18 de maio de 2012

das ausências

A voz doce não cansa de acenar encanto

Desci correndo pelas escadas. Todos ficaram no andar de cima, acharam que eu retornaria a qualquer momento, mas não olhei pelas costas. Tanto que já não senti mais aquela dor insuportável quando pendia para o norte. Desci degraus pares, para conseguir substituir o olhar pendular de Dona Cristina, lá da cozinha, pela minha certeza ao atravessar o quintal. No chão de barro já havia algumas amoras prontas para serem colhidas, mais adiante o pé de abacate estava coberto dos seus frutos verde-bandeira, amadurecidos também. E lá no fundo da garagem, ouvia Lucas pular do skate, desavisado, caía desajeitado sem saber manobrar seu novo brinquedo. Olhei para a fachada da casa, soltei os meu sapatos perto do portão menor, aquele por onde mamãe recebia as visitas, fui mais adiante. Sorria e corria em passos largos, firmes, clássicos. E logo fui tomada por uma dança, um solo, compassada em notas de um choro. As vizinhas começaram a olhar pela janela, curiosas, interessadas. Não entendiam de onde vinha aquela canção. O meu vestido branco-copo-de-leite, ora flor, ora líquido brando despia-me nas sutilezas de quem se veste para seu orixá às sextas-feira. Segui os espaços menos esburacados da avenida principal. Lá estava. Avoada. Um pouco cansada. Passei pela casa do Jorge. Mais adiante vi Samuel e Lia. Eles não me viram. Adentrei a vila dos pescadores. Caminhei mais cinco minutos. Cheguei no mar e finquei os meus pés já presos na areia, esgotando-me.

A tarde já arriava suas inseguranças de não anoitecer.

Carreguei-me até não conseguir vencer qualquer presságio - eu, marítima - junto ao desejo de meditar o fim de não-estar, de não-ser outrora.

17 de maio de 2012

palavras do orvalho

para Juê




Anotações de um diário clandestino:
Às vezes não dou conta.
Muitas vezes não quero ver.
Outra vezes me dou por satisfeita.

Avenidas,
Gargalhadas,
Máscaras carnavalizadas,
Marcas de um dia de fevereiro.

As encenações não estão postas
- Necessidade de realidade -

Eu, singular?
Eu e a minha fé remota. 
Eu e minha escrita particular, modulada pelo meu amadorismo, pois não sei rimar.
Crise existencial?

Às vezes, remo.
Muitas vezes, afundo.
Outras vezes, me salvo.
Anotações de conclusões literais.

Janelas solitárias. 
Mágoas.
Fantasmas.
(Marcas de um qualquer)

Há uma solitude, necessidade de poesia.

Eu?
Resguardo.
(Afinal...)

___________________


Salvador, Outono ou Inverno?, chove muito, 17 de maio de 2012.





2 de maio de 2012

imagens e letras em trânsito

para Fi, 
minha querida

Eu tenho tanta estrada em meu caminho
E muitas ilusões pra tropeçar
Quem segue a tua luz não vai sozinho
Tem sempre uma estrela pra guiar


Em cada rodoviária, vou até você e volto. Toda vez que preciso partir, quando adentro um ônibus, numa nova estação de embarque, me remeto a você por alguns segundos. E por causa disso, por causa dessa saudade que vai e volta junto às malas dos passageiros, presa à inconstância das vidas num lugar como esse, resolvi construir um diário aéreo. Em cada nova partida, vou até você e volto. Num cartão-postal. Adoro tal tipo de correspondência. Gosto de ficar redesenhando aquela imagem e todos os seus desdobramentos. Em cada um deles, suas fotografias fazem um novo viajante. Ah, se cada turista resolvesse desmontar os olhares fixos dos postais, transformaria sua viagem num novo começo. Viajar é achar um lugar nunca habitado por ninguém. Desconfio sempre das cidades que ainda não fui. É como se não existissem. Até que tenho a oportunidade de aportar por lá e o cartão-postal vira uma das referências e toda a cidade se constrói. Casas, prédios, pessoas, hábitos, comidas e perfumes. Uma mudança de espírito. E então todos fazemos parte da mesma chegada, a minha até ali - mesmo que tudo já morasse naquele cartão remetido, lá na rodoviária para você.

1 de maio de 2012

a poesia do espaço

Cheguei em você assim como quem se atrai pela luz do farol de Itapuã, depois de nadar léguas e léguas... e então avista um repouso em tal novidade praiana, um novo norte. Salvador não seria a mesma se não fosse a sua geografia. Cartografo-me em seu corpo, dimensiono toda a baianidade na nossa ginga, pra depois ganhar as ruas soteropolitanas com passos demarcados mais pela curiosidade de um viandante, menos pela agressão da ocupação de um forasteiro. Percorro toda a orla, da Barra até Piatã ou do Rio Vermelho até Flamengo, sem a pauta de um turista. Fixo-me nesses dias claros, sol a pino e algumas pancadas de chuvas, que nada lembram o outono de Santos e anunciam um inverno ameno. Tudo tem sido sem grandes pretensões, sem a necessidade austera em acolher os seus segredos - porque, sagrados. Meus pés já não são tão SP, e toda a performance atual dos meus quereres estão em SSA. Danço e despeço-me das agruras do paulista marrento, sorrio e sambo como quem sobe o morro e se percebe em paz com os seus, os nossos. É. Estou bem. Você me ensinou a geografia da unidade.


Trecho do filme "Barravento", de Glauber Rocha (1962). Os pescadores de uma comunidade da praia de Buraquinho (Itapuã, Salvador, Bahia) realizam a puxada de rede do xaréu.

16 de abril de 2012

eu, música

                                                                                                                                              Em uma hora não determinada, forjam-se Maria e Eduardo, Sebastião e Tiago, Italo e Monique, Maria e Suzana, todos se trombaram em alguma estação, de rádio FM, ou de trem, e lá havia uma música, só deles, só eles ouviram, pois, só eles guardarão na lembrança dos gestos inéditos a melodia do casal, feita na sintonia sem embaraços, desenhada na partitura construída a partir de então.



8 de abril de 2012

eu, não


Todos perguntam se eu vivi tudo. Tudinho? Nada, não teria tempo para isso, baby. Escrevo em eu's inventados, depois de percorrer avenidas íntimas ou alguma praia habitável. Aprendi que não deveria abusar dos adjetivos. Uma pena, professor! Adjetivos são a parte doce da língua. Só causam diabetes em última instância. I'm so sorry, but... ABUSAREI das adjetivações até segunda ordem, ou seja, até outra estética textual chegar e me levar para outras ideias, sensações e construções literárias. 

Escrevo para não morrer de embolia, para comprar um pão fresquinho de manhã e saber comê-lo e para esquecer as vidas deixadas nas frestas ou vãos dos desencontros. Já me desencontrei de você hoje? Não conheço os meus vizinhos. Eles só aparecem quando batem a porta atrás de si, para apagarem-se em seus cotidianos espalhados em tapetes simétricos à cor da geladeira. Nunca enfrentamos o mesmo corredor - será que nos apaixonaríamos? Teríamos filhos? Ou te odiaria como quem rasga a diplomacia e política da boa vizinhança? Não vejo o seu rosto, stranger. Os seus horários não combinam com os meus. Falta sincronicidade. Sintonia. O raio que o parta. Ou algo assim. 

Porém, não se dê ao luxo por não vê-lo, caríssimo(a). Tanto que eu escolhi não ver mais.

*

Escolhi esquecer aquele adeus, quando o fulano ou beltrano resolveu sair e não se despedir das roupas jogadas no banheiro e das louças empilhadas do último jantar. Fui embora também naquele dia. E vou embora mais um milhão de vezes, enquanto o ponto-e-vírgula  for  maior e as permissões se ocultarem. 

*

Você PERMITE-SE viver, leitor?

Você já olhou a cor dos olhos do seu vizinho? 

*

É domingo aqui. Sinto um cheiro de frango com batatas, haverá um almoço de família no 203? Acho que o meu vizinho está com visitas em casa, ouço crianças extra-habituais correndo em cima da minha cabeça. Dia dos encontros forjados? Eu não sei me fantasiar de filha, neta, prima. E fico matutando como seria a persona de todas elas. E de tais papéis sociais vão se construindo imagens, personagens, vidas para além de nós. Então adjetivos são criados, juntos com palavras substanciadas por sentimentos orgânicos.  Em resumo, cumpro a minha sentença com todos os meus eu's. Das ausências, dos desencontros, excomungo-me. E enraízo outra esquina, porque as quinas nas ruas são pontos comuns (mas pouco ocupados) - VOCÊ estará lá, me espera?

*

Eu não sei me desencontrar, sei mentir e inventar. A minha escrita é sua? A gente pode sair por aí mais tarde. Todos os cafés, praças públicas ou botecos poderão nos receber. Chegue mais. Avizinhe-se. EU estarei lá, ou não, my dear.


*


Para ouvir lendo. Experimenta!

Sheila Take a Bow

Is it wrong to want to live on your own?
No, it's not wrong - but I must know
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Is it wrong not to always be glad?
No, it's not wrong - but I must add
How can someone so young
Sing words so sad?

Sheila take a, Sheila take a bow
Boot the grime of this world in the crotch, dear
And don't go home tonight
Come out and find the one that you love
and who loves you
The one that you love and who loves you

Take my hand and off we stride
You're a girl and I'm a boy
Take my hand and off we stride
I'm a girl and you're a boy

Sheila take a, Sheila take a bow
Throw your homework onto the fire
Come out and find the one that you love
Come out and find the one you love

3 de abril de 2012

nossa bicicleta oceânica

releitura do texto:



Para Noelle e Pietro


                               Um casal e suas bicicletas. Uma praia.
                                                    E um registro cinematográfico.

Márcio, olho adiante e deixo a maresia, esse vento praiano, as cores do mar ao fundo nos espiando. Somos protagonistas deste seu filme, olha lá, as crianças brincam e correm de um lado para o outro. 
Outros namorados caminham soltos, mas agora somente seus olhos registram este capítulo dos encontros amorosos da humanidade inteira.
Somos um trecho de tantas histórias que já existiram, acontece em nós, e surgirá para outros casais.
O amor não para, ele não espera. 
Dentro de nosso passeio de horas vivas e que se alargam a cada segundo a frente, num progresso calmo, de onde você me vê, e porque me vê, sim, percebe meus cabelos despenteados, e meu rosto tão seu, bonito para os seus olhos, assim, Márcio, vou sendo vista por você para sempre neste filme, para todas as gerações futuras que procurarão alguma verdade na nossa união, no nosso pacto destas horas eternas.

22 de março de 2012

novos ares ou declaração de amizade ou saudade

Aos meus queridos, com carinho

Quem partiu vai em partes para toda parte e se debate com as partes trazidas, daqueles guardados na margem da despedida* 

Acordei madura de ideias. Tive vontade de escrever e-mails, cartas e posts novos no blog. A minha amiga Jan escreveu de Jundiaí: Lua Nova em Áries, tempos novos, hora de colocar a criatividade e a intuição para funcionar. Gostei! Gostei tanto que mudei a cara do meu blog. Mudei as cores e o formato. Isso de mudar os "apetrechos" sempre funciona comigo. Só nunca tive coragem de mudar a cor do cabelo. Mas quando mudo a cor das unhas e do batom sempre trazem resultado. Parece que ficamos visíveis, de alguma maneira. Os amigos notam, alguns transeuntes soltam elogios pitorescos e a vontade de viver toma um jeito especial - mesmo que seja por algumas horas.

E falando em mudanças, hoje faz um mês e dez dias que estou morando em Salvador. De repente, mudei de cidade e de paradigmas. Tenho me erguido de uma forma diferente, quando levanto do sono pela manhã. É como se Salvador sempre tivesse sido minha casa, mesmo eu nunca tendo colocado os pés nela. Ando por suas ruas e avenidas e me reconheço. Olho para o azul-sem-fim do mar e vejo um horizonte promissor. Não sei ainda qual é o meu Orixá, porém, já concebo a existência deles. Caminho pelo centro histórico, mais precisamente pelo Pelourinho e tenho a sensação de ter vivido ali em algum momento - deve ser a presença dos meus ancestrais?

Ainda não consigo descrever o que é realmente morar na Bahia. Sei dessas impressões e do quanto hoje retomei desejos ou paixões sinceras. Muitas vezes nos tornamos prisioneiros de verdades ingratas e colocar o pé na estrada faz lembrar que o mundo gira e é necessário se deslocar. Eu sempre tive essa sensação, mas algo me prendia na minha terra natal. Foram vinte e nove anos e alguns meses, um punhado de amigos e  segredos literais escondidos nas ruas e canais de Santos. Mas hoje sinto que cumpri a missão por lá. Hoje quero mesmo é ser uma cidadã do mundo. Sem lenço e sem documento, como cantou Caetano? Sei lá! Mais mesmo com uma identidade em constante transformação. 

Poxa, lógico que sinto saudades, muitas saudades, dos meus amigos e familiares. Boas conversas numa mesa de bar na Rua do Comércio, tragos de cigarro na praça do Gonzaga ou horas a fio de dias caiçaras não se constroem de qualquer jeito. Quando se é filho de migrantes, sua família passa a ser seus amigos. E os meus amigos são minha família, é fato. São meus irmãos, meus companheiros para qualquer lugar aonde eu for a partir de agora. Os nossos destinos já foram cruzados. Meus filhos vão ter muitos padrinhos. Às vezes passeio por uma praia de Salvador e ao caminhar nas areias daqui, fico parafraseando Gonçalves Dias em sua Canção do exílio ("Os pássaros que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá"). A praia daqui não me leva para o mesmo mar de lá - brinco em sentimentos saudosos. 

Ao mesmo tempo, não sou exilada da minha terra, vivo em Salvador por uma opção, por uma busca pelas minhas raízes afro-brasileiras, pelo reconhecimento dos meus entes nordestinos, por um novo jeito de ser mais brasileira, menos paulista. E aí vejo que está tudo bem. Em breve, a Maria vem me visitar, e depois vem a Raquel, e vou escrevendo cartas, mandando torpedos àqueles que estão longe - e perto -, quando preciso matar as ausências. Hoje queria preparar uma festa para receber todo mundo no final de semana, vocês viriam?

Hoje acordei com ideias mirabolantes...

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*sms para o meu amigo Nego :D

14 de março de 2012

da primeira manhã de um casal

'eu faço samba e amor até mais tarde'
(Chico Buarque)


A chaleira vermelha dava pequenos estalos. Eu preparava nosso primeiro café da manhã. Pão de sal ou cuscuz, você não sabia escolher. Enquanto a água esfumaçava a tampa de vidro do fogão, dizendo que o pó de café poderia ser coado, olhei para você e você sorriu - sentado em pouso na entrada da cozinha. Três segundos depois disse que queria mesmo pão. E a chaleira fazia o grito das primeiras horas de todas as manhãs, senão vibrasse esta tão concatenada, derramando-se pela familiaridade ao redor. E você sorriu pela terceira vez. E eu já não sabia se sorria de mim ou para mim, se queria mesmo pão com café ou leite e cuscuz. Então continuou a me espiar, a fotografar os meus gestos enquanto eu levava a água fervente até o coador branco - observava para saber se me concentrava mesmo para além de nós? Entre os minúsculos grãos de café se liquefazendo e a vontade de desistir do desjejum, fui buscando aquilo que nos trouxe até aqui. Era o quê? A praia, o samba ou as leituras no sarau no Pelourinho? Foram tantas cervejas e acarajés antes de você estar na cozinha de casa, foram flertes pouco encorajados e piadas 'bonitinhas' pela espontaneidade de me ver falar coisas pouco embaraçosas, porque eu tinha medo de mentir. O aroma cafeinado se instalava no reajunte dos azulejos, então você veio sorrateiramente, com menos risos, puxou um abraço, sem sugerir, indicou que poderíamos ir para o quarto e deitar mais alguma melodia outra vez.

O café ficaria para depois.

7 de março de 2012

cartas marítimas IV

São Paulo, 23 de fevereiro de 2022.

Ana,

precisei dessas semanas de ausência, desses dias perto do Pedro, longe de todas as parafernálias que nos convocam e assombram o tempo inteiro em São Paulo - por isso, a demora para responder suas cartas. Envio os originais do meu futuro livro: Náufragos e líricos - sim, foi assim que resolvi chamá-lo. É um livro de contos. E todas as histórias e personagens estão mergulhadas na ida sem volta, no quase, no limiar, e depois apogeu da entrega, e da luta para não sucumbirem à morte anunciada, quando descobrem a inutilidade de tudo isso, mesmo não sabendo/ podendo fazer diferente. São personagens apaixonantes, mas muito ingênuas. Tive dó, muita vezes, de alguns deles.  

Não gostei muito das suas últimas cartas. Na verdade, fiquei bastante preocupada com você. Pois não consegui entender tanta fúria. Ou melhor, eu entendo sim, mas dói ver alguém rasgar os pulsos e cartografar em sua própria pele tamanho desespero. Afinal, mesmo quando sabemos de tudo isso (amores naufragados), ainda é necessário escolher uma esperança - uma possibilidade de rearranjar a dor num outro prumo, naquele que não ameace tamanho desgosto. Você é uma poetisa, minha amiga, e tem a promessa de re-significar os olhares. Quando leio e releio seus livros, lembro o quanto sou feliz pela nossa amizade, o quanto sou grata por tudo que já dividimos até aqui. Então não posso permitir essa sua briga com a idade, com o corpo. Perde-se a rigidez dos músculos, e ganha-se disposições para melhor contemplar as horas.

Pedro e eu queremos você muito bem. Venha para o Brasil nos visitar, que tal?

Minha querida, dediquei o livro ao Pedro e a você. Estou ansiosa pela sua leitura, penso que vai ter algumas surpresas. Depois da cirurgia, fiquei bastante sensível à impossibilidade de caminhar. Porque andar sempre foi uma necessidade minha de ir e vir, de partir e voltar quando eu quisesse. E nestes meses que precisei resguardar os pés e conter-me com o cotidiano às janelas do apartamento na praia, me senti limitada sem a presença da cidade e seu arcabouço de gente e concreto. A varanda de Santos emoldurava o sossego que não vemos em outras geografias, seja as praianas ou mais bucólicas. Mas também engessa os sentimentos e a vontade de desejar outros mares e horizontes, tamanha tranquilidade. 


E aí nasceu Náufragos e líricos e assim me vi disposta a pensar num outro livro, um romance. Quero escrever a história de um casal separado pela tragédia de uma menina suicida; eles não veem a morte da garota, mas vivenciam seus próprios dramas ao estarem, em momentos diferentes no local do acidente. Vamos ver o que consigo, os meus dedos estão frenéticos por estes tempos. Devo escrevê-lo em breve.

Vou aguardar sua resposta. Olha, tudo o que eu realmente gostaria de dizer para você, neste seu momento de angústias e renúncias está nestas narrativas do livro de pessoas tão femininas e estremecidas pela perda e resignação constante.

Saudades.

Um beijo e abraço,

Maria Paula


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Maria Paula corresponde-se com Ana, personagem de A janela poética, da autora Noelle Falchi em:



Tais cartas nasceram daqui:

Cartas marítimas I

6 de março de 2012

meus dias inquietantes na Bahia

Papel em branco, poderia ser o título deste post. Porém, decidi por algo escancarado: meus dias inquietantes na Bahia. É. Hoje faz quase um mês. O que parece muito mais. Às vezes tenho a impressão de ter passado um ano, já. Porque a Bahia me abraçou, me engoliu, igual aquelas paixões avassaladoras. E o que é mais interessante é o gosto da mudança - é fazer-se estrangeiro, mesmo falando português, mesmo tudo isso sendo Brasil. O diferente aqui é poder respirar a forte presença de ancestralidade africana, de cultos populares ainda respeitados por muitos. No domingo fui numa roda de capoeira angolana, e quase entrei em transe, com a roda e seus corpos dançarinos em golpes leves, deslizantes em chão de pedra e  dotados de espírito sagaz. Estávamos em plena praça pública e todos paravam para olhar, aquele jogo, cantado, suado, ao som da percussão, das vozes e do berimbau. Ali entendi o meu presente, e todo meu estado de euforia. A Bahia me abraçou, depois deu um sacode e pediu para eu ficar. Tornei-me um papel em branco, assim. Se todo escritor vive a liberdade e a solidão ao começar suas histórias, confesso: Salvador é uma festa e eu preciso me escrever nela/ dela/ com ela... e deixar escapar o silêncio do começo, até o fim.



11 de fevereiro de 2012

da perspectiva de quem vai

quando o táxi arrancou, nos despedimos em quereres conflitantes, e você segurou-se no levante do impulso do soluço, e seus olhos marejaram, e eu olhei pela janela, dentro do carro, te deixando presa num quadro concreto, de carne e osso. quando fui me vendo partir, e ir, vi como é ficar, e como é querer ir, e já fui, já estou, longe de casa, da praia, dos canais, dos meus melhores e piores anos na Santos que sempre será minha referência, meu colo amigo e briga familiar. quando a ficha caiu, quando senti um calor solar e um vento baiano nos cabelos, não segurei a emoção, porque os meus olhos presos naquela cena de você me amar e me deixar ir é a extensão do nosso cordão umbilical e a ruptura das raízes paulistas - por ora?

Bahia, 11 de fevereiro de 2012.

18 de janeiro de 2012

nota sobre a falta de inspiração

Não ter uma inspiração pronta prejudica o sucesso do texto. Nestes tempos de tantas mudanças, tentar poetizar   tem sido difícil. Além disso, ando muito careta, sem vida boêmia, sem cigarros, ando apagada pela falta do último trago, da falta da lua antes de amanhecer. Muito pelo contrário, agora bebo chá para dormir e vou para cama depois da novela das oito. Mas escrever é fingir, viu. Por isso, ando querendo fingir tudinho, o amor, o gozo e a dor. Posso? Ah, caro inspetor dos sentimentos alheios, você que parece saber de tudo, você que recrimina a doçura, me deixe em paz, porque quero guardar o meu soluço esperançoso numa prosa ou num conto, sem a sua censura. Afinal, ainda sonho com uma vida menos patética, menos ácida. Não diga aquilo que devo pensar ou sentir, sua política não cabe em mim, pois sua rebeldia não me assusta. Dá para respirar romances e atuar na desorganização do crime armado, tudo ao mesmo tempo. A linguagem literária rasga e destroça gente imbecilizada, já tentou desta maneira? Poesia nunca foi resultado de ignorância da fome. Um poema pode segurar o suplício de uma nação inteira ou ser um tiro no pé do fulano desatento com a sua condição.

Isso aqui é só uma nota, no próximo post trabalho melhor as ideias, mesmo se não tiver inspiração suficiente.

10 de janeiro de 2012

nota sobre o tempo dos encontros

Nunca mais. Nunca mais é tanto tempo. E com o tempo não há vacilos. Não há senões. Não existe meia-volta vou ver de novo ontem. Porque as horas se dilaceram de forma contínua, sempre para um momento derradeiro. Nesses últimos dias, tenho reparado no desgaste do tempo. E lembrei de algumas pessoas que já não fazem parte do meu cotidiano. Notei que algumas pessoas realmente têm um prazo de existência em nosso convívio, nos escapam quando dobram uma esquina, num dia qualquer. Não sei bem o que devemos fazer com isso, quando se sabe disso, quando nos deparamos com essa constatação. Vez ou outra, reencontro um ex-namorado meu. É incrível, mas nunca deixamos de nos trombar em alguma rua de Santos. E há uma felicidade em revê-lo, por alguns minutos, revisito uma lembrança boa. Porém, outras pessoas viraram numa esquina por onde nunca mais passei, tenho essa impressão. Às vezes é como se elas tivessem entrado para uma outra dimensão e passássemos a não fazer parte mais do mesmo trajeto, mesmo que a gente more na mesma cidade ou bairro. Daí, concluo: deve haver a manipulação dos encontros, desencontros - só pode! Existimos para alguns pela vida inteira ou por alguns anos ou só por semanas. Então, não adianta, as horas sempre vão levar alguém de nós, saber fazer uma boa despedida, se possível, aí, sim, é fundamental.

9 de janeiro de 2012

cartas marítimas I

Santos, 23 de janeiro de 2022.

Minha querida Ana,

Escrever cartas tem acompanhado meu sossego.

Aqui na praia a rotina anda em marcha lenta. As pessoas realmente esquecem do cansaço às 19h30, enquanto fazem caminhadas no calçadão ou colocam suas cadeiras de plástico próximo da faixa de areia para jogar conversa fora com algum amigo. São hábitos bastante diferentes dos nossos. Mas não reclamo, não. Isso de poder ter uma rotina mais calma está me fazendo bem. A recuperação da cirurgia das minhas pernas vai bem com isso, com essa lerdeza das horas perto do mar. 

Os médicos estão confiantes que voltarei a andar sem muletas tão logo. Enquanto isso, escrevo cartas e tento dar continuidade ao livro de contos, que havia começado antes de ser operada - tudo da varanda, do vigésimo andar, de frente para a orla da praia. Não sei se mencionei algo sobre este livro para você, minha amiga. Será um livro curto, com treze contos, todos entrelaçados com a mesma temática. Não vou contar o que é exatamente porque quero enviar os originais a você. Gostaria que você e  Sabrina lessem.

Além disso, Pedro e eu temos conversado bastante por telefone. Não tem jeito, com ele preciso do mínimo de contato real, mesmo que seja vê-lo em imaginação ao ouvi-lo. Porque ao falar com ele, acho que me recupero mais rápido, fico empolgada para terminar o livro também. No próximo final de semana, já estará de férias e poderá ficar comigo até o fim da minha estadia em Santos.

Ah, estou louca para conhecer a casa de vocês. Soube que aí tem bastante damasco, não é? Tenho uma receita de torta de damasco deliciosa. Aliás, este é o doce preferido do Pedro. Quero aprontar uma dessas quando for visitá-las.

Bom, fico por aqui, não quero me estender mais. Até porque, se você notar, essa carta está ausente de emoções. E a praia é só a praia. A cirurgia foi bem, obrigada. Pedro e eu estamos ótimos, nunca nos cuidamos tanto. E o livro flui como quem nada em rio raso, sem grandes correntezas. E você sabe, não sou assim. Preciso sempre de um frisson, para ganhar os dias toda corada de vontades novas e sensações pré-fabricadas, antes por uma novidade, depois pela minha capacidade de ser abduzida para um estado de euforia. Enquanto  não me recupero por completo deste deserto emocional, prefiro terminar essa carta aqui. Sei que você entenderá. Mas não deixe de mandar notícias. Segundo os médicos, é muito importante para um enfermo ter os entes queridos bem perto, mesmo só em palavras.

Amo você,

Maria Paula.

27 de dezembro de 2011

das setes ondas

Esse ano está indo e junto dele vai também um montão de promessas cumpridas. Cumpri os desejos jogados ao mar em 1 de janeiro de 2011. Pedi lá um tanto de coisas para Iemanjá. Pulei as sete ondas. E aos passos dados para trás, naquela primeira madrugada do ano, enquanto recuava e orava por um ano prestigiado por emoções, percebia o horizonte oceânico e sonhava, um futuro, com flores, espinhos e jardins.


E assim foi, conheci tanta gente. Ganhei novos amigos e principalmente andei lado a lado com os velhos parceiros, gente que não me abandona nunca, e eu não os largo jamais.


Vivi experiências incríveis. E trabalhei muito, na ideias e nos projetos-sem-fim.


Agora o ano está terminando mais uma vez. Está na hora de contar mais sete ondas, mais sete desejos. Mas o que eu gostaria mesmo  é poder  decolar com todos as sementes plantadas neste 2011. Dar sustância para todas elas, assim como quem devota-se às rosas polinizadoras. Porque a metáfora do jardim cabe mesmo aqui.


Do cuide do seu jardim e todo resto se desvela. Aconteceu comigo. O olhar horizonte do mar-floricultor condiz. Mar profundo e vida aprofundada em lírios e emoções gratuitas, complexas, vividas.

Obrigada, aos deuses e aos meus queridos.

10 de dezembro de 2011

sem pares (necessidade urgente VI)

"Eu pensei em deixar você
Me livrar da dor e voar"
(Entre a união e a saudade, Mombojó)


Seguia a pressa de chegar. Mas sentia-se puxada para trás. Era um pêndulo. Uma gangorra. Dos pensamentos, das lembranças do Fábio, dos cinco anos juntos, da briga, do UFC, do apartamento inabitável, da separação, da briga, ia em passos sem ritmo. E continuava. Andava para chegar logo. Do lado direito, enquanto caminhava carregada pelo desespero, o trânsito não seguia seu fluxo normal na avenida.  Os carros começavam a diminuir a velocidade, quanto mais Alê aproximava-se do Paternon. Apertava a bolsa de crochê amarela entre o braço esquerdo e a parte lateral do corpo, apoiada no ombro. E a cada passo o concreto asfalto abria-se, Alê afundava-se, mas seguia resistente, em chutes no ar, dispersando poeiras, sujeiras e odores microscópicos no caminho travado ao longo das cinco quadras da Avenida Araújo de Medeiros.

Sem olhar muito para os lados, permanecia calada, sequer balbuciava um daqueles sons quando uma tempestade de angústia nos toma. Nada disso. Só os carros ameaçavam sua mudez. As buzinas tiravam sua concentração. Afinal, o que estava acontecendo por ali? Era meio-dia e pouco, e o que justificaria aquela lentidão toda dos automóveis? Perturbada pelo barulho que começava a ampliar o tempo escandaloso de penetração em seus pensamentos traiçoeiros, afastou o objetivo que a levava correr tanto. Por alguns poucos minutos, esqueceu do Fábio, da fome, da carteira de motorista no despachante, da briga, do Fábio. Os carros não paravam de buzinar, cada vez mais. 

E passou a notar as pessoas que vinham em sua direção. Algumas falavam sozinhas. Todas com passos curtos. Alê não conseguia dar mais passos distantes. Os passantes que vinham em sua direção encenavam um cortejo? Seu objetivo era chegar no Paternon, andar mais dez metros, dobrar a esquina do Bar do Esaú e subir para o apartamento deles, no Majestic. E foi afundando os pés passo a passo. E esquecia e lembrava onde queria mesmo chegar. Então, desacelerou de uma só vez, enquanto os rostos esverdeados das pessoas se chocavam com o dela, enquanto o trânsito tornou-se insuportável com os gritos e ecos das buzinas, e logo, os de sirenes também. 

Já menos de uma quadra antes de chegar até o Paternon, não só os carros engarrafados, mas também as pessoas paralisadas pelo ambiente sufocante na Avenida Araújo de Medeiros tornaram inviável continuar dali. E foi parando. Parando. Aproximou-se de uma banca de jornal, a cinco metros do Paternon e perguntou:
- Por favor, senhor, o que está acontecendo? Está tudo parado.
- Pois é, moça... foi um acidente. Ou melhor, uma tragédia. É, uma tragédia. Uma moça caiu lá de cima do prédio novo. Imagina para quem é família dela. Coitados. Uma dor muito grande, deve ser. 
- Do Paternon?
- Isso. Isso mesmo. Disseram que era novinha. Uma moça nova. Pulou. Ou sei lá. Caiu. Se jogou.
- Ô gente. - Sem agradecer a informação, Alê virou as costas para o rapaz da banca e deu mais alguns passos em direção ao Paternon. 

Mas não enxergava mais nada. Uma pequena multidão pipocava, próximo do prédio que orientava-a.  Pensava no Fábio. E pensava na queda da pessoa suicida. Sentia o estômago doer, travar de vez. Esquecia o grande propósito, até. Mais adiante, seus olhos molhados notavam a muvuca. Duas ambulâncias, carro de polícia, trânsito parado. Então seu corpo foi criando tensão para recuar. As pernas voltaram a ficar agitadas e trêmulas. A pressão caiu. Sentou na guia da calçada, uma rua antes do Paternon. Já não poderia prosseguir. O que fazia mesmo ali? Juntou a bolsa no colo, entre as pernas, e olhava para toda aquela paralisia generalizada e enxergava todos numa mesma sintonia. A menina morta, os automóveis impacientes e todas as pessoas que vinham  daquelas bandas, ausentes de coragem, presas no vão da morte alheia. 



Este texto faz parte de uma ciranda literária com o Wilson Franco: errancias.wordpress.com.
Para acompanhar essa narrativa vale ler os seguintes links:
1) Abrir-se-vos-á
2) 
Do Majestic ao Paternon
3) Paternon
4) Do Majestic a queda
Vale a pena acompanhar... 
E a ciranda continua...

21 de novembro de 2011

somos todos andarilhos

       Ao Flavio,  
que deu luz à minha andança 
  
fez-se direção, da necessidade da pausa

Entre ir e ficar, sempre sigo e não quero voltar para o mesmo lugar. 
E o chão presente torna-se lembrança distante, porque desdobrou-se impulso aos calcanhares dos meus pés, rumo ao horizonte.

Entre ir e ficar, nunca esquecer a ebulição na transformação diária. Seja nos cabelos naturais que se descolorem pouco a pouco, quando termina mais um dia; seja ao vivenciar novas dimensões de um pensamento para alguma descoberta.

Entre ir e ficar, torna-se habitat natural qualquer lugar no mundo.
Mas faz-se necessário este lugar qualquer residir num lar, com paredes e chão sólidos.
Sem isso, aos moradores das ruas ou de suas anti-casas: viadutos, bancos de praça, roubaram-lhes a liberdade de ir e vir, partir ou ficar.

Entre ir e ficar, todos migram, nem todos com as mesmas condições, todos se deslocam, alguns mais, outros por caminhadas rastejantes, mas todos partimos, todos os dias.
E àqueles que acolhem nas mãos unidas em conchas alguma utopia, quando aposentarem os pés, (talvez) identifique nos seus passos rastros de poesia.




Para quê serve a utopia? (Por Eduardo Galeano)

17 de novembro de 2011

pausa da necessidade urgente

Fragmentos de silêncios
ou silêncios entrecortados de palavras soltas 

Quando a gente não sabe o que dizer, é melhor calar-se?

Calada fico, nessa necessidade urgente de viver e desabrigar o meu desassossego.

Ando pouco inspirada, mas longe disso ser ruim.  


Ando presa num destes estados de embriaguez atemporal... sem por quê, quando e como.

"(...) ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome 
Nos meninos que têm fome"

Ando refazendo a arquitetura do meus desejos. Acho que por isso, ando mais introspectiva do que nunca.  

Ando sobrevoando por meio de anotações fugazes das histórias que preciso construir.

Ando mudando o meu chão. Tenho refeito os trilhos que preciso seguir, não mais por um caminho de prazeres fugidios. 

Ando todos os dias um longo intervalo, entre um afazer e a constatação de uma nova ideia...

Ando me desarmando para o olhar alheio e aos meus medos...

Ando tão silenciosa, que até as teclas que acompanham as palavras escritas neste texto já me chamam atenção e dão o sinal de que preciso calar, mais uma vez.


(Me dá licença, vou logo ali...)

"Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar..."

(Citações: 1 - Esquadros, Adriana Calcanhotto. 2 - Preciso me encontrar, Cartola)