18 de outubro de 2011

passa em casa, tem bolo

tem chá
tem café
tem almofadas pelo chão
tem cheiro de doce de framboesa
tem o Murilinho correndo pela sala
tem as cortinas avoadas
tem o sol marcando sombra nas plantas
tem a Lila escondida no vãozinho do ármario do corredor
tem meus abraços
tem colo da vó
tem uma gargalhada na espreita por uma história nova sua
tem a espera
com café
com chá
com o chão coberto de almofadas
com bolo recheado de doce de framboesa
com o Murilinho aos pulos
com o vento nas plantas
com a Lila de olhos arregalados por um carinho
com a vó nos observando de tão feliz
com o meu gosto pelos seus causos
com a vontade de vê-lo aqui
em casa,
vem logo, tem bolo!

puento ciego (IV)

Dois tiros. Pá Pá.

.
.

Enquanto limpava o sangue da roupa e corria, sua sombra perseguia-o.

16 de outubro de 2011

uma nota só ou duas irmãs


ouvi o canto da Mônica Salmaso ao seu lado e no outro dia sonhei com você. 
e você também sonhou comigo. 
a cantora nos viu lá do palco, como almas irmãs de canto de líricas de vidas artísticas? 
nossos sonhos cruzaram os destinos.


será que quando sonhamos com alguém nos transportamos para perto da pessoa? 
será que pulamos ruas, canais, desviamos de tudo e por fim, nos juntamos numa realidade só?


(ornar nossos sonhos e possibilidades e depois fazer do plano real um espaço lírico como um palco)


(encontrar uma sintonia de canto e sopro, igual a Mônica e seu marido, ela orquestra-o no olhar, ele segue a voz dela, amantes do mesmo cortejo)


(viver a música e a voz e o silêncio num espaço lúdico para um público e depois se vestir de dias e dia a dia)



dee dee minha irmã menininha, os sonhos equilibram as emoções não contidas? 
no meu sonho você já era uma mulher.
e no seu? quem sou?
por acaso nos encontramos no meio da cidade entre palavras e tintas e gritos familiares e silêncios serenos, da prece que não falaremos jamais?


quando esquecermos o passado, ainda seremos uma melodia só, de sangue e sonhos.



10 de outubro de 2011

professor Carlos

Como pode alguém nos modificar tanto, em tão poucas horas, só pelo coração?

Eu já pressentia a mudança. 
E você chegou até mim e me abençoou com palavras de verdade.
Eu que sempre busquei, a verdade das palavras, a verdade do olhar, a verdade do caminho.
Um dia me pediram para deixar de ideias fixas, sobre as verdades.
Fiquei quatro anos na graduação de Filosofia, e nunca consegui entendê-las.
É bem verdade que comecei a desistir.
O tapete da traição me foi tirado.
Fiquei lá, estática, com olhos melancólicos e quase sem pulso.
E tive que aprender a fazer as malas, mudar o rumo.
Mesmo com algumas verdades no bolso.
Os homens são perversos.
As cidades são desertas.
E a vida não acaba porque você perdeu seu chão.
As crianças continuam crescendo.
Os pais não desistem de cuidar de seus filhos.
Porque o mundo ganha sentidos em novos encontros, mesmo que a gente não perceba de verdade.
E todo sonho perdido volta de fantasia nova.
Transforma chão áspero em verdade flutuante.
Depois daquele 8 de outubro, tomei minhas verdades de novo para mim.
Não a verdade do Aristóteles, Nietzsche ou de algum trapaceiro de plantão, mas a verdade da crença do suor nas mãos, cheio de construção atual.
Verdade mesmo é poder olhar nos olhos e piscar no segundo seguinte para guardar o amor.
Tem verdade na gratidão!
Obrigada.





sonâmbula virtual

tem alguém aí?


Você já dorme. Eu, não.
Meu corpo não reluta pela novidade.
Vou devagarzinho na busca de novas palavras, novas conversas e você, caiu no sono, dorme. A luta com a insônia resulta em conseguirmos fechar os olhos. E você, dorme. Enquanto minhas células seguem seus ciclos, mas na promessa de um novo frenesi, nas horas antes do meu sono noturno; você, dorme.
Contei uma teoria, antes de você dormir, contei sobre a minha lei sobre amar. Você dormiu. Não quis ou aguentou ouvir até o final. Ah, Meu Deus. Teorias que dão sono estão mortas de vida?
Eu sei, eu sei. Palavras não podem ser bambas, muito menos no amor, só nas composições dos grandes mestres sambistas. É, não posso me dar esse luxo, de palavras malemolentes. Tenho que ficar alerta. Viu? Você dorme.
Azar meu. Faço barulhos com as teclas do computador. Como quem não quer saber de nada mesmo.
Dorme aê.
Gostaria de terminar isso aqui, como quem acorda e desperta e acha uma surpresa, um outro desfecho para o destino.
Não durma mais antes de mim, por favor. Tenho pesadelos, acordada, quando durmo sem você.

25 de setembro de 2011

puento ciego (III)

Olhou para mim com olhos de cereja. Não titubeou em nenhum segundo. E continuou a me olhar, como quem ganha um presente surpresa. Não entendia se olhava mesmo. Mas olhava.
E logo uma avenida nos alargava. 
O seu olhar fixou-se, preso no meu varal de desejos imunes. 
Então passei a sentar na mesma cadeira do restaurante da Araújo Medeiros, nas mesas da calçada, onde nos percebemos pela primeira e única vez. 
Nos outros dias, aguardava ansiosa sua passagem por ali, enquanto almoçava. 
Queria pedir informações suas. Será que alguém por ali saberia da sua rotina?
Passei a pensar num anúncio no jornal da cidade. 
Nenhuma informação precisa.
Somente aquele olhar delicado como seus passos, que ficaram para trás. Porque não tive a sua rapidez, para responder e mostrar-me nos meus olhos.

22 de setembro de 2011

uma pequena vida

(para homens de natureza morta)




lorenzo na sua meia-idade,
meio vira-lata,
mais ou menos triste,
com meia barriga de chopp,
nunca conseguiu fazer algo por inteiro.

hoje é um homem metade viril,
a outra metade broxa.

19 de setembro de 2011

minha hermana

risca espaços inabitados

grava destinos sem saídas


humaniza seu corpo,

com órgãos


rastreia um grito presente

ou amores imaculados


não tem horizontes


somente telas e cores frutíferas


vivencia sua arte

parida


até que se torna uma bolha:

cansada.



17 de setembro de 2011

decupagem

No primeiro semestre deste ano, fiz uma oficina literária, ministrada pelo escritor Marcelino Freire. 
Foi um momento bastante especial, descobri o quanto escrever é importante para mim. Ganhei coragem para encarar a escrita e seus meandros. E de lá pra cá, ando pegando o boi pelo chifre. Escrevo e leio mais e mais, para um dia dar um rumo, um norte para o meu interesse pela Literatura. 
E no curso escrevi um texto chamado Decupagem, que tinha o tema: uma grande saudade. Daí, tal texto teve uma boa repercussão, do Marcelino e das pessoas que ouviram a minha leitura. 
Assim, ganhou um sentido tão interessante, que tive a ideia de transformá-lo num curta-metragem.
E esses dias, o destino colocou uma garota bastante sensível para essas coisas, de vida, amor e existência, no meu caminho. A Noelle é diretora do curta A janela poética, que acabou de participar do Curta Santos - Festival de curta-metragem de Santos.
Apresentei o texto e pedi para ver se via ali um filme.
Dito e feito, comprou a ideia. Em breve, acho que Decupagem vai ganhar vida cinematográfica.
Então, para os meus amigos leitores acompanharem, deixo-o aqui.
Mas além disso, publico também (logo abaixo) uma leitura dela, linda por sinal, para o futuro filme - tomara!

Decupagem


0:02/ 2:46

Meus cabelos ganham movimentos como marolas.

*

É o começo do vídeo, Márcio e eu, indo até a Biquinha. Estamos no ônibus 08: Ponta da Praia/ São Vicente – orla da praia.

*

Domingo de outono. Poderia ser mais um domingo. Ou um outono daqueles quando todos estão em queda simples, para tempos reclusos.

0:10/ 2:46

Márcio maneja a câmera e brinca com as ondas que terminam na direção do meu cachecol. O trajeto era o mesmo de todos os dias, mas estávamos desfigurados em quadros sem galeria.

*

Eu ia sentada do lado da janela.

*

Ali, naquela cena, lembrava me sentir como o desconhecido de um livro novo.

0:25/ 2:46

Todos os detalhes são capturados. Desde o mar pela janela até o zumbido do vento que corta sem direção as covinhas do meu sorriso.

*

Juntos há três meses, o programa daquele dia foi um fim de tarde para onde ele se referia como o melhor lugar da cidade. Nada mais clichê para o romantismo, íamos ver o pôr-do-sol.

*

Guardava uma ansiedade controlada. Desconfiava se era capaz de medir a verdade sobre nós.

1:15/ 2:46

Meu rosto segue paralelo à linha da orla da praia. As lentes seguem aquilo que não enxergo ao longe.

*

Estamos sentados na fileira do lado esquerdo, nos bancos mais altos. Aqueles disputados por crianças, que sabem ver dali idas e vindas de carros e transeuntes.

*
Sem volta, a cumplicidade demarcava um lugar para nós dois, dois em um.

1:58/ 2:46

Olho para você. De novo, meus cabelos em descompasso se desalinham com o branco e azul do mar ao norte. Márcio filma quase tudo.

*

A praia está vazia. E as pessoas circulam pelo calçadão. Guarda-se a calma da estação dos poetas que decidem adiar o suicídio. É impossível desejar morrer no outono.
*

Não sabia mais zelar meus gestos, todos eram para mantê-lo perto de mim. Sentia cada batida do meu coração como a cuíca de uma roda de samba. Minha devoção pelo nosso namoro era a mentira de quem não sabia nada sobre amar.

2:22/ 2:46

Volto os meus olhos para a janela, na direção do nosso destino. Márcio flagra um silêncio passivo.

*

O mundo torna-se plateia e cenário, meros figurantes.

*

Estava rendida. Já não havia possibilidades para não amá-lo.

2:46/ 2:46

------------------------------------------------------------------------------------

*

------------------------------------------------------------------------------------

*

Saudade do amor involuntário.

Day  Rodrigues
maio/ 2011


"saudade do amor involuntário"

a disposição é uma coisa que acontece delicada. quase me pega pelo colo, no balanço deste barco no asfalto, no dispensar de toda preocupação. tenho márcio em meus olhos, mesmo que ele tenha posto o rosto a me olhar e só. engraçadas são as coisas de agora. a tudo que é eternizado, é engraçado, parece lhe cair sobre certa seriedade. "saudade do amor involuntário", foi assim que decidi chamá-lo. agora, sentada,  já não posso decidir quase nada. pois que márcio me torna paisagem, sorriso, completude.  


há pouco pensei em dizer para que descêssemos daqui, que pulássemos pela janela, que rolássemos pela areia. precisava tocar-lhe, sentir dele o cheiro real de sua presença. ao mesmo tempo, sua observação caía doce sobre mim, como parte de tudo, como anjo sem asas, me fazendo sentar outra vez. eram essas as duas naturezas. márcio, você me vê. eu era vista. eu era sua imagem de hoje. e hoje, para mim, tem o seu balançar de braços a me seguir.


acontece que agora, quando assisto a mim, minha falta se sincronicidade me irrita. mas eu sei que ele conseguiu capturar minha forma mais pura, mais simples de mim, minha agitação, talvez. minha urgência de viver.

Noelle Falchi

"eu que não sei quase nada do mar"

Para Bri


eu nunca soube muito de barcos. 
desde muito cedo, ouvia seus apitos nas manhãs da minha infância. navios que saíam do porto, atravessavam a Ponta da Praia, onde eu morava, e partiam para lugares distantes de mim. 
meu pai sabe. é um portuário nato. trabalha no ramo há mais de trinta anos. 
eu, não. sei do zumbido. do zuuuuu. do adeus em silêncio.
eu também nunca conheci um marinheiro contador de causos. e muito menos pratiquei surf. 
mas sei do cheiro da maresia. sinto-a quando coloco os pés na rua, quando saio de casa. porque morar na praia tem dessas peculiaridades. cheiro de mar/ sal abraça-o diariamente.
a minha paisagem rotineira, quando residia num dos extremos de Santos e precisava me deslocar pela cidade, era a orla inteira. só pra mim. sentava no banco mais alto do ônibus e olhava para o infinito, como quem faz uma prece para começar a labuta. 
hoje, fiz um barquinho tatuado no braço, é vermelho escarlate. marca um momento especial, de rupturas, e fecha um ciclo. talvez, o retorno de saturno, segundo a leis dos astros. diz de mergulhos. e de um amigo vidrado em barcos de papel.
diz do meu amor e o mar.
eu que não sei nada do mar. 
nem de amar.





"Eu que não sei nada do mar", por Maria Bethânia

14 de setembro de 2011

sem entrelinhas

Frente da cinemateca francesa - por Bryan Faustino
Palavras são bambas. 
São carniceiras ou mães possessivas.
Palavras não têm cor.
Estão livres de cotas.
Palavras escapam da lama dos mendigos.
Palavras vivem em bordéis e sacristias.
Nunca estão sozinhas.
Vendem a vida por outra palavra.
Palavras não saem pela culatra. 
Têm passado e futuro.
Palavras carregam fome.
São aprendizes de outras palavras.

Palavras se aborrecem.
São polidas, se bem atendidas.
Não têm identidade, nem raízes únicas.
Brotam do soluço dos loucos.
Palavras não têm ideologia.
Palavras ficam firmes, quando empacotadas em bibliotecas.
Não reclamam salários, nem pensão ou fundo de garantia.
Mas palavras não se adaptam.
Perdem a compostura.
Palavras dançam.

Todas as minhas palavras estão aqui
de trás pra frente
de lado,
esquerda,
direita,
para você me enxergar -
nua.


*Post escrito depois de assistir o curta-metragem A janela poética, e ouvir a diretora no debate, após a sessão do filme, perguntar para a plateia: por que você se entrega?; e lembrar as janelas das quais já me debrucei e todas aquelas espelhadas nos meus desejos, que não cessam a busca por outros saltos e novas entregas...

12 de setembro de 2011

puento ciego (II)

Sobrava ausência.
Entre sorrir e labutar, nunca tomou nenhuma decisão.
Ameaçou,
fuga.
Atravessou noites pueris.
E continuou...
para além do suicídio:
guardou-se
entre vão e abismo.

10 de setembro de 2011

puento ciego (I)

Assim, não. 
Não consigo enxergar até aí. 
Deste modo, não.  
Não aos jogos morais, meu senhor. 
Mais uma vez, digo, deste modo, não. 
Sim, há uma senha para o motim. 
E você vai ver, nunca será declarada. 
Não, deste modo, não. 
Lá, lá mesmo 
Não se vê. 
Ninguém vai ver. 
A verdade vai falhar. 
Prepare-se!

Sempre...

30 de agosto de 2011

a procura do rio Paraná

Para Deus Netuno


do contra, atravesso mar adentro


ilha por ilha


só por contravenção




histérica, e sem choro


dia a dia


só pra não não me violar




batizo-me






mas nunca ganho um cais


.
.
.


Ps 1.: Um mergulhador me contou, o rio Paraná é mais profundo que o mar.

Ps2.: Disse também uma amiga, pra aqueles que não conseguem aportar, resta amar. A-mar.

15 de agosto de 2011

a minha vida pesa uma tonelada

falta bem pouco. falta pouco mesmo. será daqui quinze dias, quase. é. meu aniversário. nunca penso muito nisso. fazer mais um ano, aumentar as primaveras, como dizem os avós. nunca penso porque sempre tive juventude a mais, e problemas de menos com a idade. 


ter vinte e poucos anos não é chato. na verdade, é tão suportável quanto a (inexistente) preocupação com uma festa no final de semana. pois, pense, se você tem uma festa pra ir, num sábado à noite, a última coisa a se imaginar é o tempo que vai durar, quando sabe que vai encontrar pessoas legais, biritas e muita música.


mas hoje acordei estranha. pensei no número 29. e lembrei de toda a minha agenda, até o sábado do dia 27 de agosto. muita coisa. não cabe na palma da mão, não cabe na organização pouco sistemática do meu cérebro. porque no fundo da verdade, queria mesmo era jogar tudo pra cima e sair correndo, não como quem vira as costas, mais mesmo pra alivia-la, do peso da responsabilidade.


ontem no almoço da família, pela primeira vez, meu pai não sentou na cabeceira da mesa. sentamos, minha irmã e eu, uma em cada ponta. o pai já não faz questão daquele lugar. e aprontei o prato principal. liguei para o irmão que está distante para saber as novidades. discuti com a minha mãe as questões previdenciárias atuais e dei dicas para a vizinha, que não sabe o que fazer com a filha pequena e danada. fiquei me sentindo a conselheira de um clube.


notei: minha opinião é importante para aqueles que já foram referência de vida ou morte - até - para mim. parece que cada vez mais serei chamada de tia pelas novas gerações. e todos os meus compromissos são meus, desde cuidar da saúde até decidir se vou embora pra bem longe ou chuto o rei.


não, isso não começou ontem. mas hoje bateu diferente. deve ser o inferno astral, um problema hormonal desconhecido ou a vontade de viver mais com menos. 


tá bom, amanhã é terça-feira e já será tarde para pensar tanto.
e respiro fundo  para não esquecer de nada, nem de mim.

7 de agosto de 2011

sujeito oculto

Vende-se
Aluga-se
Procura-se
Se desespera.
Pede-se
Cala-se




E lá se vai outro dia do mês de agosto, longo e ao gosto do se.


Vai-se


Pendura-se 
no varal 
roupas maltrapilhas 
cheias de Omo.


Se não fosse agora o cheiro dele ausente ali.

17 de julho de 2011

free fra fra free

Eu poderia continuar sendo a mesma. Mais uma semana, mais uma segunda-feira qualquer. Sete horas da manhã, café, banho, leitura rápida das manchetes do jornal impresso, bom dia, padeiro, olá, como vai, moça da floricultura. Cotidiano assim e pronto, para todos os outros dias daquela primeira semana de julho. 

Mas de repente, não mais que de repente, atravessam em direção à livraria onde trabalho, no final do meu expediente, estrangeiros e vidas musicais distantes do Atlântico, a banda holandesa Fra Fra Sound. Somos apresentados pela minha amiga. Nos aproximamos, digo, Hi, my name is Dayane e só. Tento, How are you. But... Meu inglês trava. Sem diálogos, não me culpo pela ausência de comunicação. No portuguese, no english, ok ok for us. Era o que tínhamos para ontem.

Terça-feira, depois quarta... quinta-feira... e as barreiras das línguas vão se tornando menores. Vou na apresentação da banda e um susto, a identificação imediata, danço e interajo por aquele som peculiar, universal. As travas se perdem pela linguagem do movimento em torno da música. No english, no portuguese, fuck off. Se você se liberta, você dança, você expressa para o outro, que poderá entendê-lo profundamente.

Estrangeiros estão abertos, sensíveis para as novidades, minha amiga. Sim, em uma semana também virei estrangeira na minha cidade, no meu bairro. Acompanhei a comoção etérea dos artistas que aportaram perto da minha realidade. E o diferente para eles, as pessoas, os costumes, os canais, as ruas, mais o conhecido por mim, Avenida Ana Costa, Bar Torto, Bar Galeria e a Livraria Realejo, juntaram-se num espaço só.

Tudo igual, aqui, e tudo chacoalhado ao longo dos dias, para todos.

Ouvi mais das músicas da banda em mais um show. Depois, fiquei por perto só para ouvir as conversas, das quais não compreendia, mas imaginava porque meu inglês não é tão ruim. Entre uma palavra e outra, entre o vocabulário desconhecido e aquele que ressurgia da minha memória, ganhamos pequenas intimidades.

Então chegou a hora da despedida e me dei conta, mais ainda: ganhei liberdade dentro dos meus dias, dentro da cidade que conheço tão bem e por isso me sufoca tanto. Me permiti ser-estrangeira, me permiti brincar com o idioma alheio, mesmo sem certezas do que estava falando. Vesti um espírito de quem transgride as próprias condições diárias, a mesma praça, o mesmo trajeto, tornando-os distantes, líricos... (dentro de mim, dentro da minha Santos).

O mar já não era só horizonte, a serra não só um caminho de partidas...

Viajei sem passaporte, encontrei novas direções para os próximos meses.

Thanks, Fra Fra Sound. Saudades!

20 de junho de 2011

(da posse do verbo ter)

Tenho escrito pra poucos. Tenho pensado tanto, que tanto faz, se é dia ou noite. Tenho descoberto palavras. Sim, querido, tenho anotado todas. Tenho sentido vergonha da paixão. Tenho feito muitas exceções. Tenho sonhado com uma casa na praia cheia de filhos e amigos. Tenho fabulado romances. Tenho poucos meses pra começar o fim na minha aldeia. Tenho abolido o passado. Tenho amado mais ainda as pessoas que me acompanham todos os dias, mesmo na distância: Santos X  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Piauí, Berlim. Tenho guardado lágrimas por trás da maquiagem. Tenho preservado o escândalo de não conseguir me controlar e entender. Tenho me aproximado de rapazes tímidos, incapazes de me seduzir só por uma noite, porque querem mais do meu sorriso. Tenho vendido esperanças a prazo. Tenho saído do útero do mar e olhado para o amanhã que nunca tarda em chegar. Tenho pisado pouco no chão. Tenho virado balão.
Tenho notado toda constelação perdida em noites bem dormidas.

16 de junho de 2011

desanuviada

Tiro mais café e deixo dissolver toda minha enxaqueca no fundo do copo.
Mais três cigarros, uma tragada, uma fungada.
Xícaras guardam borras de café que mais parecem segredos improdutivos.
Ao acordar leio o meu horóscopo. E leio a borra do café. Só que tudo isso não compromete a minha rotina.
O meu humor é bom se consigo dizer 'bom dia, dia', mesmo em silêncio.
O inverno está chegando.
Tenho confessado todas as minhas mentiras. Mentirinhas só pra mim.

Tiro mais café e deixo dissolver todo o meu nervosismo. Sinto dor no estômago.
Outro cigarro. Não sinto mais cheiro, doutor.
Decido também por uma breja em copos tipo requeijão, cheio de boêmia. 
Quando está perto do meu aniversário, acho que está na hora de fazer um mapa astral. Mas nunca fiz. Tenho medo de saber tudo.
Ando mal humorada pra cacete. Deve ser a falta do que falar.
O inverno é daqui cinco dias.
Quero escrever um livro de mentiras bem contadas.

.

Só café, cigarro, cerveja e literatura me salvam pros próximos anos...