5 de novembro de 2011

necessidade urgente V (ou Paternon)

A bolsa de tricô debruçava-se no seu colo. E a coluna semi-arqueada segurava todos os problemas dos últimos dias. Não parava de lembrar da briga com o Fábio, do anúncio da separação, da multa na carteira de habilitação, da fome, do Fábio.

Sentou nas mesas da calçada, no restaurante Otelo na Avenida Araújo Medeiros, algumas quadras do burburinho do centro.

Desde segunda-feira, nada descia direito. Estava com a boca do estômago sem espaço, com uma abertura menor que a de um funil, nada passava.

Mas não podia esquecer. Precisava buscar os documentos do carro no despachante, para depois decidir como faria com a mudança e o quase fim de namoro.

Duas semanas fora da cidade e na volta, viu sua vida estatelar-se, sucumbir ao desconhecido. Sem lugar para morar, carro guinchado - por causa do imbecil do quase-ex-namorado - e todos os planos se dissolvendo, mesmo já sabendo que ele sempre foi assim - insolúvel? SporTV e UFC. Na maioria da vezes, na maioria do tempo, os programas prediletos dele. E quando estavam juntos era diferente. Mais por obrigação? Ela sabia. Testemunhou a desordem da vida dele, na sua ausência: a bagunça do apartamento, com a dor que era vê-lo jogado como se fosse um  personagem do Bukowski, sem perspectivas, preso às noites etílicas e desgraçadas. 

Então, acomodada na cadeira mais próxima da rua, chamou o garçom e pediu o cardápio. E a bolsa ali, presa entre as pernas, como quem vai sair correndo a qualquer instante. Talvez por perceber um possível incômodo da  cliente, enquanto aguardava escolher, o atendente gentilmente perguntou:
- A senhorita não quer colocar a bolsa na cadeira ao lado?
- Não, não... está tudo bem... obrigada! - respondeu em seguida, com uma voz rouca, ligeira e baixa.

Olhou a lista dos pratos do dia, no cardápio. Pediu o primeiro do lado direito da lista, salada, contra-filé, arroz, feijão e batata frita. Sem muita conversa,  fez seu pedido:
- Pode ser esse moço, esse aqui do lado direito, PF, por favor.
- Ok, senhorita. Mais alguma coisa? Vai beber algo?
- Por enquanto, nada. Obrigada. Estou bem, estou bem. Obrigada.
A voz balbuciava o pedido, desejava logo a ausência do funcionário, queria mesmo era ficar sozinha.

E com a bolsa entre as coxas, balançava os pés, cruzados embaixo da mesa. Sentia pequenas alterações da circulação do sangue, uma espécie de formigamento? Resolveu respirar fundo três vezes, na quarta vez, sentiu o tamanho da fome. Desde segunda-feira, meu Deus, desde segunda-feira, só consigo chorar - entrecortava seus pensamentos - namorar um imbecil por tanto tempo, meu Deus - e seus pensamentos fugiam e voltavam por seus olhos esbugalhados, atrás do óculos escuro, na inconstância do corpo fraco.

Entre uma resmungada e outra, em forma de soluço para si, abaixou a cabeça e enxergou dentro da bolsa o pacote amarelo, que embalava o presente do futuro-ex-namorado. Lá estava o boné com o logo do Tolima. Havia comprado na loja de conveniências do aeroporto. Sabia que ele ia gostar. Apertou a bolsa para não lembrar, para não chorar. E as pernas começaram a formigar de novo. Balançava os pés nos sapatos como quem poderia tomar impulso e desaparecer, ou como se pudesse decolar como um helicóptero ao contrário. Os cotovelos batiam na cintura, de leve, num sinal de que o corpo inteiro expandia-se na cadeira. Era quase meio-dia, o sol a pino, a saliva seca e o coração sintonizado com as batidas dos pés, um no outro, embaixo da mesa, sem ritmo, cada vez mais rápido. Foi tentando respirar, um, inspira, expira, dois, inspira, expira, do mesmo jeito que aprendeu nos exercícios de meditação. Inspirava. Expirava. Vai, Alê. Inspira e expira. Olhou mais uma vez para a bolsa, quase afundando pelo assento, via o pacote amarelo e buscava um jeito de não buscar o nome dele. Mas naquele instante já apareciam todas as letras F Á B I O. Puxou mais ar e como quem prevê o horizonte, enxergou o prédio Paternon, o mais novo empreendimento imobiliário da região, no final da Avenida Araújo Medeiros. Duas quadras do quase-ex-apartamento deles. Lá estava, Paternon e a presença do Fábio aos arredores. Foi subindo os olhos, a cabeça, o pescoço e enxergou a bandeira do Brasil, que flamejava e deslizava no ar, do 35° andar. 

Será que já estava acordado?  

Olhava para o topo do Paternon, e a bandeira abarcava o sol quente e o vento. Na mesma agitação sua, enxergava o Paternon craquelar-se, num piscar de olhos, a bandeira não flamejava mais, empalidecera. Já era meio-dia? Parecia haver uma escuridão ali. Vai chover? - achava que sim. E foi trazendo os olhos de volta para o meio das pernas, para a bolsa entreaberta - com o pacote amarelo. Sentiu um aperto daqueles igual saudade, igual a tristeza das ausências, das rupturas, das separações. Inspira e expira. Inspira. Expira. Desconexa de qualquer sensação de realidade, esmagou a bolsa no colo, e trouxe o rosto para frente, já sendo observada pelo garçom com a bandeja em sua direção:
- Moça, seu almoço está aqui. A senhorita quer mais alguma coisa?
- Não, obrigada.
Falou num tom só. E continuou, sem qualquer simpatia:
- Por favor, quanto é esse prato? Não vou comer, não. Toma aqui, pega o troco pra você. Tenho que encontrar o Fábio. Obrigada. Mas preciso ver o Fábio agora mesmo.
Disse tudo de uma vez, vomitando angústias e renúncias, medos e irrealidades.

Saiu da mesa com a bolsa aberta, e o garçom perplexo, estático com os pratos nas mãos.

Em passos largos, desdobrava-se para enfrentar aquela longa avenida em direção ao Paternon. Pernas trêmulas, precisava encontrá-lo, de qualquer maneira.

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)


Este texto nasce paralelo ao conto do Wilson Franco: "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/


4 de novembro de 2011

necessidade urgente IV

Alê, seu atual estado civil é quase-solteira. Você acabou de sair da casa do seu namorado, talvez para não voltar mais. Não aguenta mais conviver na bagunça daquele apartamento, das roupas espalhadas pelo banheiro, panelas sujas de feijão, junto com o pirex de macarrão de domingo na pia; e mais, todos os copos e canecas espalhados pela casa inteira. E tudo isso porque você esteve fora da cidade, por duas semanas, o suficiente para seu quase-ex-namorado desajeitar qualquer chance de convívio entre vocês. Porque quando estão juntos, suas regras são seguidas, e você fica lá, ou ficava, sem agressões verbais, por gostar muito dele, você explicava a ordem das coisas, numa espécie de mãe-namorada ou namorada-mãe. Uma série de negativas, Alê. E você resolveu ir embora. Ele não saberá ficar sem você, ele sabe disso. Por um tempo, algumas longas semanas, tudo vai desabar. Porque é isso, você vira as costas e ele desaba. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Estes serão seus novos companheiros. Cuecas usadas embaixo da cama, meias que fedem igual panos de chão encardidos, resto de creme dental pregado pela torneira, o desastre masculino de um quase-solteiro. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Até quando, Alê? E você aí, ainda pensando se fez a coisa certa, não é? Todo cotidiano dele preso em vacilos. Quando cairá em si - você e ele - ?

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

Alê é uma personagem que já tinha nome, mas não tinha passado nem futuro. 
Porém, por coincidência, depois de ler um texto do Wilson Franco, com um personagem de mesmo nome, Alê surgiu.
Mas sabe o que é mais interessante?
A Alê do Will está num conto dele inspirado num outro texto meu (Abrir-se-vos-á).
Aqui ó, "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/

Uma verdadeira ciranda literária!


2 de novembro de 2011

necessidade urgente III

e vou formulando os seus sentidos como quem decifra o segredo de se libertar
Alê Mathias, nem sei bem qual é o seu sexo.
com este nome você poderia ser hetero, travesti, gay, qualquer orientação sexual caberia. será?
então, vou deslizando por palavras na tentativa de me aproximar da sua existência e me sinto como quem transa pela primeira vez. é isso. você é meu personagem e eu tenho todo o seu corpo nas minhas mãos. 
só preciso aprender a despir você.
saber o seu tempo, entre colocar os pés para fora da cama até entrar debaixo do chuveiro para o primeiro banho do dia.
como você faz para cortar os pães, começa de uma ponta para outra, ou somente pelo meio? você come frutas? 

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

31 de outubro de 2011

necessidade urgente II

e agora bato os dedos nas teclas e farejo seu corpo, suas vestimentas, a cor dos seus olhos pela manhã, seu jeito de dormir em noites de ventania, sua maneira de falar ao telefone, a voz mansa para dar tchau, a ausência de simpatia, e vou te construindo como quem tece a própria vida, já tenho um nome para você, Alê Mathias.

necessidade urgente I (*)

começar pelo meio, logo, não pelas beiradas, mas pelo recheio, das camadas mais profundas, de onde não se vê os lados, ou as periferias, lá de onde o vulto entorpece a razão e significa solução, poderia ser das entranhas, ou do âmago, ou do estômago poético, do miolo, longe dos extremos, construir sua vida sem vírgulas, 
personagem da narrativa que ainda não sei habitar. 

(*)  necessidade urgente é a narrativa vivenciada do meu meio, da minha metade afogada em silêncios não banais.

25 de outubro de 2011

abrir-se-vos-a

Abriu os braços para pular.
Do trigésimo e quinto andar.
Do alto do seus vinte e um anos.
Abriu os braços para descer ao chão.
Braços abertos para acolher a gravidade na queda.
Lá do alto.
Seu corpo esquálido, sua boca amarga e seus pés soltos.
Para o pulo.
Desfazer-se em carne viva no asfalto.
Os passantes ainda não a enxergavam.
Por fração de segundos, ninguém a esqueceria.
Nunca mais.
As buzinas já começavam a soar.
Entre o asfalto e o alto do Edíficio Partenon, planaria?
E depois da queda, sossego?
Veio o impulso.
Do alto do despero, não apoiou-se mais nos pés.
A atmosfera desembaraçava-se, enquanto ela caía.
Descontínuo solo.
Corpo espaçado, corpo mutilado.
Ao sol do meio-dia, SP, 29 de abril de 2008.

19 de outubro de 2011

eu literário

queria ser
micro conto
lírica
e encanto

mas não sei
só penso
atenta
não descanso

meu eu é filósofo?
eu, contradição.

18 de outubro de 2011

passa em casa, tem bolo

tem chá
tem café
tem almofadas pelo chão
tem cheiro de doce de framboesa
tem o Murilinho correndo pela sala
tem as cortinas avoadas
tem o sol marcando sombra nas plantas
tem a Lila escondida no vãozinho do ármario do corredor
tem meus abraços
tem colo da vó
tem uma gargalhada na espreita por uma história nova sua
tem a espera
com café
com chá
com o chão coberto de almofadas
com bolo recheado de doce de framboesa
com o Murilinho aos pulos
com o vento nas plantas
com a Lila de olhos arregalados por um carinho
com a vó nos observando de tão feliz
com o meu gosto pelos seus causos
com a vontade de vê-lo aqui
em casa,
vem logo, tem bolo!

puento ciego (IV)

Dois tiros. Pá Pá.

.
.

Enquanto limpava o sangue da roupa e corria, sua sombra perseguia-o.

16 de outubro de 2011

uma nota só ou duas irmãs


ouvi o canto da Mônica Salmaso ao seu lado e no outro dia sonhei com você. 
e você também sonhou comigo. 
a cantora nos viu lá do palco, como almas irmãs de canto de líricas de vidas artísticas? 
nossos sonhos cruzaram os destinos.


será que quando sonhamos com alguém nos transportamos para perto da pessoa? 
será que pulamos ruas, canais, desviamos de tudo e por fim, nos juntamos numa realidade só?


(ornar nossos sonhos e possibilidades e depois fazer do plano real um espaço lírico como um palco)


(encontrar uma sintonia de canto e sopro, igual a Mônica e seu marido, ela orquestra-o no olhar, ele segue a voz dela, amantes do mesmo cortejo)


(viver a música e a voz e o silêncio num espaço lúdico para um público e depois se vestir de dias e dia a dia)



dee dee minha irmã menininha, os sonhos equilibram as emoções não contidas? 
no meu sonho você já era uma mulher.
e no seu? quem sou?
por acaso nos encontramos no meio da cidade entre palavras e tintas e gritos familiares e silêncios serenos, da prece que não falaremos jamais?


quando esquecermos o passado, ainda seremos uma melodia só, de sangue e sonhos.



10 de outubro de 2011

professor Carlos

Como pode alguém nos modificar tanto, em tão poucas horas, só pelo coração?

Eu já pressentia a mudança. 
E você chegou até mim e me abençoou com palavras de verdade.
Eu que sempre busquei, a verdade das palavras, a verdade do olhar, a verdade do caminho.
Um dia me pediram para deixar de ideias fixas, sobre as verdades.
Fiquei quatro anos na graduação de Filosofia, e nunca consegui entendê-las.
É bem verdade que comecei a desistir.
O tapete da traição me foi tirado.
Fiquei lá, estática, com olhos melancólicos e quase sem pulso.
E tive que aprender a fazer as malas, mudar o rumo.
Mesmo com algumas verdades no bolso.
Os homens são perversos.
As cidades são desertas.
E a vida não acaba porque você perdeu seu chão.
As crianças continuam crescendo.
Os pais não desistem de cuidar de seus filhos.
Porque o mundo ganha sentidos em novos encontros, mesmo que a gente não perceba de verdade.
E todo sonho perdido volta de fantasia nova.
Transforma chão áspero em verdade flutuante.
Depois daquele 8 de outubro, tomei minhas verdades de novo para mim.
Não a verdade do Aristóteles, Nietzsche ou de algum trapaceiro de plantão, mas a verdade da crença do suor nas mãos, cheio de construção atual.
Verdade mesmo é poder olhar nos olhos e piscar no segundo seguinte para guardar o amor.
Tem verdade na gratidão!
Obrigada.





sonâmbula virtual

tem alguém aí?


Você já dorme. Eu, não.
Meu corpo não reluta pela novidade.
Vou devagarzinho na busca de novas palavras, novas conversas e você, caiu no sono, dorme. A luta com a insônia resulta em conseguirmos fechar os olhos. E você, dorme. Enquanto minhas células seguem seus ciclos, mas na promessa de um novo frenesi, nas horas antes do meu sono noturno; você, dorme.
Contei uma teoria, antes de você dormir, contei sobre a minha lei sobre amar. Você dormiu. Não quis ou aguentou ouvir até o final. Ah, Meu Deus. Teorias que dão sono estão mortas de vida?
Eu sei, eu sei. Palavras não podem ser bambas, muito menos no amor, só nas composições dos grandes mestres sambistas. É, não posso me dar esse luxo, de palavras malemolentes. Tenho que ficar alerta. Viu? Você dorme.
Azar meu. Faço barulhos com as teclas do computador. Como quem não quer saber de nada mesmo.
Dorme aê.
Gostaria de terminar isso aqui, como quem acorda e desperta e acha uma surpresa, um outro desfecho para o destino.
Não durma mais antes de mim, por favor. Tenho pesadelos, acordada, quando durmo sem você.

25 de setembro de 2011

puento ciego (III)

Olhou para mim com olhos de cereja. Não titubeou em nenhum segundo. E continuou a me olhar, como quem ganha um presente surpresa. Não entendia se olhava mesmo. Mas olhava.
E logo uma avenida nos alargava. 
O seu olhar fixou-se, preso no meu varal de desejos imunes. 
Então passei a sentar na mesma cadeira do restaurante da Araújo Medeiros, nas mesas da calçada, onde nos percebemos pela primeira e única vez. 
Nos outros dias, aguardava ansiosa sua passagem por ali, enquanto almoçava. 
Queria pedir informações suas. Será que alguém por ali saberia da sua rotina?
Passei a pensar num anúncio no jornal da cidade. 
Nenhuma informação precisa.
Somente aquele olhar delicado como seus passos, que ficaram para trás. Porque não tive a sua rapidez, para responder e mostrar-me nos meus olhos.

22 de setembro de 2011

uma pequena vida

(para homens de natureza morta)




lorenzo na sua meia-idade,
meio vira-lata,
mais ou menos triste,
com meia barriga de chopp,
nunca conseguiu fazer algo por inteiro.

hoje é um homem metade viril,
a outra metade broxa.

19 de setembro de 2011

minha hermana

risca espaços inabitados

grava destinos sem saídas


humaniza seu corpo,

com órgãos


rastreia um grito presente

ou amores imaculados


não tem horizontes


somente telas e cores frutíferas


vivencia sua arte

parida


até que se torna uma bolha:

cansada.



17 de setembro de 2011

decupagem

No primeiro semestre deste ano, fiz uma oficina literária, ministrada pelo escritor Marcelino Freire. 
Foi um momento bastante especial, descobri o quanto escrever é importante para mim. Ganhei coragem para encarar a escrita e seus meandros. E de lá pra cá, ando pegando o boi pelo chifre. Escrevo e leio mais e mais, para um dia dar um rumo, um norte para o meu interesse pela Literatura. 
E no curso escrevi um texto chamado Decupagem, que tinha o tema: uma grande saudade. Daí, tal texto teve uma boa repercussão, do Marcelino e das pessoas que ouviram a minha leitura. 
Assim, ganhou um sentido tão interessante, que tive a ideia de transformá-lo num curta-metragem.
E esses dias, o destino colocou uma garota bastante sensível para essas coisas, de vida, amor e existência, no meu caminho. A Noelle é diretora do curta A janela poética, que acabou de participar do Curta Santos - Festival de curta-metragem de Santos.
Apresentei o texto e pedi para ver se via ali um filme.
Dito e feito, comprou a ideia. Em breve, acho que Decupagem vai ganhar vida cinematográfica.
Então, para os meus amigos leitores acompanharem, deixo-o aqui.
Mas além disso, publico também (logo abaixo) uma leitura dela, linda por sinal, para o futuro filme - tomara!

Decupagem


0:02/ 2:46

Meus cabelos ganham movimentos como marolas.

*

É o começo do vídeo, Márcio e eu, indo até a Biquinha. Estamos no ônibus 08: Ponta da Praia/ São Vicente – orla da praia.

*

Domingo de outono. Poderia ser mais um domingo. Ou um outono daqueles quando todos estão em queda simples, para tempos reclusos.

0:10/ 2:46

Márcio maneja a câmera e brinca com as ondas que terminam na direção do meu cachecol. O trajeto era o mesmo de todos os dias, mas estávamos desfigurados em quadros sem galeria.

*

Eu ia sentada do lado da janela.

*

Ali, naquela cena, lembrava me sentir como o desconhecido de um livro novo.

0:25/ 2:46

Todos os detalhes são capturados. Desde o mar pela janela até o zumbido do vento que corta sem direção as covinhas do meu sorriso.

*

Juntos há três meses, o programa daquele dia foi um fim de tarde para onde ele se referia como o melhor lugar da cidade. Nada mais clichê para o romantismo, íamos ver o pôr-do-sol.

*

Guardava uma ansiedade controlada. Desconfiava se era capaz de medir a verdade sobre nós.

1:15/ 2:46

Meu rosto segue paralelo à linha da orla da praia. As lentes seguem aquilo que não enxergo ao longe.

*

Estamos sentados na fileira do lado esquerdo, nos bancos mais altos. Aqueles disputados por crianças, que sabem ver dali idas e vindas de carros e transeuntes.

*
Sem volta, a cumplicidade demarcava um lugar para nós dois, dois em um.

1:58/ 2:46

Olho para você. De novo, meus cabelos em descompasso se desalinham com o branco e azul do mar ao norte. Márcio filma quase tudo.

*

A praia está vazia. E as pessoas circulam pelo calçadão. Guarda-se a calma da estação dos poetas que decidem adiar o suicídio. É impossível desejar morrer no outono.
*

Não sabia mais zelar meus gestos, todos eram para mantê-lo perto de mim. Sentia cada batida do meu coração como a cuíca de uma roda de samba. Minha devoção pelo nosso namoro era a mentira de quem não sabia nada sobre amar.

2:22/ 2:46

Volto os meus olhos para a janela, na direção do nosso destino. Márcio flagra um silêncio passivo.

*

O mundo torna-se plateia e cenário, meros figurantes.

*

Estava rendida. Já não havia possibilidades para não amá-lo.

2:46/ 2:46

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*

Saudade do amor involuntário.

Day  Rodrigues
maio/ 2011


"saudade do amor involuntário"

a disposição é uma coisa que acontece delicada. quase me pega pelo colo, no balanço deste barco no asfalto, no dispensar de toda preocupação. tenho márcio em meus olhos, mesmo que ele tenha posto o rosto a me olhar e só. engraçadas são as coisas de agora. a tudo que é eternizado, é engraçado, parece lhe cair sobre certa seriedade. "saudade do amor involuntário", foi assim que decidi chamá-lo. agora, sentada,  já não posso decidir quase nada. pois que márcio me torna paisagem, sorriso, completude.  


há pouco pensei em dizer para que descêssemos daqui, que pulássemos pela janela, que rolássemos pela areia. precisava tocar-lhe, sentir dele o cheiro real de sua presença. ao mesmo tempo, sua observação caía doce sobre mim, como parte de tudo, como anjo sem asas, me fazendo sentar outra vez. eram essas as duas naturezas. márcio, você me vê. eu era vista. eu era sua imagem de hoje. e hoje, para mim, tem o seu balançar de braços a me seguir.


acontece que agora, quando assisto a mim, minha falta se sincronicidade me irrita. mas eu sei que ele conseguiu capturar minha forma mais pura, mais simples de mim, minha agitação, talvez. minha urgência de viver.

Noelle Falchi

"eu que não sei quase nada do mar"

Para Bri


eu nunca soube muito de barcos. 
desde muito cedo, ouvia seus apitos nas manhãs da minha infância. navios que saíam do porto, atravessavam a Ponta da Praia, onde eu morava, e partiam para lugares distantes de mim. 
meu pai sabe. é um portuário nato. trabalha no ramo há mais de trinta anos. 
eu, não. sei do zumbido. do zuuuuu. do adeus em silêncio.
eu também nunca conheci um marinheiro contador de causos. e muito menos pratiquei surf. 
mas sei do cheiro da maresia. sinto-a quando coloco os pés na rua, quando saio de casa. porque morar na praia tem dessas peculiaridades. cheiro de mar/ sal abraça-o diariamente.
a minha paisagem rotineira, quando residia num dos extremos de Santos e precisava me deslocar pela cidade, era a orla inteira. só pra mim. sentava no banco mais alto do ônibus e olhava para o infinito, como quem faz uma prece para começar a labuta. 
hoje, fiz um barquinho tatuado no braço, é vermelho escarlate. marca um momento especial, de rupturas, e fecha um ciclo. talvez, o retorno de saturno, segundo a leis dos astros. diz de mergulhos. e de um amigo vidrado em barcos de papel.
diz do meu amor e o mar.
eu que não sei nada do mar. 
nem de amar.





"Eu que não sei nada do mar", por Maria Bethânia

14 de setembro de 2011

sem entrelinhas

Frente da cinemateca francesa - por Bryan Faustino
Palavras são bambas. 
São carniceiras ou mães possessivas.
Palavras não têm cor.
Estão livres de cotas.
Palavras escapam da lama dos mendigos.
Palavras vivem em bordéis e sacristias.
Nunca estão sozinhas.
Vendem a vida por outra palavra.
Palavras não saem pela culatra. 
Têm passado e futuro.
Palavras carregam fome.
São aprendizes de outras palavras.

Palavras se aborrecem.
São polidas, se bem atendidas.
Não têm identidade, nem raízes únicas.
Brotam do soluço dos loucos.
Palavras não têm ideologia.
Palavras ficam firmes, quando empacotadas em bibliotecas.
Não reclamam salários, nem pensão ou fundo de garantia.
Mas palavras não se adaptam.
Perdem a compostura.
Palavras dançam.

Todas as minhas palavras estão aqui
de trás pra frente
de lado,
esquerda,
direita,
para você me enxergar -
nua.


*Post escrito depois de assistir o curta-metragem A janela poética, e ouvir a diretora no debate, após a sessão do filme, perguntar para a plateia: por que você se entrega?; e lembrar as janelas das quais já me debrucei e todas aquelas espelhadas nos meus desejos, que não cessam a busca por outros saltos e novas entregas...

12 de setembro de 2011

puento ciego (II)

Sobrava ausência.
Entre sorrir e labutar, nunca tomou nenhuma decisão.
Ameaçou,
fuga.
Atravessou noites pueris.
E continuou...
para além do suicídio:
guardou-se
entre vão e abismo.

10 de setembro de 2011

puento ciego (I)

Assim, não. 
Não consigo enxergar até aí. 
Deste modo, não.  
Não aos jogos morais, meu senhor. 
Mais uma vez, digo, deste modo, não. 
Sim, há uma senha para o motim. 
E você vai ver, nunca será declarada. 
Não, deste modo, não. 
Lá, lá mesmo 
Não se vê. 
Ninguém vai ver. 
A verdade vai falhar. 
Prepare-se!

Sempre...