23 de junho de 2010

depois

"Olha, meu bem, o céu
Vê quanta luz, quanta estrela
Quase todas mortas
Só não é chegado para nós o tempo que se apagarão
A gente tá na lanterna, do tempo que virá..."
(Tempo/ Espaço - Lulu Santos)

As horas. Os dias. As vírgulas. Os dois pontos. O tempo. As palavras.
A Literatura.
O silêncio.
A poesia.
O Amor. A solidão.
A pausa.

Foi uma pausa até aqui. Por mais de dois meses, não mais escrevi porque precisava do intervalo da conversão. Anotei no bloco de notas dos meus distantes pensamentos as descobertas que me silenciavam. Por muito, emudeci. Fiquei quieta e pintada por cores tão pacíficas quanto o meu desejo de só sentir. E imprimir em gestos de personagens e cenários os meus significados inventados, numa lógica gratuita do mistério paralelo da nossa verdade insensata.

Foi pausa.
Foi só.
Amorosamente. Sem limites, percebi uma das linhas tênues entre o ficar e o nunca mais...

5 de abril de 2010

manifesto da busca

Temo não ser a exceção.
Excedo os meus modos patéticos quando ninguém vê.
Dou risada sozinha para os transeuntes não espantarem o meu susto narcísico da alegria de ser só mais um na multidão.
Enxergo mal os rostos cansados do ônibus abarrotado.
Meus óculos escuros emburrecem a retina sincera do meu olhar.
Guardo segredos de liquidificador para um caos atmosférico que desanda o meu equilíbrio de bailarina desatinada.
E, assim, não lembro quando não fiz mais concessões. E retiro da bolsa um cartão amarelo para aqueles que sabem fazer um pedido bem feito. Então, concedo... sem um não! Ofereço a minha bondade abusada e construo uma culpa vã, pela caridade exagerada.
Olho para trás e tenho a impressão de ter perdido tempo quando não era para ter juízo.
E se, hoje tenho a  razão, quero dar-lhe todo o impulso possível... para caminhar na corda bamba da emoção do tato no estalo da dor de ser unicamente parte de todo mundo.
Eu sou um milhão em mim, de um milhão de gente que vive e ama e sua e ri... como já disse algum poeta.
Eu não sou o outro. Sou eu mesma. Mas, confundo o meu querer com o seu desejo e já não sei mais quem sou... perco o meu critério e me desrespeito. Respeito o querer alheio e desajeito o meu próprio conselho de amar a mim, antes de tudo. Pois, não sou capaz de rezar a minha cartilha e acabo pregando pela religião do próximo.
Estúpida, não?!
Porque ainda não sei o meu destino, embora, a campainha moralista da minha identidade oca toque e lembre a hora de ser mulher, profissional, cidadã, filha, amiga e algo muito maior que nunca serei... o meu verdadeiro Eu, com conotação estética vivaz e primária de mim mesma, só aberta para obras do outro, ou seja, sempre com alguma concessão.

30 de março de 2010

relicário

Tentei não trazer nenhuma música como epígrafe para este post, porque quero transformá-lo na canção que não existe em mim neste segundo.
Estou de mudança, meus leitores.

Aluguei um lote de sossego do outro lado da cidade.

Deixarei meus vinte e poucos anos para trás e o lugar de filha dos meus pais.

Vou morar com um moço que diz viver "desde 1886" (como está tatuado, literalmente, no peito dele).

Hoje nenhuma trilha sonora poderia realmente empolgar todas as expectativas que esperam meu novo habitar.

Não sinto vontade de chorar. E só percebo o meu barulho de solitude, nas conversas com os meus eus.

Não abandonarei o que já foi. Por isso, vou comprar uma bicicleta e visitar os meus familiares, quando for necessário atravessar os canais que cortam essa minha estranha cidade até o meu antigo lar... para ouvir as novidades da minha mãe, quando mistura, no seu jeito nordestino de contar histórias de sua terra natal à vida atual atribulada pelo zumbido de bebê choroso do apartamento vizinho, síndico briguento e as contas da sobrevivência que não findam em nenhum dia do mês.

As minhas malas estão feitas.

Meus segredos estão todos encaixotados, lacrados e endereçados para serem ajeitados de um modo desconhecido por mim, a partir daqui.

E ao embalar cartas, cadernos velhos, quinquilharias, objetos de infância, fotografias da adolescência, fantasmas, risos e lágrimas, senti saudades dos meus dois irmãos.

Acho que eles não sabem mas, guardam a minha formação como gente, como ser, construído dentro do nosso quarto de triliche, escrivaninha e pouco espaço para as bagunças das crianças de outrora. 

Assim, já os incorporei numa situação frágil de embalagem em mim: CUIDADO: muito especial.

Tudo pronto. O carreto buzina lá embaixo, na calçada do meu, agora, ex-prédio.

Hora da partida, chega o momento de carregar caixas e 1982, 1983... 2009, janeiro, fevereiro, 28 de março de 2010.

E como um atestado de mudança, este texto transformou-se num depoimento, que não reconhecerei firma em cartório algum.

Emoções não combinam com burocracias.

Nenhuma assinatura esclareceria este meu estado de constatações silenciosas, pública, e talvez, certa da falta de importância para você, caro leitor, se não fosse isto - o registro dessa que vos escreve - a minha mais recente memória, importante para um futuro quando tentarei viver de linhas palavreadas...

28 de fevereiro de 2010

era menina

Há meses os vestidos começaram a delinear a cintura, as saias perderam um pouco de tecido e estão alguns palmos acima dos joelhos redondos com pernas mais torneadas. Cabelos presos só se for para mostrar a nuca nua. Esmaltes escuros e perfumes nada adocicados foram adquiridos nas últimas compras de cosméticos. Os amigos são rapazes que flertam, com a troca das tranças, da garota tímida do brejo, para admirar o novo caminhar em saltos altos nunca usados, até então... Tudo num movimento simbiótico de sedução fatal. Num desplugar do mundo interior coberto de feminilidade espontânea, neste domingo, acordou mais mulher...
[Imagem: Vênus de Milo]

22 de fevereiro de 2010

hoje é segunda

Começar sempre deixa uma sensação de medo. Dá medo de se apaixonar por uma pessoa nova. Emprego novo, casa nova, ter um filho, mudar de cidade... sempre trazem sensações levemente estranhas. E começar pela terceira vez um blog não é diferente. Dá medo não cumprir as expectativas dos amigos... Não saber se conseguirei ter pelo menos três comentários por post dá medo. Ao mesmo tempo, sei que o medo é a cara do novo. Não teria como ser muito diferente, senão viraria marasmo, que pode virar tristeza. Só que tristeza com um punhado de melancolia até é engraçado de sentir... pode dar samba. Porém, tristeza mais deprê nos deixa sem chão... Até que chega algo novinho que nos surpreende e o medo mostra-se mais uma vez e já não temos mais dúvidas que é assim mesmo. O novo vem. O velho vai. Fica a tradição daquilo que vivemos lá, vem a vontade de aguardar o moderno que está para chegar. E nessa brincadeira, neste post fabricado numa segunda-feira pós-carnaval, para este blog de título malemolente, para um ano promissor às paixões, quero criar atmosferas bambas com palavras... por uma voz nova numa literatura literária!