17 de setembro de 2011

decupagem

No primeiro semestre deste ano, fiz uma oficina literária, ministrada pelo escritor Marcelino Freire. 
Foi um momento bastante especial, descobri o quanto escrever é importante para mim. Ganhei coragem para encarar a escrita e seus meandros. E de lá pra cá, ando pegando o boi pelo chifre. Escrevo e leio mais e mais, para um dia dar um rumo, um norte para o meu interesse pela Literatura. 
E no curso escrevi um texto chamado Decupagem, que tinha o tema: uma grande saudade. Daí, tal texto teve uma boa repercussão, do Marcelino e das pessoas que ouviram a minha leitura. 
Assim, ganhou um sentido tão interessante, que tive a ideia de transformá-lo num curta-metragem.
E esses dias, o destino colocou uma garota bastante sensível para essas coisas, de vida, amor e existência, no meu caminho. A Noelle é diretora do curta A janela poética, que acabou de participar do Curta Santos - Festival de curta-metragem de Santos.
Apresentei o texto e pedi para ver se via ali um filme.
Dito e feito, comprou a ideia. Em breve, acho que Decupagem vai ganhar vida cinematográfica.
Então, para os meus amigos leitores acompanharem, deixo-o aqui.
Mas além disso, publico também (logo abaixo) uma leitura dela, linda por sinal, para o futuro filme - tomara!

Decupagem


0:02/ 2:46

Meus cabelos ganham movimentos como marolas.

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É o começo do vídeo, Márcio e eu, indo até a Biquinha. Estamos no ônibus 08: Ponta da Praia/ São Vicente – orla da praia.

*

Domingo de outono. Poderia ser mais um domingo. Ou um outono daqueles quando todos estão em queda simples, para tempos reclusos.

0:10/ 2:46

Márcio maneja a câmera e brinca com as ondas que terminam na direção do meu cachecol. O trajeto era o mesmo de todos os dias, mas estávamos desfigurados em quadros sem galeria.

*

Eu ia sentada do lado da janela.

*

Ali, naquela cena, lembrava me sentir como o desconhecido de um livro novo.

0:25/ 2:46

Todos os detalhes são capturados. Desde o mar pela janela até o zumbido do vento que corta sem direção as covinhas do meu sorriso.

*

Juntos há três meses, o programa daquele dia foi um fim de tarde para onde ele se referia como o melhor lugar da cidade. Nada mais clichê para o romantismo, íamos ver o pôr-do-sol.

*

Guardava uma ansiedade controlada. Desconfiava se era capaz de medir a verdade sobre nós.

1:15/ 2:46

Meu rosto segue paralelo à linha da orla da praia. As lentes seguem aquilo que não enxergo ao longe.

*

Estamos sentados na fileira do lado esquerdo, nos bancos mais altos. Aqueles disputados por crianças, que sabem ver dali idas e vindas de carros e transeuntes.

*
Sem volta, a cumplicidade demarcava um lugar para nós dois, dois em um.

1:58/ 2:46

Olho para você. De novo, meus cabelos em descompasso se desalinham com o branco e azul do mar ao norte. Márcio filma quase tudo.

*

A praia está vazia. E as pessoas circulam pelo calçadão. Guarda-se a calma da estação dos poetas que decidem adiar o suicídio. É impossível desejar morrer no outono.
*

Não sabia mais zelar meus gestos, todos eram para mantê-lo perto de mim. Sentia cada batida do meu coração como a cuíca de uma roda de samba. Minha devoção pelo nosso namoro era a mentira de quem não sabia nada sobre amar.

2:22/ 2:46

Volto os meus olhos para a janela, na direção do nosso destino. Márcio flagra um silêncio passivo.

*

O mundo torna-se plateia e cenário, meros figurantes.

*

Estava rendida. Já não havia possibilidades para não amá-lo.

2:46/ 2:46

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*

Saudade do amor involuntário.

Day  Rodrigues
maio/ 2011


"saudade do amor involuntário"

a disposição é uma coisa que acontece delicada. quase me pega pelo colo, no balanço deste barco no asfalto, no dispensar de toda preocupação. tenho márcio em meus olhos, mesmo que ele tenha posto o rosto a me olhar e só. engraçadas são as coisas de agora. a tudo que é eternizado, é engraçado, parece lhe cair sobre certa seriedade. "saudade do amor involuntário", foi assim que decidi chamá-lo. agora, sentada,  já não posso decidir quase nada. pois que márcio me torna paisagem, sorriso, completude.  


há pouco pensei em dizer para que descêssemos daqui, que pulássemos pela janela, que rolássemos pela areia. precisava tocar-lhe, sentir dele o cheiro real de sua presença. ao mesmo tempo, sua observação caía doce sobre mim, como parte de tudo, como anjo sem asas, me fazendo sentar outra vez. eram essas as duas naturezas. márcio, você me vê. eu era vista. eu era sua imagem de hoje. e hoje, para mim, tem o seu balançar de braços a me seguir.


acontece que agora, quando assisto a mim, minha falta se sincronicidade me irrita. mas eu sei que ele conseguiu capturar minha forma mais pura, mais simples de mim, minha agitação, talvez. minha urgência de viver.

Noelle Falchi

"eu que não sei quase nada do mar"

Para Bri


eu nunca soube muito de barcos. 
desde muito cedo, ouvia seus apitos nas manhãs da minha infância. navios que saíam do porto, atravessavam a Ponta da Praia, onde eu morava, e partiam para lugares distantes de mim. 
meu pai sabe. é um portuário nato. trabalha no ramo há mais de trinta anos. 
eu, não. sei do zumbido. do zuuuuu. do adeus em silêncio.
eu também nunca conheci um marinheiro contador de causos. e muito menos pratiquei surf. 
mas sei do cheiro da maresia. sinto-a quando coloco os pés na rua, quando saio de casa. porque morar na praia tem dessas peculiaridades. cheiro de mar/ sal abraça-o diariamente.
a minha paisagem rotineira, quando residia num dos extremos de Santos e precisava me deslocar pela cidade, era a orla inteira. só pra mim. sentava no banco mais alto do ônibus e olhava para o infinito, como quem faz uma prece para começar a labuta. 
hoje, fiz um barquinho tatuado no braço, é vermelho escarlate. marca um momento especial, de rupturas, e fecha um ciclo. talvez, o retorno de saturno, segundo a leis dos astros. diz de mergulhos. e de um amigo vidrado em barcos de papel.
diz do meu amor e o mar.
eu que não sei nada do mar. 
nem de amar.





"Eu que não sei nada do mar", por Maria Bethânia

14 de setembro de 2011

sem entrelinhas

Frente da cinemateca francesa - por Bryan Faustino
Palavras são bambas. 
São carniceiras ou mães possessivas.
Palavras não têm cor.
Estão livres de cotas.
Palavras escapam da lama dos mendigos.
Palavras vivem em bordéis e sacristias.
Nunca estão sozinhas.
Vendem a vida por outra palavra.
Palavras não saem pela culatra. 
Têm passado e futuro.
Palavras carregam fome.
São aprendizes de outras palavras.

Palavras se aborrecem.
São polidas, se bem atendidas.
Não têm identidade, nem raízes únicas.
Brotam do soluço dos loucos.
Palavras não têm ideologia.
Palavras ficam firmes, quando empacotadas em bibliotecas.
Não reclamam salários, nem pensão ou fundo de garantia.
Mas palavras não se adaptam.
Perdem a compostura.
Palavras dançam.

Todas as minhas palavras estão aqui
de trás pra frente
de lado,
esquerda,
direita,
para você me enxergar -
nua.


*Post escrito depois de assistir o curta-metragem A janela poética, e ouvir a diretora no debate, após a sessão do filme, perguntar para a plateia: por que você se entrega?; e lembrar as janelas das quais já me debrucei e todas aquelas espelhadas nos meus desejos, que não cessam a busca por outros saltos e novas entregas...

12 de setembro de 2011

puento ciego (II)

Sobrava ausência.
Entre sorrir e labutar, nunca tomou nenhuma decisão.
Ameaçou,
fuga.
Atravessou noites pueris.
E continuou...
para além do suicídio:
guardou-se
entre vão e abismo.

10 de setembro de 2011

puento ciego (I)

Assim, não. 
Não consigo enxergar até aí. 
Deste modo, não.  
Não aos jogos morais, meu senhor. 
Mais uma vez, digo, deste modo, não. 
Sim, há uma senha para o motim. 
E você vai ver, nunca será declarada. 
Não, deste modo, não. 
Lá, lá mesmo 
Não se vê. 
Ninguém vai ver. 
A verdade vai falhar. 
Prepare-se!

Sempre...

30 de agosto de 2011

a procura do rio Paraná

Para Deus Netuno


do contra, atravesso mar adentro


ilha por ilha


só por contravenção




histérica, e sem choro


dia a dia


só pra não não me violar




batizo-me






mas nunca ganho um cais


.
.
.


Ps 1.: Um mergulhador me contou, o rio Paraná é mais profundo que o mar.

Ps2.: Disse também uma amiga, pra aqueles que não conseguem aportar, resta amar. A-mar.

15 de agosto de 2011

a minha vida pesa uma tonelada

falta bem pouco. falta pouco mesmo. será daqui quinze dias, quase. é. meu aniversário. nunca penso muito nisso. fazer mais um ano, aumentar as primaveras, como dizem os avós. nunca penso porque sempre tive juventude a mais, e problemas de menos com a idade. 


ter vinte e poucos anos não é chato. na verdade, é tão suportável quanto a (inexistente) preocupação com uma festa no final de semana. pois, pense, se você tem uma festa pra ir, num sábado à noite, a última coisa a se imaginar é o tempo que vai durar, quando sabe que vai encontrar pessoas legais, biritas e muita música.


mas hoje acordei estranha. pensei no número 29. e lembrei de toda a minha agenda, até o sábado do dia 27 de agosto. muita coisa. não cabe na palma da mão, não cabe na organização pouco sistemática do meu cérebro. porque no fundo da verdade, queria mesmo era jogar tudo pra cima e sair correndo, não como quem vira as costas, mais mesmo pra alivia-la, do peso da responsabilidade.


ontem no almoço da família, pela primeira vez, meu pai não sentou na cabeceira da mesa. sentamos, minha irmã e eu, uma em cada ponta. o pai já não faz questão daquele lugar. e aprontei o prato principal. liguei para o irmão que está distante para saber as novidades. discuti com a minha mãe as questões previdenciárias atuais e dei dicas para a vizinha, que não sabe o que fazer com a filha pequena e danada. fiquei me sentindo a conselheira de um clube.


notei: minha opinião é importante para aqueles que já foram referência de vida ou morte - até - para mim. parece que cada vez mais serei chamada de tia pelas novas gerações. e todos os meus compromissos são meus, desde cuidar da saúde até decidir se vou embora pra bem longe ou chuto o rei.


não, isso não começou ontem. mas hoje bateu diferente. deve ser o inferno astral, um problema hormonal desconhecido ou a vontade de viver mais com menos. 


tá bom, amanhã é terça-feira e já será tarde para pensar tanto.
e respiro fundo  para não esquecer de nada, nem de mim.

7 de agosto de 2011

sujeito oculto

Vende-se
Aluga-se
Procura-se
Se desespera.
Pede-se
Cala-se




E lá se vai outro dia do mês de agosto, longo e ao gosto do se.


Vai-se


Pendura-se 
no varal 
roupas maltrapilhas 
cheias de Omo.


Se não fosse agora o cheiro dele ausente ali.

17 de julho de 2011

free fra fra free

Eu poderia continuar sendo a mesma. Mais uma semana, mais uma segunda-feira qualquer. Sete horas da manhã, café, banho, leitura rápida das manchetes do jornal impresso, bom dia, padeiro, olá, como vai, moça da floricultura. Cotidiano assim e pronto, para todos os outros dias daquela primeira semana de julho. 

Mas de repente, não mais que de repente, atravessam em direção à livraria onde trabalho, no final do meu expediente, estrangeiros e vidas musicais distantes do Atlântico, a banda holandesa Fra Fra Sound. Somos apresentados pela minha amiga. Nos aproximamos, digo, Hi, my name is Dayane e só. Tento, How are you. But... Meu inglês trava. Sem diálogos, não me culpo pela ausência de comunicação. No portuguese, no english, ok ok for us. Era o que tínhamos para ontem.

Terça-feira, depois quarta... quinta-feira... e as barreiras das línguas vão se tornando menores. Vou na apresentação da banda e um susto, a identificação imediata, danço e interajo por aquele som peculiar, universal. As travas se perdem pela linguagem do movimento em torno da música. No english, no portuguese, fuck off. Se você se liberta, você dança, você expressa para o outro, que poderá entendê-lo profundamente.

Estrangeiros estão abertos, sensíveis para as novidades, minha amiga. Sim, em uma semana também virei estrangeira na minha cidade, no meu bairro. Acompanhei a comoção etérea dos artistas que aportaram perto da minha realidade. E o diferente para eles, as pessoas, os costumes, os canais, as ruas, mais o conhecido por mim, Avenida Ana Costa, Bar Torto, Bar Galeria e a Livraria Realejo, juntaram-se num espaço só.

Tudo igual, aqui, e tudo chacoalhado ao longo dos dias, para todos.

Ouvi mais das músicas da banda em mais um show. Depois, fiquei por perto só para ouvir as conversas, das quais não compreendia, mas imaginava porque meu inglês não é tão ruim. Entre uma palavra e outra, entre o vocabulário desconhecido e aquele que ressurgia da minha memória, ganhamos pequenas intimidades.

Então chegou a hora da despedida e me dei conta, mais ainda: ganhei liberdade dentro dos meus dias, dentro da cidade que conheço tão bem e por isso me sufoca tanto. Me permiti ser-estrangeira, me permiti brincar com o idioma alheio, mesmo sem certezas do que estava falando. Vesti um espírito de quem transgride as próprias condições diárias, a mesma praça, o mesmo trajeto, tornando-os distantes, líricos... (dentro de mim, dentro da minha Santos).

O mar já não era só horizonte, a serra não só um caminho de partidas...

Viajei sem passaporte, encontrei novas direções para os próximos meses.

Thanks, Fra Fra Sound. Saudades!

20 de junho de 2011

(da posse do verbo ter)

Tenho escrito pra poucos. Tenho pensado tanto, que tanto faz, se é dia ou noite. Tenho descoberto palavras. Sim, querido, tenho anotado todas. Tenho sentido vergonha da paixão. Tenho feito muitas exceções. Tenho sonhado com uma casa na praia cheia de filhos e amigos. Tenho fabulado romances. Tenho poucos meses pra começar o fim na minha aldeia. Tenho abolido o passado. Tenho amado mais ainda as pessoas que me acompanham todos os dias, mesmo na distância: Santos X  São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Piauí, Berlim. Tenho guardado lágrimas por trás da maquiagem. Tenho preservado o escândalo de não conseguir me controlar e entender. Tenho me aproximado de rapazes tímidos, incapazes de me seduzir só por uma noite, porque querem mais do meu sorriso. Tenho vendido esperanças a prazo. Tenho saído do útero do mar e olhado para o amanhã que nunca tarda em chegar. Tenho pisado pouco no chão. Tenho virado balão.
Tenho notado toda constelação perdida em noites bem dormidas.

16 de junho de 2011

desanuviada

Tiro mais café e deixo dissolver toda minha enxaqueca no fundo do copo.
Mais três cigarros, uma tragada, uma fungada.
Xícaras guardam borras de café que mais parecem segredos improdutivos.
Ao acordar leio o meu horóscopo. E leio a borra do café. Só que tudo isso não compromete a minha rotina.
O meu humor é bom se consigo dizer 'bom dia, dia', mesmo em silêncio.
O inverno está chegando.
Tenho confessado todas as minhas mentiras. Mentirinhas só pra mim.

Tiro mais café e deixo dissolver todo o meu nervosismo. Sinto dor no estômago.
Outro cigarro. Não sinto mais cheiro, doutor.
Decido também por uma breja em copos tipo requeijão, cheio de boêmia. 
Quando está perto do meu aniversário, acho que está na hora de fazer um mapa astral. Mas nunca fiz. Tenho medo de saber tudo.
Ando mal humorada pra cacete. Deve ser a falta do que falar.
O inverno é daqui cinco dias.
Quero escrever um livro de mentiras bem contadas.

.

Só café, cigarro, cerveja e literatura me salvam pros próximos anos...

9 de abril de 2011

recado para B.

"Pode-se matar tudo, menos a nostalgia, que levamos na cor dos nossos olhos (...)"
(Cortázar, em Jogo da Amarelinha)

De um cartão postal, da amiga do B., direto de Paris, me remeti ao que muito não fazia: mandar cartas ou deixar bilhetes escondidos. Está aí um gesto que sempre apreciei. Só que de uns tempos pra cá, fui deixando isso de lado, assim mesmo, no gerúndio. Mas confesso que sinto falta da doação sem cobrar nada. Porque é isso, sentimentos em guardanapos ou papéis cortados da última folha do caderno têm custo zero, a existência daquele que recebe vale para quem dá.

B. recebeu o postal da amiga e de lá pra cá, só penso em enviar uma carta ou cartão. Preguiçosa de carteirinha, quase presidenta do clube dos "deixa a vida me levar", fico sujeita a abandonar a ideia de mandar um: alô, alô, estou em Santos, é outono, meu amigo, já até comecei a tirar alguns casacos do armário pra lavar, quase faz frio; e você, como está? Em meia dúzia de palavras um encontro à distância, breve surpresa para quem está longe.

Então, comecei a pensar que mais de uma pessoa poderia receber o meu cartão, carta ou qualquer agrado em grafia minha. Ôxe, se sofro pra passar por todas as etapas (rascunhar o afeto, ir aos Correios etc) e mandar uma só carta para uma pessoa, imagina duas, três. Lembro que hoje não vai dar tempo e me afundo na pré-disposição. Segunda-feira, farei com certeza, juro pra mim.  Só não me dou por satisfeita, com a embromação.

Olho para o lado, vejo o cartão da amiga do B., penso na Ci, lá em Berlim, na minha prima do Piauí. Tá bom, hoje é sábado, sem falta, depois de amanhã. Prometo, de novo, sem jurar.

Paro de pensar no que estou adiando, pego um post-it. Colo na geladeira, escrevo assim: B., hoje, fazemos um ano de casa. Eu te amo!

E venço a primeira fase de palavras não remetidas.

Ps.: B. é o Bryan, para quem conhece.
Bryan é um dos grandes responsáveis pelas minhas palavras neste blog e outras que andam surgindo por aí.
Pois, todos os dias, me ensina algo diferente, que me enche os olhos de poesia.


18 de março de 2011

Deixei a porta aberta. Uma fresta era o suficiente para você saber se poderia mesmo entrar.

Você não veio.

Fiquei acordada a noite inteira...

7 de fevereiro de 2011

intervalo

Já no terceiro dia da sua viagem, descobri que não sabia o tempo de cozimento do feijão. Fiquei perdida com a quantidade de sal do arroz, esqueci de recolher o lixo, antes do caminhão passar às seis.

Tive que estabelecer algumas regras mínimas de sobrevivência. Lista de compras na porta da geladeira. Contas básicas de funcionamento da casa, todas enfileiradas em cima da mesa da sala e assim, não correria o risco de ser visitada pelo técnico da CPFL ou ter o telefone mudo por alguns dias.

E enquanto isso, as roupas começavam a acumular no fundo da área de serviço. Sem nenhuma calcinha limpa, quinze dias depois da sua partida, os meus biquinis passaram a ser roupas íntimas também.

Coitada da minha mãe, nem foi isso que me ensinou, estaria revoltada, se soubesse do meu jeito patético dos últimos dias.

Só que eu não estava muito interessada em saber a opinião alheia.

Só pensava em respeitar aquela falta do seu caminhar entre quartos, e o pouco de mim que reconhecia.

Uma semana correu, e passei dos legumes cozidos para a lasanha congelada, dos sucos de frutas para aqueles de pacote, efervescentes.

Algo me revoltava, essa era a verdade. Estava sem as suas referências, estava sem as suas direções. Pois se, sempre fez questão de tomar as rédeas de tudo, nunca me deixou ligar para comprar a água engarrafada, os seus mandamentos me guiavam e eu sabia disso. E como nunca me importou fazer o contrário, estava bem desta forma.

Sendo que penso, não posso ajudar, não atrapalho e logo não brigávamos, e a paz imperava. Só que eu não sabia que paz demais pode ser vida de menos. "Não há paz evitando a vida, Leonard"!

Então, comecei a viver como achava que poderia. Tranquei a porta do escritório, me desliguei da internet e de todos os seus livros arrumados na estante. Não queria lembrar da minha ignorância e da sua soberania intelectual.

Passei a dormir na sala. Os jornais tonaram-se uma pilha e só. Não os lia.

Meias pelo chão. Sapatos virados e dispensados por toda casa. Nada tinha lugar certo. Porque eu queria destruir a sua organização em mim. Queria dizer pra mim mesma o quanto tenho a minha vida nas minhas mãos. Você me acostumou mal e a culpa era minha.

Três semanas, você ausente e eu buscando me colocar no meu cotidiano. Fui tentando não precisar mais de você, até que chegou o dia da sua volta. Recebi um SMS: "Minha princesa, me espera para o jantar. Já chego, já. Pode deixar, farei uma comida gostosa pra gente".

E arrumei tudo, fiz compras, lavei o banheiro, roupas de cama na máquina de lavar.

Já não era só você lá, eu tinha o meu jeito de morar.

5 de fevereiro de 2011

dois de fevereiro

Era dia de Iemanjá.
As previsões do tempo não confirmaram ausência de chuva, mas nem por isso os convidados deixaram de apostar no luau da Futuráfrica em homenagem à rainha do mar.
E lá fomos nós.
Os pisantes eram chinelos de dedos. Os trajes, brancos, ou leves, ou pouca roupa ou como bem quisessem, porque a celebração foi à beira-mar.
A música rolava num set list vibrante.
Pés na areia, dedos mergulhados em chão fugaz. A luz do dia decrescia e mais pessoas se aproximavam com suas flores e outros mimos, presentes para festejar.
Mulheres quase havaianas aportaram primeiro, e moços trazidos por caiaques, depois.
A noite iniciava sinais de chuva. Água no mar. Chuva do céu.
Os dj's continuavam a chamar a alegria entre todos, um sentimento coletivo anunciava-se. A liberdade diante do mistério das águas que nos rodeavam.
Mar.
Chuva.
Mais arranjos de flores foram oferecidos. Colares coloridos, distribuídos. Nenhum sinal de perigo. Conversas trôpegas. Corpos molhados em passos espaçados, pela areia, dentro do mar.
Não precisávamos falar muito. Bastava sentir, bastava acreditar.
E Iemanjá foi reverenciada por risos, amigos e pela vontade de deixar a vida com a força de amar o mar.

10 de janeiro de 2011

sem mais

Algo entre o simles e o genial poderia ser muito mais legal.
Eu acho que não quero uma casa no campo, e tampouco a estupidez do asfalto.
Hoje, surgiu uma promessa: um hábitat natural (em mim), que não tem a ver com uma tal sonolência fria alheia e também não migra para "alegrias" estranhíssimas, em tempos de hype e blasés.
Só quero ser.
Nada mais.

21 de dezembro de 2010

in vitro

Turva como o vento inacabado, viu-se em desalento.
Era uma solidão de dar dó. Só.
As paredes frias seguravam e asseguravam o seu corpo desmoronado.
E certa tristeza infantil rondava-a.
Feita de silêncio (demasiado) pertubador, chacoalhava o pranto ensurdecedor.
Noite de imperadores. Fazia plantão a morte do medo de ficar.
Olhos fechados.
Começou a debater-se.
Era redoma acrílica.
Gritou! Susurrou.
Cores de todas as tonalidades penetravam os poros da pele, lutavam para atravessar a sua rotina, retida na retina.
Precisava sufocar a dor de fora, pincelada sem seu consetimento em dias reclusos adentro. 

Explodiu-se.

Decantou-se. Uma outra de si.

E não mais acordou para aquele prisma amalgamado, senhor de seus sonhos intranquilos.

29 de novembro de 2010

nada criativo

Uma página em branco pode ser o começo para uma longa novela - daquelas dramáticas: mexicana -, quando quero escrever qualquer coisa, alguma coisa, sobre algo ou alguém ou para ninguém.

Antigos vestígios de palavras pessoais, nos papéis perdidos da gaveta da minha escrivaninha, ainda me fazem sonhar com palavras bambas, literárias, escritas para este blog. Afinal, gosto dos textos confessionais, embora nem tão reais, quase sempre. Gosto da primeira pessoa na narração, gosto da narrativa sem verborragias, com muitos ou poucos adjetivos, isso fica por conta do dia. Se o dia é bom e claro, adjetivo as sentenças, mas, um dia mais assim, assado, melancólico, por que não?, crio linhas desanuviadas, esperançosas por um ponto final para a angústia.

Blá blá, um dois três, faço contagem progressiva até trinta e bato os pés em baixo da mesa, sim, aí o texto vai se formando, cria forma viva, jeito próprio, pelo menos gostaria que fosse assim.

Sem um objetivo, tento compartilhar um sentimento, uma sensação. Escrever tem disso, dizer para um olhar curioso do leitor amigo, ou ao leitor desconhecido, uma invenção qualquer da prosa das mãos daquele que não lembra como é deixar de querer escrever. O zumbido das teclas e o dedilhado às vezes frenético, às vezes espaçado, são memórias pouco esquecidas para um escrevinhador pouco criterioso. Escrever para mostrar aos outros  aquilo que poderia ser uma história só minha. Encorajo-me e lá vou eu.

Tento não furar as expectativas. E um desastre anuncia-se: penso que não consigo mais imaginar. Inspira, respira, transpiro. Vou até a cozinha, água na chaleira, um café poderia melhorar? Resolvo não saber. E tateio muita coisa acontecida nos últimos tempos, dignas de contos, crônicas ou um romance inteiro, e nada. Nadinha da Silva (ou Silvia? ou nada disso?). É, nada demais por hoje, nada de menos, por ora. Será que não sei mais contar uma história?

...

Deu branco de novo. Vixe, que papinho, hein, Dayane. Isso virou mesmo uma novela.

4 de outubro de 2010

balloons




amantes soltos

Foi paixão primeiro.
Nervosismo depois.
E pernas trêmulas durante.

Não é amor.
Não é compromisso.
Não é de verdade.

Tem uma pontada de medo.
Tem um cheiro permanente disperso próximo atraente.
Tem respiração cheia de intervalos longos.

Percebi você quando não restavam mais dúvidas: há dúvida.

Pedi pra você ficar mais.
Perdemos a hora da despedida.

Desistimos da opção do talvez.