18 de janeiro de 2012

nota sobre a falta de inspiração

Não ter uma inspiração pronta prejudica o sucesso do texto. Nestes tempos de tantas mudanças, tentar poetizar   tem sido difícil. Além disso, ando muito careta, sem vida boêmia, sem cigarros, ando apagada pela falta do último trago, da falta da lua antes de amanhecer. Muito pelo contrário, agora bebo chá para dormir e vou para cama depois da novela das oito. Mas escrever é fingir, viu. Por isso, ando querendo fingir tudinho, o amor, o gozo e a dor. Posso? Ah, caro inspetor dos sentimentos alheios, você que parece saber de tudo, você que recrimina a doçura, me deixe em paz, porque quero guardar o meu soluço esperançoso numa prosa ou num conto, sem a sua censura. Afinal, ainda sonho com uma vida menos patética, menos ácida. Não diga aquilo que devo pensar ou sentir, sua política não cabe em mim, pois sua rebeldia não me assusta. Dá para respirar romances e atuar na desorganização do crime armado, tudo ao mesmo tempo. A linguagem literária rasga e destroça gente imbecilizada, já tentou desta maneira? Poesia nunca foi resultado de ignorância da fome. Um poema pode segurar o suplício de uma nação inteira ou ser um tiro no pé do fulano desatento com a sua condição.

Isso aqui é só uma nota, no próximo post trabalho melhor as ideias, mesmo se não tiver inspiração suficiente.

10 de janeiro de 2012

nota sobre o tempo dos encontros

Nunca mais. Nunca mais é tanto tempo. E com o tempo não há vacilos. Não há senões. Não existe meia-volta vou ver de novo ontem. Porque as horas se dilaceram de forma contínua, sempre para um momento derradeiro. Nesses últimos dias, tenho reparado no desgaste do tempo. E lembrei de algumas pessoas que já não fazem parte do meu cotidiano. Notei que algumas pessoas realmente têm um prazo de existência em nosso convívio, nos escapam quando dobram uma esquina, num dia qualquer. Não sei bem o que devemos fazer com isso, quando se sabe disso, quando nos deparamos com essa constatação. Vez ou outra, reencontro um ex-namorado meu. É incrível, mas nunca deixamos de nos trombar em alguma rua de Santos. E há uma felicidade em revê-lo, por alguns minutos, revisito uma lembrança boa. Porém, outras pessoas viraram numa esquina por onde nunca mais passei, tenho essa impressão. Às vezes é como se elas tivessem entrado para uma outra dimensão e passássemos a não fazer parte mais do mesmo trajeto, mesmo que a gente more na mesma cidade ou bairro. Daí, concluo: deve haver a manipulação dos encontros, desencontros - só pode! Existimos para alguns pela vida inteira ou por alguns anos ou só por semanas. Então, não adianta, as horas sempre vão levar alguém de nós, saber fazer uma boa despedida, se possível, aí, sim, é fundamental.

9 de janeiro de 2012

cartas marítimas I

Santos, 23 de janeiro de 2022.

Minha querida Ana,

Escrever cartas tem acompanhado meu sossego.

Aqui na praia a rotina anda em marcha lenta. As pessoas realmente esquecem do cansaço às 19h30, enquanto fazem caminhadas no calçadão ou colocam suas cadeiras de plástico próximo da faixa de areia para jogar conversa fora com algum amigo. São hábitos bastante diferentes dos nossos. Mas não reclamo, não. Isso de poder ter uma rotina mais calma está me fazendo bem. A recuperação da cirurgia das minhas pernas vai bem com isso, com essa lerdeza das horas perto do mar. 

Os médicos estão confiantes que voltarei a andar sem muletas tão logo. Enquanto isso, escrevo cartas e tento dar continuidade ao livro de contos, que havia começado antes de ser operada - tudo da varanda, do vigésimo andar, de frente para a orla da praia. Não sei se mencionei algo sobre este livro para você, minha amiga. Será um livro curto, com treze contos, todos entrelaçados com a mesma temática. Não vou contar o que é exatamente porque quero enviar os originais a você. Gostaria que você e  Sabrina lessem.

Além disso, Pedro e eu temos conversado bastante por telefone. Não tem jeito, com ele preciso do mínimo de contato real, mesmo que seja vê-lo em imaginação ao ouvi-lo. Porque ao falar com ele, acho que me recupero mais rápido, fico empolgada para terminar o livro também. No próximo final de semana, já estará de férias e poderá ficar comigo até o fim da minha estadia em Santos.

Ah, estou louca para conhecer a casa de vocês. Soube que aí tem bastante damasco, não é? Tenho uma receita de torta de damasco deliciosa. Aliás, este é o doce preferido do Pedro. Quero aprontar uma dessas quando for visitá-las.

Bom, fico por aqui, não quero me estender mais. Até porque, se você notar, essa carta está ausente de emoções. E a praia é só a praia. A cirurgia foi bem, obrigada. Pedro e eu estamos ótimos, nunca nos cuidamos tanto. E o livro flui como quem nada em rio raso, sem grandes correntezas. E você sabe, não sou assim. Preciso sempre de um frisson, para ganhar os dias toda corada de vontades novas e sensações pré-fabricadas, antes por uma novidade, depois pela minha capacidade de ser abduzida para um estado de euforia. Enquanto  não me recupero por completo deste deserto emocional, prefiro terminar essa carta aqui. Sei que você entenderá. Mas não deixe de mandar notícias. Segundo os médicos, é muito importante para um enfermo ter os entes queridos bem perto, mesmo só em palavras.

Amo você,

Maria Paula.

27 de dezembro de 2011

das setes ondas

Esse ano está indo e junto dele vai também um montão de promessas cumpridas. Cumpri os desejos jogados ao mar em 1 de janeiro de 2011. Pedi lá um tanto de coisas para Iemanjá. Pulei as sete ondas. E aos passos dados para trás, naquela primeira madrugada do ano, enquanto recuava e orava por um ano prestigiado por emoções, percebia o horizonte oceânico e sonhava, um futuro, com flores, espinhos e jardins.


E assim foi, conheci tanta gente. Ganhei novos amigos e principalmente andei lado a lado com os velhos parceiros, gente que não me abandona nunca, e eu não os largo jamais.


Vivi experiências incríveis. E trabalhei muito, na ideias e nos projetos-sem-fim.


Agora o ano está terminando mais uma vez. Está na hora de contar mais sete ondas, mais sete desejos. Mas o que eu gostaria mesmo  é poder  decolar com todos as sementes plantadas neste 2011. Dar sustância para todas elas, assim como quem devota-se às rosas polinizadoras. Porque a metáfora do jardim cabe mesmo aqui.


Do cuide do seu jardim e todo resto se desvela. Aconteceu comigo. O olhar horizonte do mar-floricultor condiz. Mar profundo e vida aprofundada em lírios e emoções gratuitas, complexas, vividas.

Obrigada, aos deuses e aos meus queridos.

10 de dezembro de 2011

sem pares (necessidade urgente VI)

"Eu pensei em deixar você
Me livrar da dor e voar"
(Entre a união e a saudade, Mombojó)


Seguia a pressa de chegar. Mas sentia-se puxada para trás. Era um pêndulo. Uma gangorra. Dos pensamentos, das lembranças do Fábio, dos cinco anos juntos, da briga, do UFC, do apartamento inabitável, da separação, da briga, ia em passos sem ritmo. E continuava. Andava para chegar logo. Do lado direito, enquanto caminhava carregada pelo desespero, o trânsito não seguia seu fluxo normal na avenida.  Os carros começavam a diminuir a velocidade, quanto mais Alê aproximava-se do Paternon. Apertava a bolsa de crochê amarela entre o braço esquerdo e a parte lateral do corpo, apoiada no ombro. E a cada passo o concreto asfalto abria-se, Alê afundava-se, mas seguia resistente, em chutes no ar, dispersando poeiras, sujeiras e odores microscópicos no caminho travado ao longo das cinco quadras da Avenida Araújo de Medeiros.

Sem olhar muito para os lados, permanecia calada, sequer balbuciava um daqueles sons quando uma tempestade de angústia nos toma. Nada disso. Só os carros ameaçavam sua mudez. As buzinas tiravam sua concentração. Afinal, o que estava acontecendo por ali? Era meio-dia e pouco, e o que justificaria aquela lentidão toda dos automóveis? Perturbada pelo barulho que começava a ampliar o tempo escandaloso de penetração em seus pensamentos traiçoeiros, afastou o objetivo que a levava correr tanto. Por alguns poucos minutos, esqueceu do Fábio, da fome, da carteira de motorista no despachante, da briga, do Fábio. Os carros não paravam de buzinar, cada vez mais. 

E passou a notar as pessoas que vinham em sua direção. Algumas falavam sozinhas. Todas com passos curtos. Alê não conseguia dar mais passos distantes. Os passantes que vinham em sua direção encenavam um cortejo? Seu objetivo era chegar no Paternon, andar mais dez metros, dobrar a esquina do Bar do Esaú e subir para o apartamento deles, no Majestic. E foi afundando os pés passo a passo. E esquecia e lembrava onde queria mesmo chegar. Então, desacelerou de uma só vez, enquanto os rostos esverdeados das pessoas se chocavam com o dela, enquanto o trânsito tornou-se insuportável com os gritos e ecos das buzinas, e logo, os de sirenes também. 

Já menos de uma quadra antes de chegar até o Paternon, não só os carros engarrafados, mas também as pessoas paralisadas pelo ambiente sufocante na Avenida Araújo de Medeiros tornaram inviável continuar dali. E foi parando. Parando. Aproximou-se de uma banca de jornal, a cinco metros do Paternon e perguntou:
- Por favor, senhor, o que está acontecendo? Está tudo parado.
- Pois é, moça... foi um acidente. Ou melhor, uma tragédia. É, uma tragédia. Uma moça caiu lá de cima do prédio novo. Imagina para quem é família dela. Coitados. Uma dor muito grande, deve ser. 
- Do Paternon?
- Isso. Isso mesmo. Disseram que era novinha. Uma moça nova. Pulou. Ou sei lá. Caiu. Se jogou.
- Ô gente. - Sem agradecer a informação, Alê virou as costas para o rapaz da banca e deu mais alguns passos em direção ao Paternon. 

Mas não enxergava mais nada. Uma pequena multidão pipocava, próximo do prédio que orientava-a.  Pensava no Fábio. E pensava na queda da pessoa suicida. Sentia o estômago doer, travar de vez. Esquecia o grande propósito, até. Mais adiante, seus olhos molhados notavam a muvuca. Duas ambulâncias, carro de polícia, trânsito parado. Então seu corpo foi criando tensão para recuar. As pernas voltaram a ficar agitadas e trêmulas. A pressão caiu. Sentou na guia da calçada, uma rua antes do Paternon. Já não poderia prosseguir. O que fazia mesmo ali? Juntou a bolsa no colo, entre as pernas, e olhava para toda aquela paralisia generalizada e enxergava todos numa mesma sintonia. A menina morta, os automóveis impacientes e todas as pessoas que vinham  daquelas bandas, ausentes de coragem, presas no vão da morte alheia. 



Este texto faz parte de uma ciranda literária com o Wilson Franco: errancias.wordpress.com.
Para acompanhar essa narrativa vale ler os seguintes links:
1) Abrir-se-vos-á
2) 
Do Majestic ao Paternon
3) Paternon
4) Do Majestic a queda
Vale a pena acompanhar... 
E a ciranda continua...

21 de novembro de 2011

somos todos andarilhos

       Ao Flavio,  
que deu luz à minha andança 
  
fez-se direção, da necessidade da pausa

Entre ir e ficar, sempre sigo e não quero voltar para o mesmo lugar. 
E o chão presente torna-se lembrança distante, porque desdobrou-se impulso aos calcanhares dos meus pés, rumo ao horizonte.

Entre ir e ficar, nunca esquecer a ebulição na transformação diária. Seja nos cabelos naturais que se descolorem pouco a pouco, quando termina mais um dia; seja ao vivenciar novas dimensões de um pensamento para alguma descoberta.

Entre ir e ficar, torna-se habitat natural qualquer lugar no mundo.
Mas faz-se necessário este lugar qualquer residir num lar, com paredes e chão sólidos.
Sem isso, aos moradores das ruas ou de suas anti-casas: viadutos, bancos de praça, roubaram-lhes a liberdade de ir e vir, partir ou ficar.

Entre ir e ficar, todos migram, nem todos com as mesmas condições, todos se deslocam, alguns mais, outros por caminhadas rastejantes, mas todos partimos, todos os dias.
E àqueles que acolhem nas mãos unidas em conchas alguma utopia, quando aposentarem os pés, (talvez) identifique nos seus passos rastros de poesia.




Para quê serve a utopia? (Por Eduardo Galeano)

17 de novembro de 2011

pausa da necessidade urgente

Fragmentos de silêncios
ou silêncios entrecortados de palavras soltas 

Quando a gente não sabe o que dizer, é melhor calar-se?

Calada fico, nessa necessidade urgente de viver e desabrigar o meu desassossego.

Ando pouco inspirada, mas longe disso ser ruim.  


Ando presa num destes estados de embriaguez atemporal... sem por quê, quando e como.

"(...) ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome 
Nos meninos que têm fome"

Ando refazendo a arquitetura do meus desejos. Acho que por isso, ando mais introspectiva do que nunca.  

Ando sobrevoando por meio de anotações fugazes das histórias que preciso construir.

Ando mudando o meu chão. Tenho refeito os trilhos que preciso seguir, não mais por um caminho de prazeres fugidios. 

Ando todos os dias um longo intervalo, entre um afazer e a constatação de uma nova ideia...

Ando me desarmando para o olhar alheio e aos meus medos...

Ando tão silenciosa, que até as teclas que acompanham as palavras escritas neste texto já me chamam atenção e dão o sinal de que preciso calar, mais uma vez.


(Me dá licença, vou logo ali...)

"Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar..."

(Citações: 1 - Esquadros, Adriana Calcanhotto. 2 - Preciso me encontrar, Cartola)

5 de novembro de 2011

necessidade urgente V (ou Paternon)

A bolsa de tricô debruçava-se no seu colo. E a coluna semi-arqueada segurava todos os problemas dos últimos dias. Não parava de lembrar da briga com o Fábio, do anúncio da separação, da multa na carteira de habilitação, da fome, do Fábio.

Sentou nas mesas da calçada, no restaurante Otelo na Avenida Araújo Medeiros, algumas quadras do burburinho do centro.

Desde segunda-feira, nada descia direito. Estava com a boca do estômago sem espaço, com uma abertura menor que a de um funil, nada passava.

Mas não podia esquecer. Precisava buscar os documentos do carro no despachante, para depois decidir como faria com a mudança e o quase fim de namoro.

Duas semanas fora da cidade e na volta, viu sua vida estatelar-se, sucumbir ao desconhecido. Sem lugar para morar, carro guinchado - por causa do imbecil do quase-ex-namorado - e todos os planos se dissolvendo, mesmo já sabendo que ele sempre foi assim - insolúvel? SporTV e UFC. Na maioria da vezes, na maioria do tempo, os programas prediletos dele. E quando estavam juntos era diferente. Mais por obrigação? Ela sabia. Testemunhou a desordem da vida dele, na sua ausência: a bagunça do apartamento, com a dor que era vê-lo jogado como se fosse um  personagem do Bukowski, sem perspectivas, preso às noites etílicas e desgraçadas. 

Então, acomodada na cadeira mais próxima da rua, chamou o garçom e pediu o cardápio. E a bolsa ali, presa entre as pernas, como quem vai sair correndo a qualquer instante. Talvez por perceber um possível incômodo da  cliente, enquanto aguardava escolher, o atendente gentilmente perguntou:
- A senhorita não quer colocar a bolsa na cadeira ao lado?
- Não, não... está tudo bem... obrigada! - respondeu em seguida, com uma voz rouca, ligeira e baixa.

Olhou a lista dos pratos do dia, no cardápio. Pediu o primeiro do lado direito da lista, salada, contra-filé, arroz, feijão e batata frita. Sem muita conversa,  fez seu pedido:
- Pode ser esse moço, esse aqui do lado direito, PF, por favor.
- Ok, senhorita. Mais alguma coisa? Vai beber algo?
- Por enquanto, nada. Obrigada. Estou bem, estou bem. Obrigada.
A voz balbuciava o pedido, desejava logo a ausência do funcionário, queria mesmo era ficar sozinha.

E com a bolsa entre as coxas, balançava os pés, cruzados embaixo da mesa. Sentia pequenas alterações da circulação do sangue, uma espécie de formigamento? Resolveu respirar fundo três vezes, na quarta vez, sentiu o tamanho da fome. Desde segunda-feira, meu Deus, desde segunda-feira, só consigo chorar - entrecortava seus pensamentos - namorar um imbecil por tanto tempo, meu Deus - e seus pensamentos fugiam e voltavam por seus olhos esbugalhados, atrás do óculos escuro, na inconstância do corpo fraco.

Entre uma resmungada e outra, em forma de soluço para si, abaixou a cabeça e enxergou dentro da bolsa o pacote amarelo, que embalava o presente do futuro-ex-namorado. Lá estava o boné com o logo do Tolima. Havia comprado na loja de conveniências do aeroporto. Sabia que ele ia gostar. Apertou a bolsa para não lembrar, para não chorar. E as pernas começaram a formigar de novo. Balançava os pés nos sapatos como quem poderia tomar impulso e desaparecer, ou como se pudesse decolar como um helicóptero ao contrário. Os cotovelos batiam na cintura, de leve, num sinal de que o corpo inteiro expandia-se na cadeira. Era quase meio-dia, o sol a pino, a saliva seca e o coração sintonizado com as batidas dos pés, um no outro, embaixo da mesa, sem ritmo, cada vez mais rápido. Foi tentando respirar, um, inspira, expira, dois, inspira, expira, do mesmo jeito que aprendeu nos exercícios de meditação. Inspirava. Expirava. Vai, Alê. Inspira e expira. Olhou mais uma vez para a bolsa, quase afundando pelo assento, via o pacote amarelo e buscava um jeito de não buscar o nome dele. Mas naquele instante já apareciam todas as letras F Á B I O. Puxou mais ar e como quem prevê o horizonte, enxergou o prédio Paternon, o mais novo empreendimento imobiliário da região, no final da Avenida Araújo Medeiros. Duas quadras do quase-ex-apartamento deles. Lá estava, Paternon e a presença do Fábio aos arredores. Foi subindo os olhos, a cabeça, o pescoço e enxergou a bandeira do Brasil, que flamejava e deslizava no ar, do 35° andar. 

Será que já estava acordado?  

Olhava para o topo do Paternon, e a bandeira abarcava o sol quente e o vento. Na mesma agitação sua, enxergava o Paternon craquelar-se, num piscar de olhos, a bandeira não flamejava mais, empalidecera. Já era meio-dia? Parecia haver uma escuridão ali. Vai chover? - achava que sim. E foi trazendo os olhos de volta para o meio das pernas, para a bolsa entreaberta - com o pacote amarelo. Sentiu um aperto daqueles igual saudade, igual a tristeza das ausências, das rupturas, das separações. Inspira e expira. Inspira. Expira. Desconexa de qualquer sensação de realidade, esmagou a bolsa no colo, e trouxe o rosto para frente, já sendo observada pelo garçom com a bandeja em sua direção:
- Moça, seu almoço está aqui. A senhorita quer mais alguma coisa?
- Não, obrigada.
Falou num tom só. E continuou, sem qualquer simpatia:
- Por favor, quanto é esse prato? Não vou comer, não. Toma aqui, pega o troco pra você. Tenho que encontrar o Fábio. Obrigada. Mas preciso ver o Fábio agora mesmo.
Disse tudo de uma vez, vomitando angústias e renúncias, medos e irrealidades.

Saiu da mesa com a bolsa aberta, e o garçom perplexo, estático com os pratos nas mãos.

Em passos largos, desdobrava-se para enfrentar aquela longa avenida em direção ao Paternon. Pernas trêmulas, precisava encontrá-lo, de qualquer maneira.

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)


Este texto nasce paralelo ao conto do Wilson Franco: "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/


4 de novembro de 2011

necessidade urgente IV

Alê, seu atual estado civil é quase-solteira. Você acabou de sair da casa do seu namorado, talvez para não voltar mais. Não aguenta mais conviver na bagunça daquele apartamento, das roupas espalhadas pelo banheiro, panelas sujas de feijão, junto com o pirex de macarrão de domingo na pia; e mais, todos os copos e canecas espalhados pela casa inteira. E tudo isso porque você esteve fora da cidade, por duas semanas, o suficiente para seu quase-ex-namorado desajeitar qualquer chance de convívio entre vocês. Porque quando estão juntos, suas regras são seguidas, e você fica lá, ou ficava, sem agressões verbais, por gostar muito dele, você explicava a ordem das coisas, numa espécie de mãe-namorada ou namorada-mãe. Uma série de negativas, Alê. E você resolveu ir embora. Ele não saberá ficar sem você, ele sabe disso. Por um tempo, algumas longas semanas, tudo vai desabar. Porque é isso, você vira as costas e ele desaba. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Estes serão seus novos companheiros. Cuecas usadas embaixo da cama, meias que fedem igual panos de chão encardidos, resto de creme dental pregado pela torneira, o desastre masculino de um quase-solteiro. 51 Mix, SporTV, UFC. UFC, SporTV, 51 Mix. Até quando, Alê? E você aí, ainda pensando se fez a coisa certa, não é? Todo cotidiano dele preso em vacilos. Quando cairá em si - você e ele - ?

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

Alê é uma personagem que já tinha nome, mas não tinha passado nem futuro. 
Porém, por coincidência, depois de ler um texto do Wilson Franco, com um personagem de mesmo nome, Alê surgiu.
Mas sabe o que é mais interessante?
A Alê do Will está num conto dele inspirado num outro texto meu (Abrir-se-vos-á).
Aqui ó, "Do Majestic ao Paternon", de onde nasceu a Alê:
http://errancias.wordpress.com/2011/11/04/do-majestic-ao-partenon/

Uma verdadeira ciranda literária!


2 de novembro de 2011

necessidade urgente III

e vou formulando os seus sentidos como quem decifra o segredo de se libertar
Alê Mathias, nem sei bem qual é o seu sexo.
com este nome você poderia ser hetero, travesti, gay, qualquer orientação sexual caberia. será?
então, vou deslizando por palavras na tentativa de me aproximar da sua existência e me sinto como quem transa pela primeira vez. é isso. você é meu personagem e eu tenho todo o seu corpo nas minhas mãos. 
só preciso aprender a despir você.
saber o seu tempo, entre colocar os pés para fora da cama até entrar debaixo do chuveiro para o primeiro banho do dia.
como você faz para cortar os pães, começa de uma ponta para outra, ou somente pelo meio? você come frutas? 

(continua, 'necessidade urgente' minha de narrar uma vida, uma história...)

31 de outubro de 2011

necessidade urgente II

e agora bato os dedos nas teclas e farejo seu corpo, suas vestimentas, a cor dos seus olhos pela manhã, seu jeito de dormir em noites de ventania, sua maneira de falar ao telefone, a voz mansa para dar tchau, a ausência de simpatia, e vou te construindo como quem tece a própria vida, já tenho um nome para você, Alê Mathias.

necessidade urgente I (*)

começar pelo meio, logo, não pelas beiradas, mas pelo recheio, das camadas mais profundas, de onde não se vê os lados, ou as periferias, lá de onde o vulto entorpece a razão e significa solução, poderia ser das entranhas, ou do âmago, ou do estômago poético, do miolo, longe dos extremos, construir sua vida sem vírgulas, 
personagem da narrativa que ainda não sei habitar. 

(*)  necessidade urgente é a narrativa vivenciada do meu meio, da minha metade afogada em silêncios não banais.

25 de outubro de 2011

abrir-se-vos-a

Abriu os braços para pular.
Do trigésimo e quinto andar.
Do alto do seus vinte e um anos.
Abriu os braços para descer ao chão.
Braços abertos para acolher a gravidade na queda.
Lá do alto.
Seu corpo esquálido, sua boca amarga e seus pés soltos.
Para o pulo.
Desfazer-se em carne viva no asfalto.
Os passantes ainda não a enxergavam.
Por fração de segundos, ninguém a esqueceria.
Nunca mais.
As buzinas já começavam a soar.
Entre o asfalto e o alto do Edíficio Partenon, planaria?
E depois da queda, sossego?
Veio o impulso.
Do alto do despero, não apoiou-se mais nos pés.
A atmosfera desembaraçava-se, enquanto ela caía.
Descontínuo solo.
Corpo espaçado, corpo mutilado.
Ao sol do meio-dia, SP, 29 de abril de 2008.

19 de outubro de 2011

eu literário

queria ser
micro conto
lírica
e encanto

mas não sei
só penso
atenta
não descanso

meu eu é filósofo?
eu, contradição.

18 de outubro de 2011

passa em casa, tem bolo

tem chá
tem café
tem almofadas pelo chão
tem cheiro de doce de framboesa
tem o Murilinho correndo pela sala
tem as cortinas avoadas
tem o sol marcando sombra nas plantas
tem a Lila escondida no vãozinho do ármario do corredor
tem meus abraços
tem colo da vó
tem uma gargalhada na espreita por uma história nova sua
tem a espera
com café
com chá
com o chão coberto de almofadas
com bolo recheado de doce de framboesa
com o Murilinho aos pulos
com o vento nas plantas
com a Lila de olhos arregalados por um carinho
com a vó nos observando de tão feliz
com o meu gosto pelos seus causos
com a vontade de vê-lo aqui
em casa,
vem logo, tem bolo!

puento ciego (IV)

Dois tiros. Pá Pá.

.
.

Enquanto limpava o sangue da roupa e corria, sua sombra perseguia-o.

16 de outubro de 2011

uma nota só ou duas irmãs


ouvi o canto da Mônica Salmaso ao seu lado e no outro dia sonhei com você. 
e você também sonhou comigo. 
a cantora nos viu lá do palco, como almas irmãs de canto de líricas de vidas artísticas? 
nossos sonhos cruzaram os destinos.


será que quando sonhamos com alguém nos transportamos para perto da pessoa? 
será que pulamos ruas, canais, desviamos de tudo e por fim, nos juntamos numa realidade só?


(ornar nossos sonhos e possibilidades e depois fazer do plano real um espaço lírico como um palco)


(encontrar uma sintonia de canto e sopro, igual a Mônica e seu marido, ela orquestra-o no olhar, ele segue a voz dela, amantes do mesmo cortejo)


(viver a música e a voz e o silêncio num espaço lúdico para um público e depois se vestir de dias e dia a dia)



dee dee minha irmã menininha, os sonhos equilibram as emoções não contidas? 
no meu sonho você já era uma mulher.
e no seu? quem sou?
por acaso nos encontramos no meio da cidade entre palavras e tintas e gritos familiares e silêncios serenos, da prece que não falaremos jamais?


quando esquecermos o passado, ainda seremos uma melodia só, de sangue e sonhos.



10 de outubro de 2011

professor Carlos

Como pode alguém nos modificar tanto, em tão poucas horas, só pelo coração?

Eu já pressentia a mudança. 
E você chegou até mim e me abençoou com palavras de verdade.
Eu que sempre busquei, a verdade das palavras, a verdade do olhar, a verdade do caminho.
Um dia me pediram para deixar de ideias fixas, sobre as verdades.
Fiquei quatro anos na graduação de Filosofia, e nunca consegui entendê-las.
É bem verdade que comecei a desistir.
O tapete da traição me foi tirado.
Fiquei lá, estática, com olhos melancólicos e quase sem pulso.
E tive que aprender a fazer as malas, mudar o rumo.
Mesmo com algumas verdades no bolso.
Os homens são perversos.
As cidades são desertas.
E a vida não acaba porque você perdeu seu chão.
As crianças continuam crescendo.
Os pais não desistem de cuidar de seus filhos.
Porque o mundo ganha sentidos em novos encontros, mesmo que a gente não perceba de verdade.
E todo sonho perdido volta de fantasia nova.
Transforma chão áspero em verdade flutuante.
Depois daquele 8 de outubro, tomei minhas verdades de novo para mim.
Não a verdade do Aristóteles, Nietzsche ou de algum trapaceiro de plantão, mas a verdade da crença do suor nas mãos, cheio de construção atual.
Verdade mesmo é poder olhar nos olhos e piscar no segundo seguinte para guardar o amor.
Tem verdade na gratidão!
Obrigada.





sonâmbula virtual

tem alguém aí?


Você já dorme. Eu, não.
Meu corpo não reluta pela novidade.
Vou devagarzinho na busca de novas palavras, novas conversas e você, caiu no sono, dorme. A luta com a insônia resulta em conseguirmos fechar os olhos. E você, dorme. Enquanto minhas células seguem seus ciclos, mas na promessa de um novo frenesi, nas horas antes do meu sono noturno; você, dorme.
Contei uma teoria, antes de você dormir, contei sobre a minha lei sobre amar. Você dormiu. Não quis ou aguentou ouvir até o final. Ah, Meu Deus. Teorias que dão sono estão mortas de vida?
Eu sei, eu sei. Palavras não podem ser bambas, muito menos no amor, só nas composições dos grandes mestres sambistas. É, não posso me dar esse luxo, de palavras malemolentes. Tenho que ficar alerta. Viu? Você dorme.
Azar meu. Faço barulhos com as teclas do computador. Como quem não quer saber de nada mesmo.
Dorme aê.
Gostaria de terminar isso aqui, como quem acorda e desperta e acha uma surpresa, um outro desfecho para o destino.
Não durma mais antes de mim, por favor. Tenho pesadelos, acordada, quando durmo sem você.

25 de setembro de 2011

puento ciego (III)

Olhou para mim com olhos de cereja. Não titubeou em nenhum segundo. E continuou a me olhar, como quem ganha um presente surpresa. Não entendia se olhava mesmo. Mas olhava.
E logo uma avenida nos alargava. 
O seu olhar fixou-se, preso no meu varal de desejos imunes. 
Então passei a sentar na mesma cadeira do restaurante da Araújo Medeiros, nas mesas da calçada, onde nos percebemos pela primeira e única vez. 
Nos outros dias, aguardava ansiosa sua passagem por ali, enquanto almoçava. 
Queria pedir informações suas. Será que alguém por ali saberia da sua rotina?
Passei a pensar num anúncio no jornal da cidade. 
Nenhuma informação precisa.
Somente aquele olhar delicado como seus passos, que ficaram para trás. Porque não tive a sua rapidez, para responder e mostrar-me nos meus olhos.