26 de julho de 2012

o nó do laço de fita


Todo dia eu lembrava. Lembrava das saudades. Porém, como julgamos ser melhor não falar, pensar e enfrentar, sempre lembrava que não deveria... testemunhar tamanho desamparo. E não sentir mais era um alívio. Porque eu fingia que você realmente não existia, mesmo quando eu pressentia sua ausência. Você não estava presente, eu não lembrava que sentia sua falta e a ciranda das aflições não forjadas pouco prevalecia. Eu lembrava todo dia, e esquecia logo em seguida, como quem deixa a senha bancária na última gaveta da cômoda, só acessada perante emergências (do esquecimento). Então vinha a urgência do consolo, amá-lo era um silêncio bom e calmo ao meu ventre solitário em dias mornos. Depois, já chegavam as noites de verão em boates lotadas, e eu não lembrava se amava-o ou me chocava na verdade com vaidades. Afinal, gostar é trazer em si a vaidade de ter no outro algum respaldo para as nossas poucas soluções caseiras para o som de vinil e vinho tinto que são um par perfeito para dois (o clichê dos clichês). Um desalento em aconchego. E você era o ponto final daquilo que pensei nunca mais achar, quando permiti jogar-me do décimo quinto andar. Pois, não existe meia queda no amor, tem um pulo do auge da vontade de se fazer outro/ a, com o auxílio de um pássaro faminto em pleno voo.

Assim, nenhuma convicção resguardou qualquer garantia pelo fim próximo, os rastros  por onde passamos guardam demarcações em modos poucos ortodoxos para voltarmos ao chão. Tem volta?

(...)

Para a greve das saudades ficamos sem acordos, permanecemos assegurados por uma ingrata inaptidão ao diálogo da paixão. 

(...)

Sobram lembranças.


4 comentários:

  1. minha amiga,
    se não existe meia queda no amor,
    então talvez a paixão nunca deva lhe custar respeito.

    tão tenebrosamente dura.
    e tão doce. voce consegue ser.

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    1. depois da queda do amor, morre-se um pouquinho, fato.

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    1. amor e paixão. às vezes, só vem a paixão, outras, o amor é uma ponte, acontece naturalmente, mas neste caso são os dois. pra narradora-personagem amava pra acalmar o pulo da paixão.

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uma palavra, bamba?