganhamos pequenas intimidades.

Então chegou a hora da despedida e me dei conta, mais ainda: ganhei liberdade dentro dos meus dias, dentro da cidade que conheço tão bem e por isso me sufoca tanto. Me permiti ser-estrangeira, me permiti brincar com o idioma alheio, mesmo sem certezas do que estava falando. Vesti um espírito de quem transgride as próprias condições diárias, a mesma praça, o mesmo trajeto, tornando-os distantes, líricos... (dentro de mim, dentro da minha Santos).

O mar já não era só horizonte, a serra não só um caminho de partidas...

Viajei sem passaporte, encontrei novas direções para os próximos meses.

Thanks, Fra Fra Sound. Saudades!

16 de junho de 2011

desanuviada

Tiro mais café e deixo dissolver toda minha enxaqueca no fundo do copo.
Mais três cigarros, uma tragada, uma fungada.
Xícaras guardam borras de café que mais parecem segredos improdutivos.
Ao acordar leio o meu horóscopo. E leio a borra do café. Só que tudo isso não compromete a minha rotina.
O meu humor é bom se consigo dizer 'bom dia, dia', mesmo em silêncio.
O inverno está chegando.
Tenho confessado todas as minhas mentiras. Mentirinhas só pra mim.

Tiro mais café e deixo dissolver todo o meu nervosismo. Sinto dor no estômago.
Outro cigarro. Não sinto mais cheiro, doutor.
Decido também por uma breja em copos tipo requeijão, cheio de boêmia. 
Quando está perto do meu aniversário, acho que está na hora de fazer um mapa astral. Mas nunca fiz. Tenho medo de saber tudo.
Ando mal humorada pra cacete. Deve ser a falta do que falar.
O inverno é daqui cinco dias.
Quero escrever um livro de mentiras bem contadas.

.

Só café, cigarro, cerveja e literatura me salvam pros próximos anos...

5 de fevereiro de 2011

dois de fevereiro

Era dia de Iemanjá.
As previsões do tempo não confirmaram ausência de chuva, mas nem por isso os convidados deixaram de apostar no luau da Futuráfrica em homenagem à rainha do mar.
E lá fomos nós.
Os pisantes eram chinelos de dedos. Os trajes, brancos, ou leves, ou pouca roupa ou como bem quisessem, porque a celebração foi à beira-mar.
A música rolava num set list vibrante.
Pés na areia, dedos mergulhados em chão fugaz. A luz do dia decrescia e mais pessoas se aproximavam com suas flores e outros mimos, presentes para festejar.
Mulheres quase havaianas aportaram primeiro, e moços trazidos por caiaques, depois.
A noite iniciava sinais de chuva. Água no mar. Chuva do céu.
Os dj's continuavam a chamar a alegria entre todos, um sentimento coletivo anunciava-se. A liberdade diante do mistério das águas que nos rodeavam.
Mar.
Chuva.
Mais arranjos de flores foram oferecidos. Colares coloridos, distribuídos. Nenhum sinal de perigo. Conversas trôpegas. Corpos molhados em passos espaçados, pela areia, dentro do mar.
Não precisávamos falar muito. Bastava sentir, bastava acreditar.
E Iemanjá foi reverenciada por risos, amigos e pela vontade de deixar a vida com a força de amar o mar.

10 de janeiro de 2011

sem mais

Algo entre o simles e o genial poderia ser muito mais legal.
Eu acho que não quero uma casa no campo, e tampouco a estupidez do asfalto.
Hoje, surgiu uma promessa: um hábitat natural (em mim), que não tem a ver com uma tal sonolência fria alheia e também não migra para "alegrias" estranhíssimas, em tempos de hype e blasés.
Só quero ser.
Nada mais.

10 de setembro de 2010

agenda 2.011

Dia desses, fui comprar uma agenda para os próximos meses, quando levei um belo susto. Simplesmente, a mesma funcionária que empilhava os mais variados tipos de agendas para o ano que vem, com um não nada cortês, garantiu a ausência das datadas para este ano ainda.

Um pouco incrédula, pensei em perguntar de novo, desisti e logo saí da papelaria com uma cara desconcertada.

"Só agenda 2.011", fiquei fritando a frase na minha cabeça.

Como resolvem antecipar o fim do ano com tanta velocidade? Até reparei nas trocas das coleções de inverno para  primavera-verão nas vitrines das lojas. Porém, "2.011" só porque terminou agosto? Acho que é demais.

Logo agora, que resolvi começar tantas coisas legais.

Logo agora, quando resolvi pelo próximo passo, mudei o corte do meu cabelo e ando ampliando as minhas noções culinárias?!

Fui insultada. Tenho essa impressão.

Já preciso me orientar para 2.011? Como assim?

Nem pensar...

Eu preciso de calma, não posso me acelerar, não.

Avisem para ir devagar com o andor, porque o santo é de barro, e a brisa precisa ser serena, sem pressão. Meu 2.010 está só começando.

5 de julho de 2010

nunca é nunca mais

Algumas datas deveriam ser aniquiladas do nosso calendário emocional. Ter que conviver com alguns dias do ano é um sacrilégio. E não adianta usar de artimanhas para esquecer. Um porre ou mudar o horário dos afazeres daquele dia só para não lembrar é a certeza do não esquecimento. Quem se esconde de uma data triste sabe do que estou falando.

Lembrar e esquecer viram uma coisa só. Esquecemos para não lembrar e lembramos com medo de apagar da memória e a lembrança virar só passado. Porque quando esquecemos viramos a página, mas, se isto não ocorre, é porque ainda lembramos o quanto foi importante e não dá para esquecer mesmo.

Por isso, nunca esqueço quando me despedi do meu amigo imaginário, por volta dos meus seis anos de idade. Lembro que ele morava em frente à janela do quarto dos meus pais, onde ficava o ar-condicionado do vizinho, no prédio da frente onde morávamos - (leitor, era amigo imaginário, não tente entender o cenário). A lembrança era de ser uma ótima companhia para os meus devaneios. Coisas da minha imaginação infantil; portanto, pouco literal. Porém, numa tarde, lembro que foi preciso despedirmo-nos. Ele precisava ir embora. E foi. E aí, comecei a entender a saudade.

Depois, outras perdas aconteceram, partindo disto a minha formação cheia de vazios datados, que são como intervalos momentâneos entre uma crença para uma descrença, frutos das modificações que passamos ao longo da vida, pontes para outras descobertas.

Assim, já acenei adeus para muita gente.

Já me despedi de sonhos, já chorei pela morte de uma ilusão.

Nunca esqueço.

Sempre lembro.

E sem muitas medidas de entendimento, fico com a impressão de sermos os números de partidas e despedidas, acontecimentos presentes quando menos se imagina.

23 de junho de 2010

depois

"Olha, meu bem, o céu
Vê quanta luz, quanta estrela
Quase todas mortas
Só não é chegado para nós o tempo que se apagarão
A gente tá na lanterna, do tempo que virá..."
(Tempo/ Espaço - Lulu Santos)

As horas. Os dias. As vírgulas. Os dois pontos. O tempo. As palavras.
A Literatura.
O silêncio.
A poesia.
O Amor. A solidão.
A pausa.

Foi uma pausa até aqui. Por mais de dois meses, não mais escrevi porque precisava do intervalo da conversão. Anotei no bloco de notas dos meus distantes pensamentos as descobertas que me silenciavam. Por muito, emudeci. Fiquei quieta e pintada por cores tão pacíficas quanto o meu desejo de só sentir. E imprimir em gestos de personagens e cenários os meus significados inventados, numa lógica gratuita do mistério paralelo da nossa verdade insensata.

Foi pausa.
Foi só.
Amorosamente. Sem limites, percebi uma das linhas tênues entre o ficar e o nunca mais...